16 de junho de 2026

Os preços dos ovos e histeria inflacionária, por Lauro Veiga Filho

País teve muitas crises e todas foram deixadas para trás, devidamente superadas, porque nunca foram crises reais ou ameaças concretas

Os preços dos ovos e histeria inflacionária

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Lauro Veiga Filho

O País já viveu a “crise” do chuchu, a “crise” do alho, a “crise” do pãozinho, a “crise” do leite, da carne, da batata e até mesmo uma “crise” dos morangos, para satisfazer gostos mais sofisticados. Todas foram devidamente “superadas” e deixadas para trás, esquecidas porque, de fato, nunca foram crises reais, ameaças concretas à estabilidade dos preços. Na verdade, as altas de preços de produtos muito específicos serviram como pretexto para ataques aos governos de plantão em cada um daqueles momentos e foram utilizadas de forma a fomentar incertezas com propósitos igualmente políticos.

A nova “crise” do gênero, agora atribuída à disparada dos preços dos ovos, ganhou as páginas de economia e manchetes na grande mídia corporativa, descompromissada com os interesses maiores do País, ao ponto de “analistas” passarem a sugerir que o “povo não teria nem picanha, nem ovos”. O comportamento daqueles preços foi suficiente para despertar nova onda de histeria inflacionária, como se a estabilidade dos preços em geral estivesse mais uma vez sob risco, ameaçada pela dúzia de ovos.

Não se trata, por evidente, de menosprezar os efeitos do aumento dos preços do produto sobre a renda e o orçamento das famílias, mas de tentar introduzir alguma racionalidade ao debate. Na composição do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), os ovos têm peso de 0,25%, numa medida que considera sua participação na cesta de produtos consumidos pelas famílias e, portanto, a parcela de seu orçamento destinada ao consumo de ovos. Assim, um salto de 40% nos preços significaria um acréscimo de menos de 0,10 ponto percentual na taxa mensal de inflação. Em janeiro deste ano, os preços dos ovos subiram 0,89% e acumulavam baixa de 1,91% em 12 meses.

O foco altista tende a se dissipar ao longo do tempo, a exemplo do que ocorreu com as carnes, que chegaram a aumentar 8,02% em novembro, quando responderam sozinhas por 52% do IPCA cheio. Em dezembro e janeiro, aquela alta cedeu para 5,26% e para 0,36% respectivamente. Os preços do boi gordo, nos dados do Cepea, haviam saltado 12,49% de outubro para novembro e caíram 5,07% entre este último mês e a média acumulada nos 20 primeiros dias de fevereiro deste ano, o que permite antever uma tendência baixista ou pelo menos de elevações mais suaves para os preços cobrados dos consumidores nas próximas aferições.

Alta sazonal

Os preços médios dos ovos registrados diariamente pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, nos principais centros atacadistas do País, de fato, subiram de forma expressiva ao longo de fevereiro. Em grande medida, no entanto, a alta foi gerada por fatores conjunturais e outros sazonais, que tendem a se dissipar ao longo do tempo, como havia ocorrido no caso dos preços das carnes.

Na média, considerando as praças de Bastos, no interior paulista, as regiões da Grande Belo Horizonte e da Grande São Paulo, Recife e Santa Maria de Jetibá, no Espírito Santo, a caixa de 30 dúzias de ovos brancos tipo extra experimentou salto de 33,76% entre os dias 31 de janeiro e 20 de fevereiro, subindo ainda 31,48% em relação ao mesmo dia de fevereiro do ano passado. As caixas de ovos vermelhos, também do tipo extra e nas mesmas regiões, aumentaram 32,0% desde o último dia de janeiro deste ano e 29,01% na comparação com 20 de fevereiro do ano passado. Obviamente, essa alta já tem influenciado os preços pagos pelo consumidor e resta averiguar quais os impactos sobre os indicadores inflacionários.

Entre outros fatores de pressão, a sazonalidade do período também parece ter influenciado na alta. No ano passado, o Cepea havia identificado uma elevação média entre 21,4% e 21,5% para os preços das caixas de ovos brancos e vermelhos, naquela mesma ordem, entre o final de janeiro e 20 de fevereiro. No encerramento de março, a alta havia refluído para uma variação de 0,59% e de 2,1%, com os preços caindo quase 12% e em torno de 8,7% ao final de abril para as caixas de ovos brancos e vermelhos. Nitidamente, o salto observado neste ano teve maior intensidade, o que pode ser explicado por fatores conjunturais e igualmente passageiros.

O GGN vai produzir um novo documentário sobre os crimes impunes da Operação Lava Jato. Clique aqui e saiba como apoiar o projeto!

Oferta e demanda

De acordo com Claudia Scarpelin, pesquisadora de ovos do Cepea, em artigo publicado na sexta, 21, a tendência de elevação dos preços dos ovos teve início na segunda metade de janeiro e “se intensificou ao longo de fevereiro”, entre outros motivos como reflexo de uma redução temporária da oferta de ovos no mercado doméstico, aliada “ao aumento gradual da demanda”. Na sua análise, o descarte de aves poedeiras mais velhas desde a segunda quinzena do mês passado, reduziu “a disponibilidade de ovos”, no mesmo momento em que a demanda começou “a se normalizar gradualmente, com o aumento do consumo da população e com o retorno das aulas escolares”.

Num diagnóstico semelhante, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) argumenta adicionalmente que os preços em baixa por um período alongado contribuíram igualmente para aquecer a demanda, numa época em que o consumo naturalmente já seria maior como decorrência da “substituição de consumo de carnes vermelhas por proteínas brancas e por ovos”.

