4 de junho de 2026

A esquerda é a única que entende a violência no Brasil, por Thiago Gama

A falsa premissa da incompreensão de que o PT ou o presidente Lula não compreendem a razão fundamental do motor da violência no país
Reprodução Museo Del Prado - Madri - Domínio Público

1. Esquerda compreende a violência no Brasil como nenhuma outra força política, entendendo sua gênese e propondo soluções além da simples repressão policial.

2. Necropolítica reflete a falta de Estado promotor de dignidade e igualdade, levando à aceitação da violência como resposta à ausência de direitos sociais e econômicos.

3. Estrutura federativa brasileira dificulta a gestão da segurança pública, com polícias estaduais agindo de forma autônoma e priorizando ações de confronto em vez de inteligência policial.

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A Esquerda é a Única que Entende a Violência no Brasil

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por Thiago Gama

Há uma sedução fácil, quase irresistível para certos analistas em diagnosticar a esquerda brasileira como uma força política alienada, presa a um moralismo de classe média que a impediria de compreender os anseios “reais” do povo pela ordem. O artigo de Wilson Gomes, publicado no dia 18 de novembro de 2025, no jornal Folha de S.Paulo, é o sintoma mais “refinado” dessa análise. Ao sugerir, amparado na sociologia de Karen Stenner, que o apoio popular à letalidade policial no Rio de Janeiro deriva de uma “ameaça normativa” — o medo do colapso das regras — e que a esquerda falha ao ler isso como mera disputa ideológica, o texto comete um erro em sua premissa.

A esquerda não apenas entende a violência; ela é a única força política que compreende a sua gênese. O que os críticos chamam de “incompreensão” é, na verdade, a recusa obstinada em aceitar que a restauração da “norma” se dê através do extermínio, uma distinção sutil entre ordem pública e paz dos cemitérios, como se viu no Rio de Janeiro nos últimos dias.

Não estamos, portanto, diante de uma esquerda perplexa ou ingênua, mas de um campo político que, desde 2003, diagnosticou corretamente que a “ameaça normativa” nas periferias não nasce da ausência de punição, mas da ausência do Estado enquanto promotor de dignidade e igualdade. Quando o governo Lula, em seus primeiros mandatos, iniciou a maior transferência de renda da história deste país (parafraseando o próprio Presidente da República), seu governo não estava apenas fazendo “política social”; estava operando uma política de segurança pública avant la lettre. A violência, como nos ensinou Fernand Braudel em seus estudos sobre a longa duração, não é um evento meteorológico, uma chuva de granizo que cai sobre uma sociedade sã; ela é a secreção purulenta de séculos de um sistema escravocrata que jamais foi inteiramente superado. Achar que a esquerda “não entende” que o pobre quer ordem é ignorar que foi essa mesma esquerda que tentou, pela primeira vez, dar ao pobre a base material — comida, luz, universidade — para que a “ordem” não fosse apenas a ordem do patrão ou a ordem do capitão do mato, mas a ordem da cidadania. O que a esquerda oferece não é uma ordem de giroflex vermelho em viaturas, embora necessária, é um tipo de ordem que varia em grau e substância.

O argumento de que a população aplaude a matança porque sente que “ninguém manda” é sociologicamente astuto, mas politicamente incompleto. O povo aplaude o “sucesso” da operação policial não porque rejeita os Direitos Humanos em abstrato, mas porque foi abandonado numa terra arrasada onde a única face do Estado que lhe é apresentada é a do policial que chuta a porta ou a do miliciano que cobra o gás. A esquerda sabe disso. A esquerda sabe, com a precisão de quem lê Foucault e Agamben, que a favela vive sob um estado de exceção permanente, onde a vida nua está exposta à morte soberana a qualquer momento. Marielle Franco foi exemplo máximo de que a esquerda entende, e entende muito bem de segurança pública. Por entender tão bem, ela foi calada por balas.

O que se cobra da esquerda, e que este artigo no GGN pretende dissecar não é “compreensão”, é a adesão à barbárie como método de gestão. E isso, por dever histórico e imperativo ético, a esquerda recusa, não por cegueira, mas porque sabe que o sangue derramado hoje é o adubo da insurreição de amanhã.

