21 de maio de 2026

Favelas e cercos em Gaza: a violência da ‘segurança’ contra os dominados, por Mohammed Hadjab

Que os habitantes das favelas ainda vivam dentro de um Estado de direito, e que os palestinos não sejam tratados como “humanos-animais"
Gaza - Foto de Al Jazeera - Flickr

▸Favelas do Rio e Gaza: violência estatal sob discurso de segurança, atingindo jovens negros e palestinos, alvos de operações letais.

▸Retórica de guerra interna: favelas militarizadas, população desumanizada, vidas transformadas em alvos. Em Gaza, cerco e aniquilação.

▸Modelos comuns: distinção entre “nós” e “eles”, guerra contra inimigos internos, militarização do espaço, desumanização sistemática.

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Favelas e cercos em Gaza: a violência da ‘segurança’ contra os dominados

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por Mohammed Hadjab

Nas ruas estreitas das favelas do Rio de Janeiro, assim como nas áreas devastadas de Gaza, ressoa a mesma retórica: a da guerra “necessária”, da luta contra um inimigo designado e da erradicação de tudo o que o sustenta. No Rio, são os jovens negros dos bairros pobres que recebem tiros sob a bandeira do “tudo pela segurança”; em Gaza, são as bombas que caem em nome da luta contra o terrorismo e da defesa da civilização ocidental. Em ambos os casos, governos de extrema-direita aperfeiçoaram a arte de desumanizar aqueles que afirmam “proteger” — transformando vidas inteiras em alvos legítimos.

O discurso do medo legitimado

Quando um Estado ou líder afirma conduzir uma “guerra” contra a criminalidade ou o terrorismo, constrói de fato um inimigo interno, uma ameaça permanente, e justifica meios extraordinários. Sob a administração de Jair Bolsonaro no Brasil, a favela é frequentemente descrita como um enclave de bandidos, traficantes e morte. No Rio, a operação policial de 28 de outubro de 2025, que mobilizou cerca de 2.500 agentes, resultou em mais de 60 mortos, naquilo que jornalistas qualificaram como a “operação policial mais letal da história do Estado do Rio”.

Em 17 de outubro de 2022, a comunidade do Complexo do Alemão rebateu os comentários de Bolsonaro: “Favelado não é bandido”. Paralelamente, em Israel, o Ministro da Defesa Yoav Gallant declarou em 9 de outubro de 2023: “Estamos combatendo animais humanos e agiremos em conformidade”. Oficialmente, tratava-se de combater combatentes do Hamas, mas a linguagem foi amplamente percebida como dirigida a uma população inteira.

A favela como terreno de guerra interna

O Rio de Janeiro concentra, em suas colinas e entre seus blocos de concreto, o legado de um Estado que externaliza a guerra contra o crime para seus bairros mais vulneráveis. As favelas — majoritariamente negras ou pardas, em situação de pobreza — são militarizadas diariamente. O discurso de segurança, promovido por partidos de extrema-direita e aliados, simplifica: “um bom bandido é um bandido morto”.

A operação do final de outubro de 2025 assumiu a aparência de uma batalha pelo controle de território: armas apreendidas, drones utilizados, corpos deixados nas ruas. Uma lógica de guerra contra “o inimigo” que vive entre nós.

As consequências são múltiplas: massacre de civis, devastação social e um efeito de medo sistemático sobre os habitantes das favelas, não como meros vizinhos, mas como campos de batalha. A mensagem implícita: “vocês já são suspeitos e, portanto, alvos legítimos”. A indiferença internacional não ajuda a romper esse ciclo. Nesse contexto, a pesada memória colonial e racial do Brasil — herança da escravidão e da marginalização — se infiltra na lógica policial e repressiva.

Gueto, cerco, aniquilação: a guerra total em Gaza

Em Gaza, a retórica de segurança adota os registros da guerra “total” e da “punição coletiva”. O governo israelense, sob a bandeira da luta contra o terrorismo, decretou um bloqueio, estabeleceu um cerco e mobilizou o exército em bairros inteiros. A declaração de Gallant — “nem energia, nem comida, nem água, nem gasolina… tudo será interditado” — estabelece um quadro de extrema violência.

A população civil palestina se encontra em um espaço de confinamento onde a morte pode ocorrer a qualquer momento. A retórica de “animalidade” em relação a essa população justifica o que, de outra forma, seria visto como uma violação flagrante dos direitos humanos. De forma paralela, no Brasil, Bolsonaro já havia recorrido à desumanização ao criticar o peso de habitantes de uma comunidade quilombola, utilizando a unidade de medida destinada a animais — a arroba — para reduzir pessoas a objetos de cálculo, evidenciando como a linguagem política pode inferiorizar grupos marginalizados.

