1 de julho de 2026

O que comunica o enunciado de Simon Stiell na COP30, por Victor & Salemme

Discurso rejeita o voluntarismo individual e clama por aceleração ao entender que não há tempo para esperar que as NDCs “gotejem lentamente”
Simon Stiell por Justin Tallis, AFP - Reprodução

▸ Simon Stiell, secretário-executivo da Convenção do Clima, destaca a urgência climática na COP30 em Belém, convocando ação coletiva.

▸ Stiell enfatiza a importância da cooperação internacional e da transição energética para combater as mudanças climáticas de forma ética e eficaz.

▸ O discurso ressalta a necessidade de acelerar a redução de emissões, implementar soluções concretas e garantir uma transição justa e inclusiva.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

O discurso da curva dobrada: o que comunica o enunciado de Simon Stiell na COP30

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por Cilene Victor e Filomena Salemme

Como enviadas especiais de duas emissoras distintas de TV, Cultura e Gazeta, cobrimos, entre 2015 e 2018, quatro Conferências das Partes (COP) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCC, na sigla em inglês). Nas COPs de Paris, Marrakesh, Bonn e Katowice observamos o quanto o discurso de abertura de cada COP soava como baliza para a diplomacia ambiental ao longo de cada uma daquelas conferências do clima. Em Belém, o pronunciamento de Simon Stiell, secretário-executivo da Convenção do Clima, não parece ser diferente. Sua fala não apenas condensou a trajetória até aqui, como soou como balanço, alerta e convocação.

Logo no início, Stiell evoca o marco simbólico de 2015: “Ten years ago in Paris, we were designing the future – a future that would clearly see the curve of emissions bend downwards.” (Dez anos atrás, em Paris, estávamos desenhando o futuro, um futuro que veria claramente a curva das emissões se inclinar para baixo). A metáfora da curva estrutura todo o enunciado, a ideia de dobrar a curva significa progresso, não dobrá-la, seria uma catástrofe. Quando conectamos duas passagens de Stiell “We were designing the future”(Estávamos desenhando o futuro) e “Colleagues, welcome to that future” (Colegas, bem-vindos àquele futuro), a ideia de celebração, rapidamente, converte-se em advertência, como nesse trecho “But I am not sugar-coating it. We have so much more work to do. We must move much, much faster…” (Mas não vou adoçar a realidade. Temos muito mais trabalho a fazer. Precisamos muito agir, muito mais rápido…). Essa virada define o tom da fala, o reconhecimento de avanços coexistindo com uma pressão por ação. Será a COP30, de fato, a Conferência do Clima atenta à urgência da ação?

O discurso mobiliza tanto a autoridade institucional, ao falar como representante da ONU em posição de liderança global, quanto o sentimento de urgência diante do risco, com o futuro literalmente em jogo. Ao afirmar que “The science is clear: we can and must bring temperatures back down to 1.5°C after any temporary overshoot” (A ciência é clara, nós podemos e devemos trazer a temperatura de volta a 1,5 °C após qualquer ultrapassagem temporária), Stiell ancora sua retórica na objetividade científica, transformando o dado numérico de 1,5 °C em selo de um fato incontestável e de limite moral. Nesse sentido, a ação climática é apresentada não apenas como uma decisão técnica, mas como uma escolha ética.

Há, porém, um momento de inflexão discursiva ao situar Belém como território simbólico. “We find ourselves here in Belém, at the mouth of the Amazon. And we can learn a lot from this mighty river.” (Estamos aqui em Belém, na foz do Amazonas. E podemos aprender muito com esse poderoso rio). A metáfora do rio e de seus afluentes “not a single entity, rather a vast river system supported by over a thousand tributaries” (não uma entidade única, mas um vasto sistema fluvial sustentado por mais de mil afluentes) articula o sentido de cooperação. Assim como a Amazônia é tecida por inúmeros cursos d’água, a implementação climática depende de múltiplas correntes de colaboração internacional. O espaço amazônico é, portanto, convocado como representação simbólica  de interdependência, mas também como palco político.

