Quando Reagan sai das telas
por Felipe Bueno
É certo que alguma coisa está acontecendo no mundo quando Donald Trump refuta os “ensinamentos” de Ronald Reagan, ex-cowboy do cinema americano e, por muitas razões, ancestral ideológico do atual presidente dos Estados Unidos.
Obviamente, a provocação veio do Canadá – os canadenses, aliás, sabem faz tempo: “a culpa sempre é nossa”. A história começou quando o governo da província de Ontário colocou no ar uma propaganda criticando as taxações impostas por Trump. O argumento contrário remonta aos liberais anos 1980, numa fala recuperada de Reagan sobre os prejuízos causados pelas tarifas a quem as impõe a outras nações.
Reagan, grande fã de jujubas, recorrente dorminhoco em reuniões oficiais, era histriônico cinquenta anos atrás, mas deixávamos para lá porque ele tinha acesso ao botão vermelho. Passado todo esse tempo, sob os olhos do mundo atual, sobe rapidamente de patamar e se coloca na estante dos grandes estadistas do século XX. Nada como relativizar as coisas.
De volta à campanha canadense no ar: Trump reage – pelas redes sociais, como se espera dos adultos em 2025. Ontário recua. Tarde demais: em pleno fim-de-semana, vem mais uma facada de 10% na produção dos pobres canadenses.
Enquanto isso, o homem que rege o mundo com base em cálculos – lato sensu – abençoa o que seria o oitavo processo de paz, ou no mínimo cessar fogo, sob sua direção: entre Tailândia e Camboja. Nem vamos citar que ele achou um espaço na agenda para encontrar Lula na Ásia, como se nada tivesse acontecido entre Estados Unidos e Brasil meses atrás.
Pensando bem, vamos citar sim: afinal, nunca saberemos ao certo como foram os cinquenta minutos de conversa entre Lula e Trump. Mas temos de reconhecer a potência simbólica do encontro entre dois mundos diferentes. Não foi apenas mais um aperto de mãos protocolar e desesperançoso entre Sul e Norte. Mais que isso, um rendez vous entre um estrategista das relações internacionais pós-1989, um homem que saiu literalmente do chão de fábrica para receber quase quarenta honrarias internacionais, três vezes – talvez quatro – presidente de uma nação soberana, e outro estrategista, vindo do andar de cima da iniciativa privada, de certa forma neófito no mundo diplomático e não só por isso desajustado às regras seculares desse universo. Ambos têm praticamente a mesma idade, mas suas origens e trajetórias são absolutamente opostas, e acabaram se cruzando no mundo real.
No fim das contas, passou rápido e não doeu. Por enquanto.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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