Trumpismo, imperialismo desnudo e a reindustrialização pela força
por Henrique Morrone
Quando Donald Trump voltou à Casa Branca prometendo “trazer a indústria de volta para casa”, não falou em cooperação internacional nem em nova ordem econômica. Falou em tarifas, retaliações e ruptura. O recado foi direto: quem quiser acessar o mercado americano terá de aceitar novas regras. O comércio internacional voltou a ser tratado como instrumento de poder — não como pacto entre iguais.
Esse movimento ganhou contornos ainda mais explícitos com o ataque recente dos Estados Unidos à Venezuela e a captura de Nicolás Maduro, anunciada como operação de força em nome da “estabilidade” e da “segurança regional”. O episódio marcou uma ruptura: a coerção, que durante décadas foi disfarçada sob sanções, bloqueios financeiros e pressões diplomáticas, reapareceu de forma direta e ostensiva. O imperialismo deixou de sussurrar — voltou a falar alto.
Para além da retórica ideológica ou de justificativas humanitárias, há um elemento estrutural impossível de ignorar: o petróleo. A Venezuela abriga uma das maiores reservas comprovadas do mundo e ocupa posição estratégica no tabuleiro energético global. Em um contexto de disputa geopolítica, transição energética incerta e tentativa de reindustrialização das economias centrais, energia volta a ser poder — e o petróleo, alavanca decisiva.
Nada disso é novidade histórica. Ao longo dos séculos, relações comerciais frequentemente foram impostas pela força: canhões abriram mercados, bloqueios destruíram economias e a violência precedeu o contrato. Com o tempo, a coerção se sofisticou. Passou a operar por meio de tratados, instituições multilaterais e discursos técnicos que prometiam ganhos mútuos, eficiência e neutralidade econômica.
O neoliberalismo cumpriu exatamente esse papel. Difundiu a ideia de que o livre comércio, guiado pelas vantagens comparativas, produziria benefícios universais. Na prática, países tecnologicamente mais avançados capturaram a maior parte dos ganhos, enquanto economias periféricas enfrentaram desindustrialização, perda de empregos qualificados e fragilização de setores estratégicos. O resultado não foi convergência, mas hierarquia.
O trumpismo representa uma inflexão decisiva: o abandono da sutileza. O chamado “mercantilismo trumpista” substitui a diplomacia econômica pela coerção explícita. Tarifas elevadas, sanções abertas, ameaças públicas e pressão direta sobre cadeias estratégicas passam a ser adotadas sem disfarce. Quando isso não basta, o recurso à força deixa de ser tabu e volta a integrar o repertório político.
A tentativa de reindustrializar os Estados Unidos está diretamente ligada a essa lógica. Reindustrializar exige energia abundante e barata, cadeias seguras de insumos e controle sobre recursos estratégicos. Nesse contexto, o petróleo venezuelano deixa de ser apenas um ativo econômico e passa a ser peça geopolítica central. O discurso nacionalista-industrial de Trump não se sustenta sem ofensiva externa sobre territórios ricos em recursos naturais.
Esse comportamento recoloca um debate antigo. Adam Smith e David Ricardo defenderam as virtudes do livre comércio; Friedrich List advertiu que países que chegaram primeiro usam o livre comércio como instrumento de dominação. Os modelos clássicos ignoram assimetrias produtivas, efeitos dinâmicos e o papel do Estado na construção da capacidade industrial. List mostrou que a proteção seletiva e temporária pode ser condição para desenvolver tecnologia, mão de obra qualificada e soberania econômica.
Nesse sentido, a intuição de Trump não é completamente absurda — o problema é o método. Reindustrialização não se faz apenas com tarifas, muito menos com coerção militar. Exige política industrial coordenada, investimento público, inovação tecnológica e planejamento de longo prazo. Tarifas sem estratégia são força bruta; força bruta sem projeto é apenas dominação.
A história econômica mostra que hegemonias não declinam em silêncio. Crises financeiras recorrentes, especulação, guerras comerciais e intervenções externas cada vez mais agressivas costumam marcar esses períodos. Quando a liderança econômica é ameaçada, o discurso liberal rapidamente cede lugar ao realismo cru do poder.
Para países como o Brasil, a lição é direta e desconfortável: não existe globalização neutra, nem comércio despolitizado. A crença de que o livre comércio, por si só, gera desenvolvimento ignora a dimensão do poder, dos recursos estratégicos e da política industrial. Sem projeto nacional, coordenação produtiva e soberania energética, resta apenas reagir às decisões tomadas no centro — ou aceitá-las.
O trumpismo não é um desvio ocasional. É um sintoma de um sistema que, ao sentir sua hegemonia ameaçada, abandona a retórica e revela aquilo que sempre esteve por trás dela: poder, recursos e força.
Henrique Morrone é economista, professor associado da UFRGS e pesquisador do CNPQ.
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Fábio de Oliveira Ribeiro
4 de janeiro de 2026 9:58 amO ladrão Donald Trump invadiu a Venezuela como se o petróleo daquele país fizesse uma espécie de pedaço americano do butim da guerra mundial evitada supostamente acordado com europeus, chineses e russos. Bem… só faltou ele combinar tudo no Acordo de Paz Mundial formal com europeus, chineses e russos e com os venezuelanos também.