4 de junho de 2026

A Imitação Simiesca do ONS e o Desprezo Pela Tecnologia Nacional, por Luiz Alberto Melchert

Em vez de consultar a indústria brasileira, o ONS preferiu importar, sem crítica, o pacote tecnológico pronto que lhe entregaram.
Reprodução

1- O ONS decide incorporar baterias ao sistema elétrico brasileiro, ignorando a indústria nacional de baterias chumbo-ácidas.

2- O Brasil dispõe de tecnologia madura em baterias chumbo-ácidas, mas o ONS opta por importar baterias de lítio, uma escolha mais propagandeada que eficiente.

3- A decisão do ONS de preferir baterias de lítio importadas em vez das nacionais de chumbo-ácido é criticada por ser técnica, ambiental e economicamente contraproducente.

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A Imitação Simiesca do ONS e o Desprezo Pela Tecnologia Nacional

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por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

O Operador Nacional do Sistema decidiu incorporar baterias ao sistema elétrico brasileiro para amortecer as variações de produção das hidrelétricas, das eólicas e das fotovoltaicas. Nada mais lógico: o armazenamento é parte inevitável da transição energética. O problema não está no objetivo, mas no caminho escolhido. Em vez de consultar a indústria brasileira, que domina a fabricação de baterias chumbo-ácidas estacionárias e que hoje pesquisa novos materiais como grafeno e nióbio, o ONS preferiu simplesmente importar, sem reflexão e sem crítica, o pacote tecnológico pronto que lhe entregaram. É uma substituição automática, quase instintiva, como quem repete um gesto aprendido — uma imitação simiesca¹.

O Brasil tem fabricantes capazes de produzir acumuladores industriais robustos, adaptados às condições climáticas e operacionais do país, com experiência acumulada em telecomunicações, subestações e bancos de baterias de grande porte. Em vez disso, o programa brasileiro de armazenamento repete a crença ingênua de que lítio é sinônimo de modernidade. O lítio é uma tecnologia excelente para mobilidade, mas o armazenamento estacionário não exige leveza, não exige densidade energética e não exige a engenharia hiperprotegida de um BMS que vive temendo incêndios. O que o ONS está comprando, portanto, não é a melhor solução — é apenas a mais propagandeada.

E o mais grave: trata-se de uma solução inferior ao que o Brasil já sabe fazer.

As baterias chumbo-ácidas modernas — especialmente as AGM e GEL — não são o que muitos imaginam. Elas já passaram por mais de um século de refinamentos, e hoje recebem aditivos de grafeno que reduzem sulfatação, aumentam condutividade e ampliam a vida útil. Outras pesquisas, com nióbio, melhoram a liga metálica, reduzem corrosão das grades e abrem a possibilidade de substituir parcialmente o antimônio, historicamente o elemento mais problemático da composição. Isso não é especulação: é pesquisa brasileira e internacional em andamento, com resultados consistentes. Ou seja, enquanto o ONS age como se o chumbo-ácido fosse uma velharia, a ciência trata essa tecnologia como um campo fértil de inovação — justamente porque sua robustez e reciclabilidade são inigualáveis.

Quando uma bateria de chumbo-ácido estacionária falha, ela não explode. Quando uma bateria de lítio falha, o corpo de bombeiros é acionado. A escolha entre uma tecnologia que permanece fria e uma que pega fogo deveria ser óbvia, sobretudo quando se fala em contêineres de dezenas de toneladas instalados em subestações, próximos a áreas habitadas. Mas o ONS não fez essa conta. Ou melhor: adotou a conta que alguém trouxe pronta, provavelmente um consórcio que vende contêineres de lítio no mundo inteiro. E assim, o Brasil abdica daquilo que tem e se ajoelha diante do que não compreende.

Não há nenhuma razão para que o ONS, ao projetar sistemas estacionários, ignore uma tecnologia nacional madura, reciclável, barata, tolerante a abusos elétricos e livre de riscos térmicos. É um contrassenso técnico, ambiental e econômico. O lítio é importado, caro, inflamável e depende de cadeias globais fragilizadas. O chumbo-ácido brasileiro é nacional, barato, resiliente e totalmente reciclável. Qual das duas opções parece mais adequada para amortecer oscilações de produção em um país de clima tropical, com redes extensas e com hidrelétricas que operam em regime cíclico?

A resposta racional aponta para o chumbo-ácido.

A resposta do ONS aponta para o lítio.

Entre a razão e a prática, ficou a submissão.

O que estamos vendo é o velho padrão colonial tecnológico: o Brasil despreza o que tem, ignora o que pode desenvolver e importa, a preço de ouro, soluções inferiores às próprias. É a recusa sistemática de olhar para a própria capacidade produtiva, como se assumir autonomia fosse pecado. O sistema elétrico brasileiro, que sempre foi motivo de orgulho técnico, está prestes a adicionar ao seu currículo um vexame: o de ter escolhido a tecnologia errada por simples incapacidade de romper com o servilismo tecnológico. E isso, convenhamos, é mais que um erro. É uma escolha.
———
¹ O termo “imitação simiesca” não é insulto gratuito, mas expressão usada na sociologia da técnica para descrever agentes que repetem, sem entender, escolhas tecnológicas importadas.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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