Stiell critica abertamente a insuficiência das ações nacionais: “Because individual national commitments alone are not cutting emissions fast enough.” (Porque compromissos nacionais isolados não estão reduzindo as emissões com rapidez suficiente). O discurso rejeita o voluntarismo individual e clama por aceleração ao entender que não há tempo para esperar que as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês) “gotejem lentamente”. No eixo econômico, o texto combina pragmatismo e realismo, ao lembrar que os desastres climáticos “rasgam dígitos duplos do PIB” e que secas e fomes deslocam milhões. Ao mesmo tempo, reposiciona a transição energética como oportunidade “Solar and wind are now the lowest-cost power in 90 percent of the world. Renewables overtook coal this year…” (A energia solar e eólica são agora as mais baratas em 90% do mundo. A energia renovável ultrapassou o carvão neste ano), uma virada narrativa que transforma o colapso em motor de crescimento, de oportunidade. Os próximos dias da COP30 dirão qual será a presença do Sul Global nessa discussão, sobretudo porque aqui os desastres têm provocado impactos humanos, socioambientais, econômicos e políticos sem precedentes.

Nesse movimento, Stiell desloca o centro da narrativa climática. A crise deixa de ser apenas ameaça moral e passa a ser risco econômico e oportunidade de desenvolvimento. A frase “Lamenting is not a strategy. We need solutions.” (Lamentar não é uma estratégia. Nós precisamos de soluções) sintetiza esse ponto, considerando que o lamento é improdutivo, mas o agir é imperativo. O discurso assume tom performativo, convocando líderes e nações à arena da ação conjunta “Your job here is not to fight one another – your job is to fight this climate crisis, together.” (O seu papel aqui não é de lutar uns contra os outros, mas de lutar juntos contra a crise climática). Se o lutar não pode ser um ato solitário, será que a COP30 vai também assumir o papel de não deixar ninguém para trás com os impactos assimétricos da emergência climática?

O tempo da retórica está se esgotando. Stiell transforma a linguagem da esperança, dominante em Paris, em uma gramática de urgência pragmática. Ao usar metáforas como curva, tributários e arena, o discurso convoca à ação coletiva, mas sem detalhar como essa aceleração vai acontecer. Ao mencionar cifras, como os 300 bilhões de dólares já acordados em financiamento climático, com os países desenvolvidos assumindo a liderança, e a meta de avançar rumo a 1,3 trilhão de dólares por meio do Roteiro de Baku a Belém (Baku-to-Belém Roadmap), que deve guiar o cumprimento dessas promessas, o Secretário sinaliza caminhos, mas não apresenta os instrumentos concretos para realizá-los. E é justamente nessa lacuna que se encontra uma das tarefas centrais da COP30.

Uma década separa a cobertura que fizemos na COP21, em Paris, desta COP30, em Belém, mas podemos arriscar a nossa percepção de que a força simbólica do discurso está mais na convocação do que na proposição, pelo menos por enquanto. Em Belém, Stiell fala menos ao público local e mais ao sistema político internacional. A COP30 não pode apenas evocar a metáfora global. Nas primeiras palavras, uma Conferência do Clima já deve estar sensível e atenta para impedir deixar algo ou alguém para trás, nas margens ou nas sublinhas do texto diplomático. Se não podemos lutar sozinhos, significa, também, potencializar as vozes e provocar a escuta daqueles que foram deixados para trás. 

O discurso, portanto, cumpre a função estratégica de reavivar a cooperação internacional, reposicionar o debate no eixo da ação e renovar o contrato moral da transição. No entanto, ele também revela o limite estrutural das cúpulas, a distância entre o discurso global e a materialidade da crise nos territórios.

A mensagem que ecoa em Belém é clara, a curva pode ter sido dobrada, mas o tempo também se dobrou. E enquanto os líderes falam em arenas e acordos, as comunidades amazônicas já vivem o futuro que os discursos apenas anunciam. Discursar é importante, mas comunicar é pertencer. E pertencer, agir.

O discurso:

Excellencies,  

Ten years ago in Paris, we were designing the future – a future that would clearly see the curve of emissions bend downwards.

Colleagues – Welcome to that future. 

The emissions curve has been bent downwards. Because of what was agreed in halls like this, with governments legislating, and markets responding. 

But I am not sugar-coating it. We have so much more work to do.

We must move much, much, faster on both reductions of emissions and strengthening resilience.

The science is clear: we can and must bring temperatures back down to 1.5C after any temporary overshoot.