E o clima

Nos dados do Cepea, entre fevereiro e agosto do ano passado, os preços médios dos ovos no mercado atacadista havia sofrido baixas entre 26% e 27%. Scarpelin acrescenta que a queda persistiu até setembro do ano passado, numa retração acumulada desde fevereiro de quase 30%, passando a subir a partir de outubro. Num período mais recente, retoma a ABPA, as pressões altistas foram intensificadas ainda pela alta de 30% nos preços do milho, encarecendo os custos da ração, e por um salto superior a 100% nos custos de insumos para confecção de embalagens para os ovos.

“Ao mesmo tempo, as temperaturas em níveis históricos têm impacto direto na produtividade das aves, com reflexos na oferta de produtos”, acrescenta a associação. A expectativa, prossegue a ABPA, é de uma normalização do mercado de ovos até o final do período da quaresma, em abril, “com o restabelecimento dos patamares de consumo das diversas proteínas”.

Exportações recuam

Apontadas como outro fator de pressão sobre a oferta doméstica, as exportações de ovos e de gema de ovo, somadas, experimentaram estabilidade virtual em janeiro, nos dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), até com ligeiro recuo. Os embarques saíram de 4,301 mil toneladas para 4,285 mil toneladas, significando modesta baixa de 0,37%. A ABPA lembra ainda que as exportações de ovos “têm efeito praticamente nulo sobre a oferta interna, “já que representam menos de 1% das 59 bilhões de unidades que deverão ser produzidas este ano, o que deve gerar um consumo per capita de 272 unidades anuais – mais de 40 unidades acima da média mundial de consumo”.

Lauro Veiga Filho – Jornalista, foi secretário de redação do Diário Comércio & Indústria, editor de economia da Visão, repórter da Folha de S.Paulo em Brasília, chefiou o escritório da Gazeta Mercantil em Goiânia e colabora com o jornal Valor Econômico.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn “

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

3 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Baco.

    24 de fevereiro de 2025 9:06 am

    Sr Lauro.

    Não sou economista, mas parece evidente que a “histeria inflacionária” não é uma distorção dos modelos científicos de medição econométrica ou no planejamento/execução de políticas econômicas.

    É o método em si.

    Os próprios sistemas de medição inflacionária são estruturados para incutir a histeria quando necessária a consecução dos interesses dos grupos que disputam a distribuição das riquezas produzidas.

    Aliás, esse é o ponto crucial para entendimento da chamada ciência econômica, porque ela utiliza dados (passados) para construir realidades que confirmem as previsões pretéritas.

    De certa forma, esse é o ponto crucial que desafia toda a ciência, mas dada as interações sociais e políticas da Economia, parece óbvio que os estragos são bem maiores, justamente, por essa centralidade.

    Ora, inflação não é aumento setorizado de preços, mas é a disseminação (histérica, sim) generalizada da correção de preços em toda a economia, que faz as autoridades aumentarem a liquidez, para tentar compensar e equiparar preços, o que se torna impossível.

    Só que nós tempos atuais, o mecanismo soberano da emissão de meio circulante foi substituído pelos juros e aumento da dívida pública.

    Por mais maluco que pareça, modelo anterior permite alguma proteção aos mais pobres, apesar da seita ortodoxa dizer o contrário.

    Exemplo bem próximo?

    Argentina.

    A inflação anterior não impedia a existência de uma ampla rede de proteção social e melhores níveis de vida, e menor desigualdade/tensão social.

    Agora, o que temos?

    Melhora “macro econométrica”, desastre social.

    O mesmo dilema de Lula.

    Bons números, péssimos dados sociais.

    Emprego?

    6.6% de desemprego, mais ou menos, mas como alguém disse aqui, na semana passada, qual tipo de emprego?

    Qual o nível de sub utilização da mão de obra, o IBGE diz 15%.

    De cada 100 empregados, 15 são engenheiros, professores, ou até economistas, atrás do volante de um Uber.

    De certa forma, todos os sistemas econômicos, apesar dos seus cientistas-sacerdotes afirmarem o contrário, são erigidos sobre uma única base, um único sentimento humano:

    Confiança.

    Confiamos que a moeda valerá o que nós dizem que ela vale, que seremos pagos por nosso trabalho, ou pelo dinheiro que emprestamos, que os bancos devolverão o dinheiro a eles confiados, etc, etc, etc.

    Para ser justo, Delfim Netto falava muito nisso.

    A “crise” atual (ou a que sempre houve desde sempre) é que os donos da economia querem nos fazer crer nos aspectos técnicos de uma grandeza que é quase sempre subjetiva.

    E por que?

    Porque quem domina “a técnica” vai dizer para quem vai a riqueza.

    Esse é o novo (velho) pilar da ciência econômica e, como não dizer, do controle da totalidade capitalista:

    Uma economia mundial baseada em juros, e não em produção, necessita de uma ideologia econômica que privilegie a noção que as interações sociais(confiança em primeiro lugar) são mensuráveis e controladas por dados, algoritmos e arbitragens (de juros).

    Enfim, quanto “mais técnica”, menor o poder das interações das sócio reproduções do capitalismo para definir o controle político dos sistemas econômicos.

    Como poder não some, parece óbvio que ele se concentrará, tornando o processo de tomada de decisões um cânone para iniciados, e f não uma resultante das sócio interações acima citadas.

    Por isso a histeria inflacionária é hegemônica, e não apenas um detalhe.

  2. Carlos

    24 de fevereiro de 2025 5:34 pm

    Da arte da guerra: Ao longo de seu curso, a água molda-se ao terreno onde corre. (Sun Tzu)
    Eu entendo a política como a ciência de sacrificar um país em nome dos interesses pessoais dos políticos.
    Então, sabedor das ignomínias que os políticos, os nossos principalmente, são capazes, sempre estou atento às alternativas pois os terrenos estarão sempre cheios de armadilhas.

Recomendados para você

Recomendados