Milhões de americanos têm recorrido a bancos de alimentos em meio ao avanço da insegurança alimentar no país, um fenômeno que atinge até pessoas que sempre tiveram renda estável. É o caso de Ilona Biskup, de 62 anos, ex-comissária de bordo que vive em Miami e hoje depende de doações para garantir parte de sua alimentação.
Mesmo recebendo US$ 2 mil por mês em benefícios da Previdência, Biskup não consegue arcar com todos os custos básicos após enfrentar dois cânceres, uma cirurgia complexa no pâncreas e, mais recentemente, o diagnóstico de Parkinson. O acúmulo de despesas médicas consumiu suas economias, deixando-a vulnerável.
A situação de Biskup reflete um problema estrutural. Pesquisas apontam que até 60% dos americanos passarão ao menos um ano na pobreza ao longo da vida, devido sobretudo à fragilidade da rede de proteção social e à prevalência de empregos de baixa remuneração. Um em cada cinco adultos usou bancos de alimentos no último ano, e 27% tiveram dificuldade para pagar assistência médica.
Com o recente congelamento temporário do programa SNAP, principal auxílio alimentar do país, que atende 42 milhões de pessoas, a demanda por doações disparou. Organizações como o Feeding South Florida registraram até o triplo de famílias em busca de itens básicos após o corte.
Beneficiária do SNAP, Biskup complementa a alimentação com doações enquanto tenta ajustar o orçamento para seguir vivendo em Miami Beach. Para ela, como para milhões de outros americanos, um único evento inesperado foi suficiente para transformar estabilidade em vulnerabilidade.
Essa trajetória não é incomum. Pesquisas conduzidas pelo sociólogo Mark Rank mostram que quase 60% dos adultos americanos viverão ao menos um ano abaixo da linha da pobreza, e 75% enfrentarão pobreza ou um quadro próximo a ela em algum momento da vida.
“Há três portas de entrada para a pobreza nos Estados Unidos: perda de emprego, emergência de saúde e ruptura familiar”, explica Rank, da Universidade Washington, em St. Louis. Para ele, a fragilidade da rede de proteção social e a geração de empregos de baixa remuneração tornam o país uma das nações industrializadas com maior desigualdade.
Dados do Pew Research Center indicam que, no último ano, 27% dos americanos tiveram dificuldade para pagar assistência médica, e 20% recorreram a bancos de alimentos. Entre minorias, a vulnerabilidade é maior: 68% dos adultos negros e 67% dos hispânicos não têm reserva financeira para emergências, ante 44% entre brancos.
Um estudo do National Council on Aging aponta que idosos com menos recursos morrem, em média, nove anos antes dos mais ricos — um retrato da desigualdade acentuada no envelhecimento.
Além da dificuldade econômica, o estigma pesa: “Nos EUA, a pobreza costuma ser vista como falha individual. Pergunta-se: o que essa pessoa fez de errado?”, afirma Rank.
Explosão na procura por ajuda
O Feeding South Florida, presidido por Paco Vélez, atende cerca de 967 mil pessoas nos condados do sul da Flórida. Ele relata que a suspensão do SNAP dobrou a busca por alimentos.
“No início do ano, recebíamos 40 famílias por dia. Com o fechamento do governo, chegamos a 120”, afirma a chefe de pessoal, Jessica Benites.
Doações de agricultores, supermercados e empresas — de US$ 3 mil a US$ 380 mil — mantêm o estoque da organização, que opera com voluntários revisando e separando os produtos.
*Com informações da BBC Brasil.
LEIA TAMBÉM:
Rui Ribeiro
1 de dezembro de 2025 9:37 amPorventura, o Trump não está tornando a America great again?