Se o governo Lula hoje, em seu terceiro ato, enfrenta dificuldades na segurança, isso não se deve a uma falha cognitiva do Partido dos Trabalhadores ou de seus aliados, mas à herança maldita do desmonte institucional operado entre 2016 e 2022. A terra foi arrasada, as instituições foram corroídas por dentro, e agora cobram do bombeiro a culpa pelo incêndio que ele encontrou consumindo a casa. Vamos, portanto, desmontar essa falácia, tijolo por tijolo, dado por dado, lei por lei.

A Necropolítica como Placebo e a Eficácia Silenciosa da Ascensão Social

É preciso precisão para encarar os números que Wilson Gomes nos mostra: 67% dos brasileiros, diz a Quaest, consideram a operação correta; no Rio, quase 70% julgam a execução satisfatória. O analista vê aí uma derrota da esquerda, uma desconexão com o “chão da fábrica” da realidade. Ledo engano. O que esses números gritam não é um amor incondicional ao coturno, mas o sintoma agudo do que Loïc Wacquant diagnosticou com cirúrgica precisão em As Prisões da Miséria: quando o Estado Social recua, o Estado Penal avança para preencher o vácuo, gerindo a pobreza não mais pela assistência, mas pela contenção punitiva. A esquerda compreende essa equação melhor do que ninguém, pois foi ela, e somente ela, que entre 2003 e 2010 que tentou inverter a lógica, substituindo o caveirão pela carteira assinada e o fuzil pela expansão universitária.

Não nos deixemos seduzir pela pressa do debate público. Durante os governos Lula 1 e 2, o Brasil experimentou uma redução vertiginosa da desigualdade, fenômeno que, se lido sob a ótica da longue durée de Braudel, representa uma ruptura tectônica em quatro séculos de escravidão. Aquele período provou, com dados empíricos — aumento do salário-mínimo real, Bolsa Família, Luz para Todos —, que a segurança pública real começa muito antes da viatura sair do batalhão; ela começa quando o jovem da periferia vislumbra um horizonte que não seja o tráfico ou a submissão humilhante.

A “ameaça normativa” que Gomes cita, amparado em Karen Stenner, é real, sim. A desordem assusta. Mas a desordem primordial brasileira não é a falta de polícia, é a falta de República. É a anomia gerada pela fome, pela invisibilidade cívica.

O que a esquerda propôs, e executou com êxito até o golpe parlamentar de 2016 que rompeu o pacto democrático, foi uma biopolítica afirmativa: fazer viver, em vez de deixar morrer. As políticas de distribuição de renda não eram “esmola”, eram ferramentas de segurança nacional. Ao retirar milhões do mapa da fome e inseri-los no mercado de consumo e cidadania, o governo federal atuou na raiz do recrutamento do crime organizado. Se hoje, em 2025, a população clama por sangue e aplaude operações com letalidade recorde, é porque a terra arrasada deixada pelo interregno Temer-Bolsonaro destruiu as bases materiais daquela esperança, devolvendo o povo à condição de homo sacer, a vida nua que pode ser eliminada impunemente, e que, no desespero, aplaude o próprio algoz na esperança de que ele mate o vizinho “bandido” antes de matar a si.

A eficácia do governo Lula atual, travada por um Legislativo sequestrado pelo orçamento secreto e por pautas de costumes que são cortinas de fumaça, reside na tentativa hercúlea de reconstruir essa malha de proteção social. Mas a violência tem inércia. O desmonte de políticas públicas de cultura, esporte e lazer nas periferias, operado com sadismo burocrático nos anos anteriores, entregou a juventude de bandeja às facções que agora dominam territórios. Dizer que a esquerda “não entende” a demanda por ordem é ignorar que a única ordem duradoura já experimentada por este país foi aquela em que o filho do pedreiro virou doutor, e não aquela em que ele virou estatística no IML.

A esquerda entende a violência; o que ela se recusa é vender a ilusão de que se resolve um problema de séculos com uma operação de horas, transformando a segurança pública num espetáculo de grand guignol para satisfazer a sede de vingança de uma sociedade adoecida pela desigualdade.