Como escreve o jornal Le Monde: “a linguagem de desumanização em relação aos palestinos e os apelos à aniquilação de Gaza tornaram-se comuns”. Assim, a “segurança” torna-se uma ferramenta de dominação, um argumento para impor um estado de exceção permanente e transformar civis em zonas de dano estratégico.

Dois modelos, mesma lógica

No Rio como em Gaza, observamos uma estrutura comum:

Uma retórica que distingue um “nós” virtuoso de um “eles” perigoso;

Uma guerra declarada contra um inimigo interno ou externo;

Militarização do espaço, onde regras civis são suspensas em nome da segurança;

Desumanização sistemática: “favelado = bandido”, “palestino = animal/humanoide”.

Chamar um grupo de “animal” ou “não humano” não é apenas uma palavra; é uma estratégia de poder. Quando não reconhecemos o outro como humano, podemos tratá-lo como inimigo absoluto. O direito deixa de ser um freio, a violência se normaliza e a impunidade se torna quase sistemática.

O preço humano

Para os habitantes das favelas, isso significa viver sob o olhar de um Estado militar mais do que de um Estado social. O “perfilado” se torna suspeito, e o bairro se transforma em zona de guerra. Para os palestinos, significa não ser apenas população civil, mas um espaço a conquistar, punir ou até aniquilar.

Em ambos os casos, a dignidade humana é corroída, o direito à vida fragilizado e o futuro reduzido à sobrevivência. O slogan — explícito ou implícito — é o mesmo: “segurança em primeiro lugar, os outros depois (ou nunca)”.

Uma abertura para outra visão de segurança

Existe outro caminho. Uma visão de segurança que não se baseie no medo, na dominação ou na desumanização. Uma segurança que reconheça a humanidade dos mais vulneráveis e os proteja em vez de suspeitar deles. Uma segurança onde os habitantes das favelas, embora marginalizados, ainda vivam dentro de um Estado de direito, e onde os palestinos não sejam tratados como “humanos-animais”, vivendo sob ocupação, com seus direitos sistematicamente violados pelo ocupante israelense.

A verdadeira segurança se apoia na dignidade, igualdade e respeito pelos direitos. Não se constrói com muros, blindados ou operações “massivas”, mas reconhecendo que ninguém é inimigo apenas por ser pobre, marginalizado ou viver em outro lugar. Quando um Estado tenta resolver suas falhas através da violência contra seus próprios cidadãos, ou outro justifica a destruição de uma população inteira em nome da guerra, não é a segurança que avança: é o medo que domina.

Os acontecimentos em Rio de Janeiro, durante a operação nos Complexos do Alemão e da Penha, reforçam este alerta. O governador bolsonarista Claudio Castro considerou a ação uma “verdadeira vitória”, transmitindo a mensagem de que a repressão extrema é uma política aprovada e incentivada pela extrema-direita. Esse tipo de celebração sinaliza uma escalada na militarização das favelas e um endurecimento do discurso de que a vida de determinados cidadãos é secundária diante da chamada “segurança”. É preciso repensar a segurança como um direito universal, não como privilégio.

É preciso repensar a humanidade no discurso político, sem reduzi-la ao inimigo, e resistir à normalização da violência institucionalizada como solução para problemas sociais.

Fontes

Operação policial no Rio: The Guardian

Declarações de Gallant sobre Gaza: JNS.org

Declaração de Bolsonaro sobre as favelas: [JB.com.br](https://www.jb.com.br/pais/informejb/2022/10/1040222-lider-comunitario-do-complexo-do-alemao-rebate-bolsonaro-faveladonao-e-traficante.html?

Reddit Rio: “Hi gringos, Rio is going through hard times … lots of strikes between police and criminals, specially today (Tue, Oct 28th).”

Gallant Reddit: “I have ordered a complete siege on the Gaza Strip. There will be no electricity, no food, no fuel. Everything is closed … We are fighting human animals and we will act accordingly.”

(elpais.com). (jns.org). ([aljazeera.com](https://www.aljazeera.com/opinions/2024/4/7/dont-feed-the-palestinians?.

([lemonde.fr](https://www.lemonde.fr/en/international/article/2025/05/21/in-israel-rhetoricdehumanizing-palestinians-and-calls-for-eradicating-gaza-have-becomecommonplace_6741510_4.html?

Mohammed Hadjab, analista em geopolítica e Relações Internacionais

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