A Política da Crueldade e o Fascismo
por Luiz Gonzaga Belluzzo e Nathan Caixeta
Para ilustrar a complexidade da quadra histórica que atravessamos, consideramos pertinente a visita ao último artigo de Paul Krugman, intitulado The Big Smirk, ou O Grande Sorriso.
Krugman cuida de investigar a dinâmica política do Trumpismo, que mora no coração do movimento MAGA e tem replicado exemplares ao redor do mundo. As figuras de Milei, Bolsonaro, suas proles e aspirantes à replica não nos deixam mentir.
A suntuosa festividade de Halloween promovida por Donald Trump e inspirada em O Grande Gatsby, exibiu como símbolo cuidadosamente escolhido uma modelo seminua dentro de uma gigantesca taça de martini. No mesmo dia, relata Krugman:
“…42 milhões de americanos perderem o auxílio alimentar federal, enquanto 1,4 milhão de funcionários federais estão sem receber salário”.
Para muitos comentaristas, o evento expressou a alma de playboy de Manhattan que sobrevive no Presidente norte-americano. A imagem entrega, à primeira vista, a ideia de insensibilidade em relação à condição de milhões de americanos em situação precária e falimentar. Nada novo no cotidiano de um ricaço de Nova York, ou de um bem-nascido dos Jardins paulistanos.
A insensibilidade e o desprezo são marcas de nascença das elites econômicas e políticas, ou costumes adquiridos pelos novos ricos, coaches, influencers e outsiders cuja ascensão social meteórica garante o bilhete para o grupo de super-homens que escapou das inseguranças econômicas, do punitivismo judicial e do contato com a grande massa de fracassados na grande corrida capitalista.
Nada novo aos olhos dos que acreditam na infalível mão invisível do mercado e na capacidade quase darwiniana da razão e do autointeresse de selecionarem ganhadores e perdedores, super-homens e invisíveis, insensíveis e invejosos.
Nada novo, não fosse a catalisação do mal-estar social como ferramenta política. Krugman descreve essa catalisação, no caso de Trump e de seus apoiadores, como prazer pelo ato da crueldade, prazer em esmagar os considerados inferiores:
“[A] única crença fundamental [de Trump] é que os Estados Unidos são um direito inato de homens brancos, heterossexuais e cristãos, e seu único prazer genuíno reside na crueldade. É essa crueldade, e o deleite que ela lhes proporciona, que une seus apoiadores mais fervorosos, num desprezo compartilhado por aqueles que odeiam e temem: imigrantes, eleitores negros, feministas e homens brancos traidores que simpatizam com qualquer um que ouse roubar seu direito inato. A capacidade do presidente de executar essa crueldade por meio de palavras e ações os deixa eufóricos. Faz com que se sintam bem, orgulhosos, felizes e unidos”.
No livro The Mass Psychology of Fascism, Willem Reich assegura que a mentalidade fascista é a mentalidade do “homenzinho”: escravizado, que anseia por autoridade e, ao mesmo tempo, é rebelde. Não é coincidência que todos os ditadores fascistas tenham surgido no meio reacionário do homenzinho.
Reich demonstrou que a violência e a crueldade contra a “ralé” é o último estágio da lógica de governo fascista. Seu núcleo está na fusão entre a captura do espaço e dos meios de ação públicos por interesses privados e o desejo dos “homenzinhos” em subjugar seus semelhantes.
A ideologia fascista não aflora imediatamente nas elites, ela escorrega pelos caminhos do positivismo e do racionalismo econômico que promove a precarização das condições de vida e a concentração da riqueza, capturando o ressentimento moral de homens e mulheres que se sentem inferiorizados e impedidos de realizar suas competências naturais diante da corrida capitalista.
O magnata industrial e o senhor feudal exploram esse fenômeno social para seus propósitos, depois de terem evoluído em um quadro geral de supressão dos impulsos de vida. A civilização mecanicista e despótica colhe do homenzinho humilhado apenas o que semeou nas massas de seres humanos subjugados, ao longo dos séculos, lançando o desgraçado nos caminhos do misticismo, do militarismo e do automatismo.
Diria um outro irreverente: “Eles não sabem, mas fazem”.
Para ilustrar os passos dos que caminham nas trevas da auto incompreensão, vamos recorrer ao apólogo do escritor americano David Foster Wallace: “Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz: Bom dia, meninos. Como está a água? Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta: Água? Que diabo é isso?”.
Wallace explica: “O ponto central da história dos peixes ensina que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida… Os pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para ser captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me preparando para fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras ‘virtudes’. Essa não é uma questão de virtude – trata-se de optar por tentar alterar minha configuração-padrão original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser”.
Essa camada de homenzinhos, como os peixinhos mergulhados em seu egocentrismo, não consegue reconhecer o ambiente social em que vive. Por isso, exerce seus desejos, medos e anseios em aras de agressividade contra os demais.
A política da crueldade contra os considerados inferiores pode ser encontrada nas festividades e palanques da ultradireita, nos arroubos ostentatórios dos velhos e novos ricos. Ela avança pela covardia dos homens e mulheres que enxergam a fusão entre democracia e livre mercado como fórmula da liberdade e da igualdade.
Diante dos genocídios, morticínios e tentativas de abolição violenta do Estado de Direito, os covardes pedem anistia e discursam em prol do aperfeiçoamento das instituições.
Enquanto isso, os super-homens eleitos para vingar o homenzinho de seus ressentimentos, promovem subjugação, humilhação e eliminação indistinta de opositores e daqueles julgados socialmente inferiores.
Luiz Gonzaga Belluzzo é professor titular do Instituto de Economia (IE) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (1985-1987) e de Ciência e Tecnologia de São Paulo (1988-1990). Belluzzo é formado em Direito e Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP), pós-graduado em Desenvolvimento Econômico pela Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal) e doutor em economia pela Unicamp. Fundador da Facamp e conselheiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), é autor dos livros “Os Antecedentes da Tormenta”, “Ensaios sobre o Capitalismo no Século XX”, e coautor de “Depois da Queda, Luta Pela Sobrevivência da Moeda Nacional”, entre outros. Em 2001, foi incluído entre os 100 maiores economistas heterodoxos do século XX no Biographical Dictionary of Dissenting Economists. Em 2005, recebeu o Prêmio Intelectual do Ano (Prêmio Juca Pato).
Nathan Caixeta – Graduado em Economia pela FACAMP, Mestre em Desenvolvimento Econômico pela UNICAMP, coautor dos livros Crônicas Antieconômicas, e Avenças e Desavenças da Economia, ambos em parceria com Luiz Gonzaga Belluzzo e editados pela Contracorrente. Sócio-diretor da BPCT Consultoria.
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Rui Ribeiro
16 de novembro de 2025 12:52 pmPior é que esses vermes, que odeiam e sugam a ralé, são eleitos por ela.