21 de maio de 2026

Argentina, tentando entender, por Angelita Matos Souza

Agora, por que boa parte dos argentinos insiste em votar no (neo)liberalismo, após experiências tão desastrosas, da ditadura a Menem e Macri?
Gage Skidmore - Flickr

Argentina, tentando entender

por Angelita Matos Souza

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Em setembro de 2025, durante um encontro à margem da Assembleia Geral da ONU, o presidente Lula levantou uma pergunta essencial: por que o campo democrático não conseguiu deter o avanço da extrema-direita? Creio que, para ensaiar uma resposta a essa indagação, é preciso começar por outra: como o legado dos governos de direita inviabilizou governos progressistas sempre que estes alcançaram o poder de Estado?

Não se trata, aqui, de negar os erros do campo democrático (seguramente são muitos), mas de tentar responder à provocação do presidente Lula de maneira menos unilateral. Como indica o título, tratarei da Argentina, iniciando pela última ditadura militar, uma tragédia em todos os sentidos.

Do ponto de vista econômico, o peso da dívida externa – a conhecida “crise da dívida” – inviabilizou o governo Alfonsín, que acabou transferindo o poder a Carlos Menem (vitorioso nas eleições de 1989) cinco meses antes do previsto, em meio a um processo inflacionário desenfreado.

O legado econômico do governo de Menem seria ainda pior que o deixado pela ditadura. Se, nessa, figuras influentes no governo vislumbraram na destruição da indústria nacional uma forma de eliminar o peronismo, foi sob um governo peronista que se concretizou a meta de reduzir drasticamente a participação da indústria argentina no PIB.

Menem aderiu com fervor às contrarreformas neoliberais: privatizações, abertura comercial, financeirização acelerada. A desnacionalização da economia foi intensa, o desemprego aumentou e a política cambial do “uno a uno” (um peso = um dólar) implicou, na prática, o abandono da moeda nacional. A preferência pelo dólar impôs-se como comportamento social dominante.

O resultado veio em 2001: um verdadeiro tsunami político e socioeconômico. É verdade que pesaram as crises internacionais da época: no México, na Ásia, na Rússia, e a desvalorização do real no Brasil. Porém, foi a radicalização das políticas neoliberais nos anos Menem que levou o país ao colapso. A situação de terra arrasada abriu caminho para o retorno do peronismo raiz, pero no mucho.

Em 2003, Néstor Kirchner chegou à presidência com apenas 22% dos votos, já que não houve segundo turno (Menem desistiu de concorrer). Em pouco tempo, construiu uma imagem positiva e consolidou maioria no Legislativo. Em 2007, Cristina Kirchner foi eleita presidente. A economia crescia, impulsionada pelo boom das commodities, e o casal parecia imbatível.

Talvez por isso, o governo tenha agido com tanta confiança ao propor a Resolução 125 em 2008, uma fórmula móvel para calcular retenções sobre algumas exportações agrícolas. Era uma medida economicamente pertinente, mas politicamente foi um desastre: decidida sem diálogo com os “atingidos”, sem distinção entre grandes, médios e pequenos produtores e sem uma campanha massiva de esclarecimento à sociedade sobre a sua importância. Enquanto a mídia dominante a apresentava como mais transferência de renda do campo produtivo para setores parasitários do Estado, o discurso oficial de “nós” (o povo) contra “eles” (os oligarcas) é que ganhou espaço.

O episódio representou um divisor de águas. O governo de Cristina passou a ser rotulado de “populista” por empresários, grandes veículos de comunicação e think tanks neoliberais. A Resolução 125 acabou não aprovada, todavia serviu à conformação da coalizão oposicionista que venceria as eleições de 2015, levando Mauricio Macri ao poder.

A partir de 2012, os efeitos da crise financeira global que eclodiu em 2008, com a queda dos preços das commodities, agravaram a crise econômica impulsionada pelos conflitos políticos internos. O governo reagiu com medidas de controle de capitais, o cepo cambiário e uso das reservas do Banco Central, que foram caindo, mas compensadas parcialmente por acordos com a China. O que impediu um novo 2001, previsto e desejado pela oposição.

Cumpre mencionar também o conflito com os chamados fundos abutres (fondos buitre): investidores que, em momentos de crise, compram títulos públicos depreciados e depois exigem pagamentos exorbitantes em tribunais nos Estados Unidos. Foi o que aconteceu com a Argentina: o governo perdeu a disputa judicial com esses fundos e se recusou a pagar o montante demandado, o que fechou de vez as portas ao crédito internacional.