A Camisa de Força Constitucional e a Farsa do Federalismo à Brasileira

A sociologia nos explica o medo; o Direito, contudo, nos revela a impotência desenhada. O debate público brasileiro insiste em cobrar do Presidente da República a segurança da esquina, ignorando a arquitetura bizantina do nosso Pacto Federativo. A esquerda, que hoje ocupa o Planalto, não dorme sobre o problema; ela governa com as mãos atadas por uma Constituição que, em seu Artigo 144, delegou aos Governadores a patente de senhores feudais da segurança pública. Estamos diante de uma “federação de fachada”, um arranjo esquizofrênico que difere radicalmente do modelo norte-americano, tantas vezes citado como panaceia pelo campo político liberal.

Nos Estados Unidos, a segurança é capilarizada, municipalizada; o xerife responde à comunidade local, a polícia é do condado, da cidade. O vínculo de responsabilidade é direto, tátil. No Brasil, criamos um “monstro jurídico”: a Polícia Militar, força auxiliar e reserva do Exército, responde ao Governador, enquanto o município, onde o crime de fato acontece, é um espectador de luxo, e a União, um pagador de contas, não tem comando de tropa alguma nas ruas das cidades.

Essa estrutura permite que governadores de oposição, muitas vezes alinhados ao populismo penal sabotem políticas federais de inteligência e integração, preferindo o espetáculo sangrento das incursões em favelas — que geram manchetes e votos fáceis — ao trabalho silencioso e eficaz da investigação e do rastreamento financeiro do crime. O “sucesso” da operação no Rio, aplaudido por 67%, é a celebração da única linguagem que o ente estadual decidiu falar: a da guerra. E aqui reside o paradoxo cruel: o governo federal, detentor da expertise e da visão humanista (reconhecida inclusive por diretrizes da ONU sobre o uso da força), é refém de polícias estaduais que operam sob uma lógica de confronto.

Comparativamente, o nosso federalismo é uma armadilha perfeita para a esquerda no poder central. Se o governo federal intervém drasticamente (como na Intervenção Federal de 2018), ele valida a militarização que critica; se respeita a autonomia dos Estados, é acusado de inércia diante do genocídio. A saída, que intelectuais e juristas progressistas têm apontado exaustivamente, passaria por uma repactuação federativa profunda — quiçá uma PEC da Segurança Pública que criasse um “SUS da Segurança” — mas tal audácia legislativa esbarra num Congresso Nacional reacionário, onde a “Bancada da Bala” atua não para resolver a violência, mas para garantir que o mercado da insegurança (e das armas) continue lucrando com o pânico social. A esquerda entende o jogo; o problema é que as regras foram escritas pelos donos do cassino.

O Sabotador Legislativo e a Economia Política do Pânico

A Constituição, desta forma, funciona como uma camisa de força, o Congresso Nacional, em sua configuração atual, não provê ideias robustas para a sociedade sobre uma política de segurança categoricamente humanista. O Executivo Federal, sozinho, nunca será a fonte da “solução” para a violência quando a própria fábrica legislativa opera para travá-lo. A esquerda, ao contrário do que rezam os manuais do senso comum conservador, não é leniente com o crime; ela é, historicamente, a única força que tentou implodir a escola do crime que é o sistema carcerário brasileiro. Michel Foucault, em Vigiar e Punir, já nos alertava que a prisão não fracassa em eliminar o crime; ela tem sucesso em produzir delinquentes, em criar uma classe específica de “ilegalismos geríveis”.

A “Bancada da Bala”, junta a outras que tais, tornam-se hegemônicas no Legislativo, e estas bancadas compreenderam esta lição foucaultiana pelo avesso: eles legislam não para acabar com o crime, mas para garantir que o ciclo de encarceramento em massa continue fornecendo e funcionando exatamente como ele é hoje, uma fábrica de punir negros, pobres, periféricos e semialfabetizados.

O governo Lula enfrenta, portanto, um parlamento que opera na lógica do pânico moral produzido e infrutífero, que combate “comunismo” em 2025! Enquanto o Ministério da Justiça tenta desenhar políticas baseadas em inteligência, rastreamento de ativos e descapitalização do crime organizado — a única via moderna e eficaz, validada pelas melhores práticas internacionais —, o Congresso responde com populismo penal: aumento de penas, fim de saidinhas, excludentes de ilicitude. Essas medidas, vendidas como “dureza”, são, na prática, gasolina no incêndio. Ao superlotar presídios que são escritórios do crime, o legislador conservador entrega o jovem primário, sem facção, nos braços do crime organizado, que lhe oferece proteção em troca de lealdade eterna. A esquerda sabe que cada lei “dura” aprovada sem critério sociológico é um contrato de adesão assinado para o Comando Vermelho ou o PCC.

