Desmentindo o catastrofismo. Emprego e renda batem recordes. E inflação cai
por Lauro Veiga Filho
Restando os dados de dezembro para fechamento do exercício, as estatísticas teimam em desmentir o catastrofismo predominante nas análises sobre a economia, o mercado de trabalho e a inflação. Conforme as linhas mestras do pensamento econômico hegemônico no setor financeiro e, portanto, na grande imprensa corporativa, os ganhos salariais dos trabalhadores e o consequente aumento da renda das famílias, persistentemente acima das taxas de inflação, tenderiam a gerar um quadro de aceleração inflacionária, “contaminando” todos os demais preços da economia, o que obrigaria o Banco Central (BC) a arrochar o crédito, elevando os juros básicos para muito além do razoável.
Apenas a última parte da “profecia” de fato vai se realizando, diante da teimosia recorrente da autoridade monetária, que se recusa a reverter sua política de juros escorchantes mesmo num momento de evidente calmaria dos preços. Como sugerem os dados reais, não parece se tratar de um “surto” episódico de desaceleração no ritmo da alta dos preços, mas de uma tendência mais persistente de acomodação inflacionária, influenciada parcialmente pela queda do dólar e, de forma mais relevante, pela tendência de sensível desaquecimento nos custos da alimentação em geral.
Nos últimos três anos, conforme números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), realizada regularmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a massa de rendimentos reais, quer dizer, a soma de todos os rendimentos recebidos habitualmente pelos trabalhadores em todas as suas ocupações, descontada a inflação, registrou alta de 18,6% ao saltar de R$ 306,609 bilhões no trimestre encerrado em novembro de 2022 para R$ 363,705 bilhões em igual período deste ano – dado mais recente divulgado pelo instituto. As famílias receberam um reforço de praticamente R$ 57,096 bilhões em sua renda ao longo daqueles anos, algo como, grosso modo, em torno de R$ 1,586 bilhão a mais a cada mês.
Aquele avanço foi resultado de um crescimento de 5,3% no total de pessoas ocupadas, que passou de 97,843 milhões para 103,019 milhões, um recorde na série histórica da PNADC, iniciada em 2012, significando a abertura de 5,176 milhões de vagas desde novembro de 2022. Ao mesmo tempo, o rendimento real médio pago habitualmente aos trabalhadores experimentou alta de 12,0% acima da inflação decorrida desde o trimestre setembro-novembro de 2022. A valores de novembro deste ano, o rendimento médio subiu de R$ 3.190 para R$ 3.574, atingindo o melhor resultado desde que a série atual da pesquisa foi iniciada pelo IBGE.
Sem “explosões”
Mas o que aconteceu com a inflação? As taxas não deveriam ter explodido com a alta dos salários, que teoricamente teriam produzido uma escalada do consumo, puxando os preços ao mesmo tempo? Na verdade, o catastrofismo e as teses mais conservadores, diga-se assim, foram implodidas, sem que a grande imprensa e seus analistas, consultores e economistas “do mercado” dedicassem sequer um segundo para reconhecer o que os dados reais mostram. Desmentindo todos os prognósticos, a inflação caiu.
O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), também aferido pelo IBGE, havia acumulado alta de 5,90% nos 12 meses até novembro de 2022, fechando o ano em 5,79%, com elevação de 11,64% para os preços de alimentos e bebidas. Neste ano, igualmente no período de 12 meses concluído em novembro, a inflação oficial havia recuado para 4,46% (1,44 pontos percentuais mais baixa), com os mercados já sugerindo um IPCA ao redor de 4,32% para o ano que se encerra.
Os custos da alimentação e das bebidas haviam desacelerado sua alta para 3,88% nos 12 meses encerrados em novembro passado e já apontavam variação de 3,57% até o final da primeira quinzena de dezembro, também em 12 meses. Neste caso, registre-se a influência de uma safra recorde sobre os preços domésticos dos grãos, favorecendo um barateamento dos custos da alimentação animal, o que ajudou a conter os preços das carnes.
A “ajuda” do câmbio
A contribuição mais positiva do dólar foi registrada, sobretudo, a partir de julho, já que as cotações da moeda estadunidense haviam escalado 13,27% na média do período entre janeiro e junho deste ano em relação à primeira metade de 2024. Os valores médios anotados pelo BC para a cotação do dólar entre julho e novembro apontaram recuo de 3,42% em relação ao mesmo período do ano passado, com baixa de 5,95% na comparação com o primeiro semestre. Nos primeiros 30 dias de dezembro deste ano, o câmbio chegou a registrar baixa de 10,53% diante de igual período do ano passado, numa tendência inversa ao salto de 24,40% observado entre o último mês de 2023 e dezembro do ano seguinte.