Quando Macri assumiu, prometeu “normalizar” o acesso ao mercado financeiro internacional. Para isso, seu governo contraiu dívida para pagar os abutres, alegando que o país precisava reconquistar a confiança dos mercados. De início, houve euforia, depois, veio o colapso: o endividamento cresceu rapidamente, a desconfiança despontou e os capitais fugiram. Em 2018, a Argentina voltou ao FMI, com um empréstimo bilionário acompanhado das tradicionais e perversas condicionalidades.

O governo de Alberto Fernández herdou essa bomba e enfrentou ainda uma pandemia e uma seca severa. Foi, contudo, um governo fraco e não se pode descartar que tenha sido o candidato aceito por Cristina (sua vice) justamente por sua fragilidade. No governo Fernández, a inflação explodiu novamente, cenário que pavimentou o caminho para a ascensão de Javier Milei: tão excêntrico que até permitiu ao ministro da Economia, Sérgio Massa, um desempenho eleitoral razoável, apesar da inflação superior a 200%.

Nas eleições legislativas deste 26 de outubro, o desempenho satisfatório do governo Milei não surpreendeu; mais notável foi o índice de abstenção em torno de 33%. Vale lembrar que Macri também venceu as legislativas de meio de mandato e terminou sem sequer disputar a reeleição, afundado em impopularidade. Se os Estados Unidos não soltarem a mão da Argentina, talvez a história não se repita. Resta saber o que o país entregará em troca, e se a dolarização, finalmente, sairá do papel.

Agora, por que boa parte dos argentinos insiste em votar no (neo)liberalismo, após experiências tão desastrosas, da ditadura a Menem e Macri?

Arriscaria dizer que o antiperonismo é uma força política histórica, alimentada pelos próprios erros do peronismo, entre eles, o apego ao poder pelo poder. Entretanto, neste século, o núcleo explicativo parece estar na desnacionalização da economia argentina nas últimas décadas e na consequente internalização dos interesses de grupos estrangeiros, que jogam pesado no campo ideológico.

Contexto no qual a preferência pelo dólar é a expressão cotidiana de uma ideologia assentada na desconfiança de que a próxima crise está sempre no horizonte, ao dobrar a esquina. Tema para um próximo texto.

Angelita Matos Souza. Cientista Social, Mestre em Ciência Política e Doutora em Economia pela Unicamp. Livre Docente em História Econômica do Brasil pelo IGCE-Unesp e docente no IGCE-unesp.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. Edivaldo Dias de Oliveira

    29 de outubro de 2025 9:49 am

    A MASSA PENSA?
    Existe uma decisão coletiva tomada espontaneamente, sem orientação de uma liderança, de uma vanguarda?
    Edivaldo Dias de Oliveira271025

    A vitória de Millei e seu programa liberticida na Argentina nesse final de semana, parece responder afirmativamente a essa pergunta, se não, vejamos;
    Faz 2 anos que Millei assumiu prometendo uma nova Argentina, que sairia do buraco que o peronismo a enterrou.
    Para seu crédito, ele disse que o país passaria por dificuldades, antes da salvação gloriosa. O diabo é que discursos como esses, que ocorrem em muitos governos, não tem um tempo de duração. No entanto, poucos governos sangraram seu povo tão fundo, quanto o de Millei, desde que assumiu há dois anos.
    A eleição desse domingo se deu depois que o governo da Casa Rosada foi ainda mais corada a Casa Branca, de pires na mão esmolar ajuda para salvar o câmbio. Esta ajuda foi condiciona a vitória do governo na eleição desse domingo.
    Numa demonstração de suprema humilhação, o outrora orgulhoso povo argentino deu a Trump o que ele pediu, uma vitória substancial do partido de Millei, mesmo na peronista província de Buenos Aires.
    Parece um recado ao presidente, de que ele não tem mais do que reclamar para passar suas reformas, que levará os argentinos ao paraíso.
    Antes, porém, virão mais dois anos no inferno.
    O povo não deu ouvidos ao peronismo no sentido de deter a tragédia, preferindo apoiar o aprofundamento da mesma, mesmo sem que o governo, depois de dois anos apresente quaisquer dados que favoreça o povo argentino.

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