Não é inépcia, é bloqueio institucional deliberado. O Orçamento da União, hoje sequestrado por emendas parlamentares impositivas, drena os recursos que deveriam financiar um SUS da Segurança Pública — um sistema integrado, interestadual, científico e preventivo — para pulverizá-los em viaturas e armamentos vistosos nos redutos eleitorais de deputados que fazem da insegurança seu palanque. O Executivo propõe a cirurgia complexa; o Legislativo impõe a sangria imediatista. O que temos são duas entidades opostas: um Executivo que deseja derreter o gelo via calor do suporte da inteligência, um Congresso que pretende apenas enxugar o gelo.

A esquerda entende a violência como um business complexo que precisa ser asfixiado financeiramente; a direita legislativa a trata como uma cruzada moral que precisa ser alimentada com corpos, pois o medo é a moeda política mais valorizada em tempos de incerteza. É muito duro morar num CEP amaldiçoado pela violência. Não é só o corpo que fica vulnerável, é a política de emprego que é afetada, o transporte, a participação cidadã, a integração com a internet, a falta de Estado humanizador, em suma.

Estamos diante de um parlamento que trava a modernização da polícia, a desmilitarização, pauta histórica da esquerda e consenso entre acadêmicos da segurança, é tratada como heresia no Congresso, não por razões técnicas, mas porque uma polícia cidadã, investigativa e científica desmantelaria o poder político local de milícias e grupos de extermínio que, não raro, possuem conexões políticas fortes. O governo federal tenta, nas frestas do possível, induzir a racionalidade, mas é um trabalho de Sísifo: empurrar a pedra da ciência morro acima, apenas para vê-la rolar de volta, empurrada pelo voto de quem lucra com a barbárie, e de quem vota por puro medo, o pior conselheiro da urna eletrônica.

A Alucinação do Senso Comum e a Economia Política do Massacre

O maior triunfo ideológico da direita não foi eleger presidentes ou fazer maiorias parlamentares; foi colonizar o imaginário popular com a ideia simplória, quase infantil, de que segurança pública é um problema de polícia, e não de economia política. Quando lemos que 81% da população acredita que “todos” ou “a maioria” dos mortos na operação eram criminosos, não estamos vendo um diagnóstico factual da realidade, mas o reflexo de um desespero social que busca bodes expiatórios para o colapso da vida cotidiana. A esquerda, munida de uma biblioteca que vai de Marx a Piketty, entende o que o senso comum recusa: em um dos países mais desiguais do mundo, onde a herança escravocrata de que fala Braudel ainda desenha a geografia urbana, a violência não é uma falha do sistema, é o seu produto mais bem-acabado.

O “sucesso” da operação, celebrado por 57% dos fluminenses segundo o Datafolha, deve ser lido no contrapelo. Ele não valida a tese de que “bandido bom é bandido morto”; ele expõe a falência absoluta do Estado em oferecer qualquer outra mercadoria que não seja a morte. Durante os governos Lula 1 e 2, a criminalidade cedeu espaço não porque a polícia atirou mais, mas porque o Estado disputou o jovem com o tráfico na ponta do consumo e da dignidade. A queda da desigualdade naquele período funcionou como um torniquete na hemorragia social. O que vemos hoje, esse clamor por medidas duras — onde 73% querem enquadrar facções como terrorismo e 88% pedem penas maiores — é o grito de uma sociedade que, desamparada economicamente após o desmonte neoliberal de Temer e Guedes, agarra-se ao punitivismo como quem se agarra a uma boia de chumbo.

A tese de Karen Stenner sobre a “ameaça normativa”, citada pelo colunista da Folha, para justificar o apoio popular à barbárie, sua tese é bem argumentada, mas é preciso dar-lhe materialidade histórica a fim de torna-la mais robusta. A “norma” que ruiu na favela não foi apenas a lei penal; foi a norma do emprego, a norma do salário digno, a norma da geladeira cheia. Quando o Estado retira a proteção social, a única “ordem” que resta é a do patrão do tráfico ou a do invasor fardado. A esquerda entende que restaurar a autoridade perdida não se faz empilhando cadáveres, o que apenas retroalimenta o ciclo de vingança e recrutamento; faz-se restaurando a autoridade da Carteira de Trabalho e do diploma universitário.

