Esquerda e Direita: das origens revolucionárias à guerra cultural no século XXI
por Francisco Fernandes Ladeira
Os termos “esquerda” e “direita”, enquanto categorias do espectro político, tiveram origem nos acontecimentos da Revolução Francesa, no final do século XVIII. Naquele contexto, os adjetivos foram utilizados para descrever a disposição dos assentos na Assembleia dos Estados Gerais. O Terceiro Estado – composto por camponeses e burgueses, defensores de reformas liberais – posicionou-se à esquerda do rei. Enquanto isso, os setores favoráveis à manutenção do status quo, o clero e a nobreza (Primeiro e Segundo Estados), localizavam-se à direita do monarca.
Após a queda da Bastilha, a esquerda passou a ser associada à corrente jacobina, vista como “revolucionária radical”, que aspirava, entre outras mudanças, à instauração do regime republicano, à secularização do Estado e à concessão de benefícios às camadas populares. Por outro lado, a direita ficou vinculada aos girondinos, considerados “revolucionários moderados”, que pretendiam garantir as conquistas da Revolução apenas para a burguesia, excluindo os setores menos abastados das principais decisões políticas.
Ao longo dos anos, novos significados foram incorporados aos conceitos de esquerda e direita. Para Norberto Bobbio, a esquerda é constituída pelos que defendem a melhoria das condições de vida da maioria da população, enquanto a direita seria formada pelos partidários da conservação dos privilégios das elites tradicionais. Em termos de sistemas políticos, a esquerda geralmente se associa ao socialismo, e a direita ao capitalismo.
Embora o chamado “socialismo real” não represente toda a esquerda, a queda da União Soviética, no início dos anos 1990, representou um duro golpe para as forças esquerdistas. Esse evento foi apropriado pela direita como “argumento” para justificar a inviabilidade de sistemas de governo voltados para reformas sociais. Para Francis Fukuyama, o capitalismo e a democracia liberal teriam triunfado definitivamente, marcando o estágio final da evolução humana. Segundo Thomas Friedman, o fim da Guerra Fria “inclinou a balança do poder mundial para o lado dos defensores da governança democrática, consensual e voltada para o livre mercado, em detrimento dos adeptos do governo autoritário com economias de planejamento centralizado”. Não por acaso, nesse período, ganhou força no campo da esquerda o identitarismo, que substituiu a luta de classes por pautas de identidade, colocando o indivíduo acima do coletivo. É a “esquerda” que a direita gosta.
Mas será o sistema capitalista realmente a única saída para a humanidade? Estaríamos fadados a viver em uma sociedade cada vez mais orientada para o consumo?
Fukuyama, Friedman e os direitistas em geral foram surpreendidos pelos desdobramentos históricos. É complexo e controverso analisar processos históricos sem o distanciamento temporal necessário. O colapso do socialismo soviético não significa, necessariamente, que o modelo capitalista tenha sido bem-sucedido.
Como bem lembrou Bruno Latour em “Jamais Fomos Modernos”, o “triunfo capitalista” mostrou-se efêmero. Na mesma época da queda do socialismo no Leste Europeu, as primeiras conferências globais sobre o estado ambiental do planeta frustraram as expectativas capitalistas de domínio ilimitado sobre a natureza. Segundo Eric Hobsbawm, já no início da década de 1990, o mundo capitalista se viu novamente confrontado com problemas típicos do período entreguerras, que a chamada Era de Ouro parecia ter superado: desemprego em massa, depressões cíclicas severas e uma desigualdade cada vez mais escancarada, com cenas de pessoas em situação de rua diante de cenários de luxo abundante.
Além disso, é importante frisar que a crise econômica de 2008, iniciada com o estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos, escancarou as falhas sistêmicas do capitalismo. A crença de Adam Smith em um mercado autorregulável que promoveria o bem-estar geral mostrou-se mais uma vez falaciosa. A famosa “mão invisível”, quando as coisas desandam, precisa invariavelmente da “mão visível” do Estado.
Atualmente, em meio à guerra cultural promovida pela extrema direita, a esquerda tem sido frequentemente – e de maneira equivocada – reduzida a pautas de cunho moral, no estilo do já mencionado identitarismo. Disso resultam inúmeras narrativas falsas que propagam, por exemplo, a ideia de que governos de esquerda defenderiam banheiros unissex em escolas, ensinariam “ideologia de gênero” em sala de aula, forçariam o uso de pronomes neutros ou reprimiriam crenças religiosas. Infelizmente, uma parcela expressiva da própria esquerda acaba por cair nessa armadilha, deslocando o debate político para o terreno da chamada “agenda dos costumes” em detrimento de questões econômicas e estruturais.
Diante desse cenário, mais do que nunca, é fundamental que a esquerda recupere o discurso da luta de classes. É preciso demonstrar claramente à classe trabalhadora quem de fato defende seus interesses materiais e sua dignidade social. Caso contrário, as retóricas demagógicas da extrema direita – muitas vezes vendidas como discursos “antissistema” – continuarão a conquistar corações e mentes do povão, obscurecendo as verdadeiras divisões sociais e econômicas. Repetiríamos, assim, o movimento pendular da história, no qual a esquerda, ao abandonar sua base programática classista, abre espaço para projetos reacionários que aprofundam a desigualdade em nome de uma suposta defesa da tradição.
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Francisco Fernandes Ladeira é doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador de pós-doutorado do Instituto Federal de Minas (IFMG) – campus Ouro Preto
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