As infâncias roubadas na Colômbia: o outro rosto da violência que matou Miguel Uribe
por Katherine Vargas Vargas
Miguel Uribe Turbay foi vítima de um atentado em 7 de junho de 2025 em Bogotá, durante um ato público em que se dirigia a seus simpatizantes como pré-candidato presidencial do partido Centro Democrático. O ataque ocorreu em plena tribuna, diante de câmeras, microfones e uma multidão que havia se aproximado do local para ouvi-lo. Embora tenha sido levado com vida a um hospital, dias depois faleceu devido à gravidade dos ferimentos. A notícia, imediata e comovente, percorreu o país como um eco trágico. Não foi apenas o fim de uma campanha, foi a repetição de uma história que a Colômbia já conhece bem demais.
Para muitas pessoas, essa imagem despertou lembranças dolorosas. Lembranças de uma Colômbia em que pensar diferente, aspirar ao poder ou tentar transformar o rumo significou, em muitas ocasiões, aproximar-se perigosamente da morte. Luis Carlos Galán, Bernardo Jaramillo Ossa, Carlos Pizarro, Álvaro Gómez… e antes de todos, Jorge Eliécer Gaitán. Todos assassinados em meio a campanhas ou disputas políticas. Sem dúvida, esse fato nos lembra o medo com que viveram nossos pais e avós, ao ver como os candidatos caíam um a um, e como pouco a pouco esses nomes eram ouvidos em sussurros, como advertência ou como lamento.
Esse assassinato nos chegou aos colombianos como um portazo no rosto, pois o que parecia uma etapa superada da nossa história, voltou. E voltou, desta vez, com um elemento que dói ainda mais: quem atirou era um menor de idade. Justo aí, se abre outra ferida que não podemos ignorar.
Hoje, falar da morte de Miguel Uribe é, é claro, falar de um fato político. Mas também, e, sobretudo, é falar da infância na Colômbia. Daquelas vidas que, por nascerem às margens, são lançadas ao mundo sem oportunidades, sem cuidado, sem futuro. Daquelas crianças que não chegam a ser totalmente crianças, porque a violência, a pobreza e o abandono lhes roubam a infância antes que possam sequer reconhecê-la.
Um menor de idade empunhando uma arma não é só parte de um delito. É também parte de uma tragédia coletiva. Um reflexo do que ocorre quando o Estado não chega, quando a sociedade se dá por vencida e quando o silêncio se converte em política pública. Ao conhecer essa história, é obrigatório se perguntar ¿quão dura e crua deve ser a realidade de uma criança que recorre a ganhar a vida matando?
Na Colômbia, um grande número de meninos e meninas vive em condições de pobreza. Muitos crescem sem escola, sem alimentação, sem saúde e sem amor. Outros o fazem em contextos onde a única opção que parece existir é a violência: a da fome, a do crime, a do recrutamento, a do esquecimento… A morte de um pré-candidato presidencial estremece. Mas também deveria nos estremecer que uma criança tenha terminado envolvida nesse ato. Porque quando uma infância é abandonada, a violência não demora em adotá-la. E quando isso ocorre, o futuro do país também começa a vacilar.
Esse fato não só nos confronta com o passado dos assassinatos políticos, mas com um presente que continua reproduzindo suas causas mais profundas. ¿De que serve chorar os mortos se continuamos ignorando as crianças vivas que caminham hoje entre a violência e a desproteção? ¿De que serve falar de justiça se não garantimos uma infância digna para todos?
Enquanto o país se indigna, discute e se polariza, há algo que não podemos permitir-nos perder de vista, este crime não é só uma tragédia individual nem uma disputa política, é também o sintoma de um país profundamente desigual que ainda não soube cuidar de seus filhos. E se algo devemos aprender com este doloroso episódio, é que proteger a vida não começa nos discursos, mas nas salas de aula, nos lares, nos espaços onde as crianças sonham, ou deixam de sonhar.
Porque uma infância desprotegida não é só uma vítima: também pode converter-se, sem querer, em algo que nunca deveria ter sido: EM UMA ARMA.
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