É contraintuitivo para o senso comum, bombardeado pelo jornalismo policialesco que lucra com o sangue, que exige a resposta imediata do tiro. Mas a ciência nos mostra que a correlação mais forte com a redução de homicídios não é o número de prisões, é a redução do coeficiente de Gini. O governo federal atual, ao retomar a valorização do salário-mínimo e turbinar o Bolsa Família, está fazendo mais pela segurança pública do Rio de Janeiro a longo prazo do que qualquer “megaoperação” que deixa 120 mortos e é cinicamente chamada de sucesso pelo governo do Estado. A esquerda não é “boba” nem “leniente”; ela é a única adulta na sala, tentando explicar que não se cura um câncer social com band-aid de chumbo. O problema é que, na democracia do espetáculo, a sensatez não rende likes, e a necrofilia política se vende como virtude moral.

O Supremo como Trincheira Civilizatória e a Soberania da Exceção

A ironia trágica que escapa ao olhar apressado das redes sociais, mas que brilha com clareza solar para quem se debruça sobre a teoria do Estado é que a esquerda, acusada de desordem, tornou-se a última guardiã da ordem jurídica estrita, enquanto a direita, que se arvora em defensora da lei, aplaude a sua suspensão sistemática. Carl Schmitt, jurista maldito, mas imprescindível, ensinou-nos que “soberano é quem decide sobre o estado de exceção”. No Rio de Janeiro, e em tantos outros feudos estaduais, o governador usurpou essa soberania para decretar que, em certos CEPs, a Constituição de 1988 não vigora. A favela torna-se, na acepção precisa de Giorgio Agamben, um campo — não um espaço físico apenas, mas uma zona de indistinção onde a lei está suspensa para que a força possa operar sem limites.

Quando o Supremo Tribunal Federal, provocado por partidos de esquerda e movimentos sociais, edita a ADPF 635 — a “ADPF das Favelas” —, ele não está “algemando a polícia”, como bradam os demagogos de plantão; ele está, num esforço desesperado e quase solitário, tentando reintroduzir a República em territórios onde ela foi abolida pelo arbítrio armado. A decisão da Corte, que restringiu operações durante a pandemia e exigiu protocolos mínimos de perícia e transparência, foi um dique de racionalidade jurídica contra a maré da barbárie. E aqui reside o paradoxo que confunde o eleitor mediano: a esquerda defende a ADPF não porque ama o crime, mas porque sabe que um Estado que pode matar sem dar satisfações na favela é um Estado que, amanhã, poderá matar no condomínio. A violência estatal é um cão raivoso que, uma vez solto da corrente da legalidade, não distingue mais quem é o dono e quem é a caça. Setores expressivos da classe média, que aplaudem a operação policial no Rio, e ainda alimentam restrições classistas ao Presidente Lula, mal sabem que é a ponta de lança a defende-los da barbárie total do desmantelamento do Estado brasileiro.

O “sucesso” da operação recente, referendado por 67% da população, é a prova cabal de que o brasileiro médio, exaurido pela insegurança, aceitou a lógica do estado de sítio não declarado. Ele trocou a cidadania pela tutela militarizada. Mas a esquerda, fiel à tradição dos grandes juristas como Evandro Lins e Silva ou Sobral Pinto, recusa-se a assinar esse cheque em branco. A insistência na legalidade, no devido processo, na inteligência policial em detrimento do confronto, não é “garantismo ingênuo”; é a compreensão pragmática de que a polícia que mais mata é também a que mais morre, a que mais adoece e a que menos resolve crimes. O modelo do confronto é uma máquina de moer carne pobre — fardada ou não — que mantém as engrenagens do medo girando, justificando orçamentos bilionários de segurança que jamais entregam paz, apenas tréguas armadas.

A esquerda compreendeu, com lucidez que a segurança pública real exige a submissão da força à inteligência, e não o contrário. A validação de políticas de transferência de renda pela ONU como vetores de pacificação não é retórica globalista; é evidência empírica. Onde o Estado entra com escola, posto de saúde e renda básica, o recrutamento do tráfico recua e seca. Uma criança com livro na mão e praticante de esporte, numa escola de tempo integral, é um cidadão futuro salvo das garras do recrutamento do tráfico.