Em parte, além de tendências prevalecentes no cenário internacional, os preços do dólar aqui dentro foram influenciados ainda pela entrada de dólares atraídos pelos juros reais extravagantes impostos pelo BC à economia brasileira, estimados em alguma coisa ao redor de 10,5% ao ano a se considerar o IPCA estimado pelo setor financeiro para 2026, em torno de 4,05%. Na verdade, a valorização do real em relação ao dólar, que contribui ainda para deixar as importações relativamente mais baratas, parece ter sido o impacto mais efetivo da política de juros altos sobre as taxas de inflação. Parte dessa influência pode ser percebida no comportamento do Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), que registrou baixa de 1,05% nos 12 meses terminados em 20 de dezembro, na aferição do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV). A queda foi provocada principalmente pela redução de 3,35% acumulada naquele mesmo período pelos preços no atacado, com baixas de 6,30% nos custos dos produtos agropecuários e de 2,28% para os preços industriais.
Confirmação no longo prazo
Numa comparação mais longa, o IPCA despencou de 10,06% em 2021 para alguma coisa em torno de 4,32% na aposta mais recente do mercado financeiro, um tombo de 5,74 pontos percentuais. Ao longo desse período, o rendimento real subiu quase 20%, com salto ainda de 33,9% para a massa de rendimentos reais, que disparou de R$ 271,722 bilhões para os já registrados R$ 363,705 bilhões, num ganho de R$ 91,983 bilhões (com acréscimo de praticamente R$ 1,920 bilhão ao mês ao longo daqueles quatro anos).
O número de ocupados aumentou em 9,835 milhões desde o trimestre setembro a novembro de 2021 e o mesmo período trimestral concluído em novembro deste ano, passando de 93,184 milhões para 103,019 milhões, num incremento de 10,6%. De forma ainda mais positiva, o aumento das vagas oferecidas no segmento formal do mercado de trabalho foi responsável por pouco mais de 80% do avanço experimentado pelas ocupações totais.
As ocupações com carteira assinada e registro no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ) saíram de 52,832 milhões para 60,712 milhões, subindo 14,9% – o que representou a entrada no mercado formal de 7,880 milhões de novos ocupados. A participação das “ocupações formais” no total de empregos variou de 56,70% para 58,93%, depois de ter alcançado 57,86% em novembro de 2022.
Na medição mais recente da PNADC, divulgada na terça-feira, 30, pelo IBGE, a taxa de desemprego saiu de 6,1% no trimestre móvel entre setembro e novembro de 2024 para 5,6% nos três meses terminados em agosto deste ano, recuando para o percentual mais baixo da série histórica em novembro deste ano, ao se aproximar de 5,2%. A população ocupada cresceu 1,1% em 12 meses, cm abertura de 1,103 milhão de novas ocupações em relação a 101,916 milhões nos registros de novembro de 2024. Esse comportamento muito favorável ajudou a derrubar o número de desempregados para seu menor nível na série, ao despencar de 6,632 milhões em novembro do ano passado para 5,644 milhões (988,0 mil a menos), em queda de 14,9%. Rendimentos reais e massa salarial, também na comparação anual, subiram respectivamente 4,5% e 5,8% – sem que isso alterasse a tendência de desinflação observada neste ano.
Lauro Veiga Filho – Jornalista, foi secretário de redação do Diário Comércio & Indústria, editor de economia da Visão, repórter da Folha de S.Paulo em Brasília, chefiou o escritório da Gazeta Mercantil em Goiânia e colabora com o jornal Valor Econômico.
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Carlos
31 de dezembro de 2025 3:02 pmA nova: Segundo The economist Lula não deveria mais concorrer, segundo algum redator idiota deles, “devido a idade e projeto econômico mediocre pois se baseia na melhoria de renda dos mais pobres”.
Na cabeça destas amebas, Torcisio, hoje escondido de ferias nos eua enquanto em SP a turma anda sem luz e água, seria a grande saída por ser mais novo..
Cara, os débeis mentais não tem mais o que inventar. Recorrem até ao etarismo.
Só pediria que estes merdas , que se calaram ante o genocídio promovido por israel em gaza, deixassem o Brasil em paz.