10 de junho de 2026

Um cordão sem ponta, pelo chão desenrolando, por Gilberto Lopes

Homenagem a Sidney Miller nos seus 80 anos
Reprodução

▸Autor Gilberto Lopes reflete sobre sua jornada, inspirado por canções de Sidney Miller, em busca de significado e saudade.

▸Lopes compartilha memórias e emoções despertadas pelas músicas de Sidney Miller, expressando gratidão e nostalgia em sua viagem pessoal.

▸O texto destaca a influência marcante da música de Sidney Miller na vida do autor, evocando sentimentos profundos e lembranças afetivas.

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Um cordão sem ponta, pelo chão desenrolando

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por Gilberto Lopes

Hoje choveu a tarde toda. Ia por uma estrada, caminhando só. Parecia um cordão sem ponta pelo chão desenrolado.
Rasgava tudo o que encontrava, a terra de lado a lado.

Eu também quero levar um dia toda a gente que virá caminhando, procurando na certeza de encontrar. Minha estrada, meu caminho, me responda: Se eu aqui não vou sozinho, quem vai lá na minha frente? Vai na frente um povo inteiro.

Vai violeiro, me leva para outro lugar.

Talvez quem conheça já saiba por onde vou, por uma estrada de Sul a Norte. Peço notícias de toda sorte, de noites que desconheço, de amor, de vida ou de morte.

Não vou só. Quem anda noite e dia, sempre encontra um companheiro. Trago comigo uma viola, para cantar o meu caminho. Alguém passou por aqui primeiro, na procura da alegria.

Já sabem com quem vou? Alguns devem saber. Outros provavelmente não. Na verdade, não vou sozinho, vou seguindo o violeiro, que vai lá na minha frente.

Faço viagem assombrosa, lembranças de quase 60 anos. Como um cordão sem ponta, o canto soa na vitrola. Quem canta é Sidney Miller. E Nara Leão. É ele quem vai lá na minha frente, violeiro levando-me para outro lugar.

Que lugar é esse? Eu mesmo não sei. Era uma lembrança que lamento ter ficado esquecida tanto tempo. Faz já 45 anos que trouxeram a notícia de sua morte. E 80 de que havia começado a caminhar. Tento acompanha-lo, sem certeza de encontrar.

Ouço de novo: –Sou violeiro caminhando só, por uma estrada, caminhando só…

De noites que desconheço. De madrugada que batem a porta quando a noite, quase morta, vai batendo em retirada…

Poderia dizer-se melhor? Prefiro continuar ouvindo. É “Botequim nº 1”: Tira de mim uma saudade. Quando o dia sai à rua e a verdade se retrata, se desfaz a serenata, morre um sonho, nada mais.

Quem nunca ouviu não pode imaginar. É preciso ouvir. O disco é de 1967. Para mim, uma das coisas mais belas de MPB.

Viro o disco. Ponho o outro lado. Não sem dizer, antes, que estou de acordo: vou procurar um jeito de não padecer, porque não vou deixar a vida sem viver. É preciso tentar, Sidney Miller.

Do outro lado me espera “O circo” (primo irmão da “Banda”, acho eu).

“Vai, vai, vai começar a brincadeira
Tem charanga tocando a noite inteira
Vem, vem, vem ver o circo de verdade
Tem, tem, tem picadeiro e qualidade”.

Como botar som nessas palavras? Com certeza hoje é difícil encontrar o disco. É preciso ouvir o LP. É preciso tentar encontra-lo. É como esse cordão sem ponta que gira na vitrola.

Continuo pela estrada. Ouço seu violão que canta, que todo mal espanta, que (quase) toda dor desfaz.

Que menina é aquela, que vem de longe, Sidney Miller? Que rosto é o rosto dela, que sorriso esconde? Não sabemos. Nem tudo está contado.

Mas aceito o convite. Chegou a hora da escola de samba sair, balançando a bandeira colorida, pedindo passagem pra viver a vida.

É você quem canta, num dos mais belos discos da música popular brasileira, o Chorinho do retrato, a Passa-passa gavião, e a Marré-de-Cy.

Que falta me faz ouvi-lo de novo, uma vez e outra vez. A saudade insiste, como você mesmo diz:

 “…não querendo ficar triste
Ficou triste sem querer
E de desgosto murmurou baixinho
De que vale ter teu rosto
Se eu não tenho o teu carinho”.

Vale pouco, Sidney. Obrigado. Alguma coisa queria dizer antes que acabe este ano, quando vocêfaria 80. Um abraço.

Gilberto Lopes é jornalista, doutor em Estudos da Sociedade e da Cultura pela Universidad de Costa Rica (UCR). Autor, entre outros livros, de The end of democracy: a dialogue between Tocqueville and Marx (Editora Dialética)

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