Onde o Estado entra apenas com o blindado, o ódio floresce. A luta da esquerda, portanto, travada nos tribunais superiores e nas poucas instâncias do Executivo onde ainda governa, é uma luta para impedir que o Brasil não deslize de vez para uma “democracia iliberal”, onde eleições acontecem, mas a vida nua dos indesejáveis é gerida pela bala. É uma batalha ingrata, nadar contra a correnteza do medo popular, mas é a única batalha que vale a pena para quem não desistiu da civilização.

A Trincheira do Tempo Integral e a Geopolítica da Sala de Aula

A escola é — ou deveria ser — a barreira intransponível contra a morte cívica. E aqui, mais uma vez, a esquerda é acusada de idealismo quando, na verdade, é a única portadora de um pragmatismo brutal: ela sabe que a segurança pública se resolve na disputa pelo tempo da juventude. Existe uma “tecnologia de segurança” muito mais eficaz que o reconhecimento facial ou o blindado aéreo, testada com exaustão nos Estados Unidos e na antiga tradição pedagógica russa: a escola de tempo integral. Não como depósito de crianças, mas como território de cidadania blindada. Onde a criança está das 8h às 17h, aprendendo xadrez, robótica ou literatura, ela não está na esquina, vulnerável ao canto de sereia do “vapor” ou à bala perdida do Estado.

Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, ícones dessa esquerda que hoje é chamada de “perplexa”, entenderam isso há quarenta anos com os CIEPs. Eram “bunkers” de educação, desenhados por Niemeyer não por estética, mas para serem fortalezas onde a criança pobre comeria, tomaria banho e estudaria, protegida da violência que já se avizinhava. Quem desmontou esse projeto? Quem abandonou essas naves mãe da cidadania ao relento, transformando-as em carcaças onde hoje, ironicamente, muitas vezes a milícia opera? Não foi a esquerda. Foi a lógica de austeridade e o descaso de governos estaduais que preferiram investir em presídios — o hotel dos falidos — a investir na arquitetura da esperança.

O governo federal atual, amarrado pelo pacto federativo que entrega o Ensino Básico aos municípios e o Médio aos estados, age pelas beiradas com a potência que lhe resta. Através da CAPES e da expansão das Universidades Federais e Institutos Federais (os IFs), a esquerda criou ilhas de excelência que rivalizam com a elite privada. Nesses espaços, onde o “turno e contraturno” é uma realidade vivida através de bolsas de iniciação científica e projetos de extensão, a taxa de cooptação pelo crime é irrisória, para não dizer inexistente. O jovem do IF não quer ser “frente” do morro; ele quer ser engenheiro da Petrobras. Isso é política de segurança pública na veia. A esquerda entendeu que Paulo Freire não é apenas um método de alfabetização, é uma doutrina de defesa nacional: um aluno que lê o mundo, que entende sua posição na estrutura de opressão, é um recruta muito mais difícil para a carne de canhão do tráfico, que depende da alienação e do desespero para preencher suas fileiras.

A esquerda propõe a escola como o antídoto real à violência, não por romantismo, mas pela evidência estatística de que o custo-aluno é infinitamente menor, e moralmente superior, ao custo-presidiário. Enquanto não houver uma federalização tática do ensino em áreas de conflito, ou um pacto nacional que obrigue governadores a implementarem o tempo integral sob pena de crime de responsabilidade, continuaremos enxugando sangue com notas de repúdio.

Por último, olhem para trás: a “ordem” que a direita promete hoje é a ressurreição do cadáver insepulto da Ditadura Militar de 1964. Foi lá, nos porões do DOI-CODI e nas Operações Bandeirante, que a polícia brasileira aprendeu que o inimigo interno não tem direitos, apenas corpo passível de eliminação. Bolsonaro, em seu quadriênio de trevas (2019-2022), não inventou a violência; ele a democratizou, transformando o extermínio em política de Estado oficial, desmantelando conselhos, armando a população e celebrando a morte como assepsia social. A “terra arrasada” que herdamos em 2023 não foi um acidente administrativo; foi um projeto de destruição da solidariedade nacional. A direita perde o debate moral e técnico porque seu projeto final é o suicídio do Estado: um país onde cada cidadão é um soldado em potencial e cada vizinho, um alvo.

