Um ano marcado pela disputa da agenda pública
por Francisco Fernandes Ladeira
Poucos anos tiveram uma agenda pública tão agitada e disputada quanto 2025. Tivemos o primeiro Oscar para uma produção brasileira, fake news sobre o Pix, o projeto de taxação dos mais ricos, a Operação Carbono Oculto, debates sobre adultização, a defesa da soberania nacional, Eduardo Bolsonaro conspirando contra o próprio país, a crise do metanol, massacres em favelas cariocas, questionamentos sobre segurança pública, o escândalo do Banco Master e a prisão de Jair Bolsonaro.
Sem falar nas temáticas inócuas, como os bebês reborn, os chiliques da extrema direita contra as sandálias Havaianas, o Morango do Amor, a vida amorosa da influenciadora Virginia Fonseca e quem (não) matou Odete Roitman. Haja assunto!
Em muitas ocasiões, na grande mídia, uma determinada pauta era estrategicamente enfatizada para ofuscar o debate anteriormente em destaque. A pauta da segurança pública, por exemplo, foi utilizada para atrapalhar o bom momento do governo Lula, que ganhou de bandeja a agenda da soberania nacional após o tarifaço de Donald Trump. Já a prisão de Bolsonaro tirou o foco dos escândalos do Banco Master.
O ano esportivo teve como destaque o primeiro Super Mundial de Clubes organizado pela FIFA, vencido pelo Chelsea. Por outro lado, a volta de Neymar ao Santos foi um grande fracasso, a ponto de o clube quase cair para a Segunda Divisão.
Na área musical, houve perdas irreparáveis nos mais variados estilos – da MPB ao rock, passando pelo reggae – com destaque para Ozzy Osbourne, Jimmy Cliff e Lô Borges, um dos principais nomes do lendário Clube da Esquina.
A geopolítica de 2025 foi marcada pela continuidade de focos de tensão, como o conflito entre Rússia e Ucrânia, o genocídio do povo palestino e a Guerra Civil no Congo. Desde 8 de maio, o Vaticano tem um novo papa: o discreto Leão XIV. A Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas – a COP 30 – não trouxe resultados contundentes, exceto pela transformação da Floresta Amazônica em ativo financeiro. O capitalismo não poupa nada nem ninguém!
No Chile, a extrema direita chegou ao poder. Na França, ladrões vestidos com coletes de operários protagonizaram um assalto histórico no Museu do Louvre. Há quem diga que eles mereçam cem anos de perdão. No Nepal, o corte das redes sociais levou jovens às ruas para protestar contra o governo. Neste início de século XXI, a falta de dopamina rápida e barata para as massas pode ser um novo motivo para revoltas populares.
Donald Trump, por sua vez, conseguiu roubar a cena no primeiro ano de sua segunda passagem pela Casa Branca. Ameaçou tomar o Canal do Panamá, se apossar da Groenlândia, renomear o Golfo do México e anexar o Canadá. Além disso, inventou acusações contra Nicolás Maduro, impôs tarifaços mundo afora e costurou um suposto acordo de paz para a Faixa de Gaza, esperando o Nobel da Paz. Mas a laureada foi a golpista venezuelana María Corina Machado. Uma das maiores vergonhas da história do Comitê Norueguês do Nobel.
Retomando o título desta breve retrospectiva, a pergunta que fica é: quais serão as questões da agenda pública em 2026, ano eleitoral? A esquerda tem os exemplos das duas últimas eleições. Se fizer como em 2018, influenciada pelo identitarismo, e for para a disputa no campo moral, o fracasso é certo. Se for como em 2022, e pautar questões materiais – como o pobre comer picanha –, estará no caminho certo. Felizmente, Lula é adepto da segunda hipótese.
***
Francisco Fernandes Ladeira é pesquisador de pós-doutorado do Instituto Federal de Minas (IFMG) – campus Ouro Preto
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário