Os filhos do próximo século
por Felipe Bueno
Era uma vez um pobre homem sentindo-se excluído, cheio de certezas sobre como “consertar” esse mundo depravado e perdido. A ele foi dada a oportunidade de transformar seus ideais e suas ideologias em ação. A História traz exemplos de todos os tamanhos e consequências.
Um desses pobres homens foi Benito Mussolini, que escalou todos os degraus possíveis, de humilde trabalhador braçal a Duce, passando por fases de rebelde anti-establishment, intelectual incompreendido, jornalista de oposição a qualquer governo e parlamentar antidemocrático.
Escrevo essas linhas à luz da série Mussolini: O Filho do Século, dirigida por Joe Wright e baseada no livro de Antonio Scurati, lançada neste 2025 e que acabo de assistir.
Há nela uma sutileza estética: quem não leu o livro ou não conhece a realidade histórica pode se perder com o estilo talvez excessivamente contemporâneo, que permite, por exemplo, uma trilha sonora escrita por Tom Rowlands, que nada tem a ver com o que se ouvia na primeira metade do século XX. Por outro lado, as referências estéticas a ícones artísticos do passado são abundantes, como o expressionismo alemão ou a quebra da quarta parede usada por Laurence Olivier em Ricardo III (com quem Benito, aliás, tem diversas semelhanças de caráter e modus operandi).
Tal contemporaneidade estética, somada a um certo comportamento histriônico, quase caricato do personagem Benito e de seu séquito fascista, pode levar desavisados a achar que o Duce era um ser humano bronco e ignorante que passou boa parte da Segunda Guerra Mundial lambendo as botas de Adolf Hitler. A realidade é mais complexa. Tal erro de simplificação custou caro nos anos 1920 e custará ainda mais caro hoje: se parte de seus seguidores era composta de fato por vândalos sem o menor grau de civilização, ao longo de sua trajetória, Benito, homem letrado e estrategista, arregimentou o apoio de porções supostamente civilizadas da sociedade italiana – e mundial.
Guardadas essas ressalvas, a série é recomendadíssima e o desempenho do ator principal, o romano Luca Marinelli, é espetacular. Para quem quiser se aprofundar sobre o tema, o livro, muito mais convencional que a série, vale a leitura.
Estamos em 2025. Parafraseando o título da obra de Scurati, a essa altura já teremos o filho do século XXI?
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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