A recente notícia de que autoridades italianas investigam o horror de um “safari humano” (estrangeiros ricos pagando para matar civis) durante a Guerra da Bósnia reacendeu o debate sobre como aquele conflito armado precedeu, com requintes de crueldade, a limpeza étnica que hoje se vê em outras regiões do mundo, como na Faixa de Gaza, contra o povo palestina.
Durante o programa “Observatório de Geopolítica – Europa”, transmitido no canal TV GGN na última quinta (20), os participantes Felipe Bueno (jornalista), Cláudia de Borba Maciel (diplomata) e Maíra Feltrin (advogada e pesquisadora) comentaram o perturbador “safari humano” à luz do direito internacional e contextualizaram a Guerra na Bósnia.
Segundo Cláudia de Borba Maciel, a guerra entrou para a história “como um divisor de água na Europa” pelo seu caráter genocida, de tentativa de limpeza étnica, abrindo as portas para a naturalização de uma política segregadora pela Europa. Os bósnios eram um povo com uma identidade étnica e cultural própria, cuja principal característica era a fé muçulmana (Islã), resultado de séculos de domínio do Império Otomano na região. A prática sistemática de deslocar ou matar grupos étnicos (principalmente bósnio-muçulmanos e croatas bósnios) para criar territórios etnicamente puros trouxe à tona o horror que a Europa pensava ter deixado para trás.
A comunidade internacional, incluindo a ONU e a nascente União Europeia, demorou a agir de forma decisiva. A falta de coordenação e vontade política permitiu que o conflito se arrastasse por anos. A Guerra da Bósnia marcou a primeira grande operação militar da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) na Europa, em 1995, para impor a paz. Essa intervenção redefiniu o papel da OTAN no pós-Guerra Fria, passando de uma aliança de defesa para uma força de intervenção.
Para julgar os crimes de guerra, foi criado o Tribunal Penal Internacional para a Antiga Iugoslávia, que estabeleceu um precedente crucial ao julgar e condenar líderes políticos e militares por genocídio, limpeza étnica e crimes contra a humanidade, um trabalho fundamental para a posterior criação do Tribunal Penal Internacional.
No fim, a guerra ainda consolidou a fragmentação da Iugoslávia em vários estados independentes (Eslovênia, Croácia, Macedônia, Bósnia-Herzegovina, e posteriormente Montenegro e Sérvia).
Ou seja, a Guerra da Bósnia, a mais sangrenta desde a Segunda Guerra Mundial, demonstrou que, mesmo no final do século XX, atrocidades em massa e genocídio ainda eram possíveis na Europa, forçando a redefinição das políticas de segurança das organizações internacionais e do sistema de justiça criminal internacional.
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