Lamenting is not a strategy.  We need solutions.

We find ourselves here in Belém, at the mouth of the Amazon. And we can learn a lot from this mighty river. 

The Amazon isn’t a single entity, rather a vast river system supported and powered by over a thousand tributaries. 

To accelerate implementation, the COP process must be supported in the same way – powered by the many streams of international cooperation. 

Because individual national commitments alone are not cutting emissions fast enough. 

We don’t need to wait for late NDCs to slowly trickle in, to spot the gap and design the innovations necessary to tackle it. 

Not one single nation among you can afford this, as climate disasters rip double-digits off GDP.

To falter whilst mega-droughts wreck national harvests, sending food prices soaring, makes zero sense, economically or politically.

To squabble while famines take hold, forcing millions to flee their homelands, this will never be forgotten, as conflicts spread.

While climate disasters decimate the lives of millions, when we already have the solutions, this will never, ever be forgiven.

The economics of this transition are as indisputable as the costs of inaction.

Solar and wind are now the lowest-cost power in 90 percent of the world.

Renewables overtook coal this year as the world’s top energy source. 

Investment in clean energy and infrastructure will hit another record high this year – with investments in renewables outstripping fossil fuels 2 to 1.

So what needs to be decided here in Belem to match the opportunities, with the scale of the crisis we face? 

Because we have already agreed that we will transition away from fossil fuels. Now’s the time to focus on how we do it fairly and orderly. Focusing on which deals to strike, to accelerate the tripling of renewables and doubling energy efficiency. 

We have already agreed to deliver at least 300 billion in climate finance, with developed countries taking the lead. We now need to put the Baku to Belem Roadmap to work. To start moving towards the 1.3 trillion. 

We have already agreed a global goal on adaptation. We now need to agree on the indicators that will help speed up implementation, to unleash its potential. 

We have already agreed that transition pathways must be inclusive and just – covering whole economies and societies. Now we must agree on concrete steps to turn aspirations into actions.

We have already agreed on a Technology Implementation Programme.  Let’s set it in motion.

Strong and clear outcomes on all these issues are essential.  This is how we signal to the world that climate cooperation is delivering results.

In Belém, we’ve got to marry the world of negotiations to the actions needed in the real economy. 

The Action Agenda is not a ‘nice-to-have’ – it is mission-critical.  More than that, it is entirely in every nation’s enlightened self-interest.

Every gigawatt of clean power cuts pollution and creates more jobs. 

Every action to build resilience helps save lives, strengthen communities, and protect the global supply chains that every economy depends on. 

This is the growth story of the 21st century – the economic transformation of our age.  Those opting out or taking baby-steps face stagnation and higher prices, while other economies surge ahead. 

To paraphrase President Roosevelt over a century ago. It is not the critic who counts or the one who points out where the doer of deeds could have done better. The credit belongs to those who are actually in the arena with their faces marred by dust and sweat and blood who strive valiantly. 

But friends let me be clear: in this arena of COP30, your job here is not to fight one another – your job is to fight this climate crisis, together. 

Paris is working to deliver real progress.  Let’s not forget it.   

But friends – we must strive valiantly for more.   

I thank you. 

Cilene Victor: Jornalista, atuou em vários países como enviada especial, cobrindo pautas humanitárias e Conferências do Clima em Paris, Marrakesh, Bonn e Katowice. É professora titular dos Programas de Pós-graduação em Comunicação e Ciências da Religião, da Universidade Metodista de São Paulo, onde é líder do HumanizaCom. É docente no FGV LAW e co-fundadora da Global South Perspective Network.

Filomena Salemme: Jornalista, com larga atuação na imprensa brasileira, foi enviada especial para a cobertura das Conferências do Clima em Paris, Marrakesh, Bonn e Katowice. É doutoranda no Programa de Pós-graduação em Comunicação, da Universidade Metodista de São Paulo, pesquisadora do HumanizaCom, professora de Jornalismo na Metodista e docente no FGV Law.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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COP30 - HumanizaCom e GGN

Cilene Victor e Filomena Salemme são jornalistas, ambas cobriram diversas Conferências do Clima pelo mundo e são do HumanizaCom. Cilene é líder do HumanizaCom e Filomena é pesquisadora. Ambas são docentes do FGV LAW.

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