A esquerda vence o debate porque oferece a única tecnologia de governo capaz de impedir a implosão social do Brasil. Quando Lula, em seus mandatos iniciais, e agora, na reconstrução de 2025, insiste que a segurança é filha da justiça social, ele está alinhado com o que há de mais avançado na ciência política global. A redução da criminalidade observada nos anos de ouro do lulismo não foi mágica; foi a aplicação prática da tese de que a cidadania é o melhor escudo contra a barbárie. Enquanto a direita oferece a vingança — que é cíclica, infinita e sangrenta —, a esquerda oferece a República. A República, essa res publica que exige que a lei valha tanto para o morador do Leblon quanto para o da Maré, é uma invenção frágil, e é a esquerda, paradoxalmente, sua última guardiã contra os bárbaros que, vestindo ternos bem cortados e fardas, querem transformar o Brasil num grande condomínio feudal cercado de arame farpado e fossas comuns.

Não nos deixemos intimidar pela tirania das pesquisas de opinião momentâneas. A aprovação popular ao massacre é o sintoma da doença, não a prova da cura. O povo, em seu desespero, pode aplaudir o carrasco, mas é dever do intelectual, do jurista, do político de esquerda, manter a lucidez quando todos ao redor perdem a razão. Vladimir Safatle nos lembra que vivemos em um “Estado Suicidário”, que gere suas próprias contradições eliminando seus próprios cidadãos. A esquerda diz “não” a esse suicídio coletivo. Ela diz “sim” à escola integral, “sim” à inteligência policial, “sim” à redistribuição de renda radical.

A direita pode ter os aplausos do medo hoje, mas a esquerda tem a razão da História. E quando a poeira dos escombros baixar, quando o cheiro de pólvora se dissipar e restarem apenas os órfãos e o ressentimento, ficará claro quem defendeu a civilização e quem apostou na barbárie. A “porrada” pode ganhar a manchete de amanhã, mas só a solidariedade e o humanismo constroem o século. A esquerda entendeu a violência; entendeu que ela é o grito de um país que se recusa a nascer. E nossa tarefa, hercúlea e inegociável, é fazer o parto desse Brasil, mesmo que ele nos morda a mão na hora da dor.

Referências Bibliográficas:

1. Fonte:

  • GOMES, Wilson. A esquerda ainda não entendeu o apoio popular à operação militar no Rio. Folha de S.Paulo, São Paulo, 18 nov. 2025.

2. Documentos Jurídicos e Oficiais:

  • BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República.
  • BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 635. Relator: Min. Edson Fachin. Brasília, DF, 2020.
  • ONU. Princípios Básicos sobre o Uso da Força e Armas de Fogo pelos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei. Oitavo Congresso das Nações Unidas para a Prevenção do Crime e o Tratamento dos Delinquentes. Havana, 1990.

3. Bibliografia:

  • AGAMBEN, Giorgio. Estado de Exceção. Tradução de Iraci D. Poleti. São Paulo: Boitempo, 2004.
  • BRAUDEL, Fernand. Escritos sobre a História. Tradução de J. Guinsburg e T. A. Queiroz. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 2005.
  • DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Tradução de Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
  • FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. 42. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.
  • FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 60. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016.
  • MBEMBE, Achille. Necropolítica. Tradução de Renata Santini. São Paulo: n-1 edições, 2018.
  • PIKETTY, Thomas. O Capital no Século XXI. Tradução de Monica Baumgarten de Bolle. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.
  • RIBEIRO, Darcy. O Livro dos CIEPs. Rio de Janeiro: Bloch, 1986.
  • SAFATLE, Vladimir. O Circuito dos Afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. São Paulo: Cosac Naify, 2015.
  • SCHMITT, Carl. Teologia Política. Tradução de Elisete Antoniuk. Belo Horizonte: Del Rey, 2006.
  • STENNER, Karen. The Authoritarian Dynamic. Cambridge: Cambridge University Press, 2005.
  • WACQUANT, Loïc. As Prisões da Miséria. Tradução de André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

Thiago Gama – Doutorando em História pela UFRJ, Programa de Pós-graduação em História Comparada (PPGHC)

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