21 de maio de 2026

Império ataca a Venezuela, mas alvo é o mundo, por Gilberto Maringoni

Se olharmos para a operação em si, a pergunta é: por que a Venezuela não reagiu militarmente à agressão? Por que o atacante nada sofreu?
Imagem gerada por IA

EUA realizaram ataque fulminante à Venezuela visando sequestrar Maduro, sem justificativa convincente, alerta Trump.
Ataques ocorreram no forte Tiúna, base militar em Caracas com 20 mil soldados, sem reação militar venezuelana.
Objetivo inclui controlar petróleo e conter influência chinesa na América Latina, segundo análise de Gilberto Maringoni.

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Império ataca a Venezuela, mas alvo é o mundo

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por Gilberto Maringoni

1- O ATAQUE IMPERIAL dos Estados Unidos à Venezuela e o sequestro de seu presidente, Nicolás Maduro, foi realizado de forma brutal, fulminante e eficiente, sem que nenhum argumento convincente o sustentasse. A ação pode estar abrindo nova fase histórica das relações interestatais. A afirmação de Donald Trump, em seu discurso na tarde de 3 de janeiro, confirma a hipótese: “Esta operação (…) deve servir de alerta para todos aqueles que ameaçam a soberania americana ou colocam em risco a vida dos americanos”.

2- OS ACONTECIMENTOS ESTÃO QUENTES e qualquer análise embute falhas pelos inúmeros vazios nas narrativas disponíveis, bem como pelas ainda incertas reações de aliados e adversários dos EUA na cena global. Assim, este texto representa um exame preliminar da nova situação.

3- SE OLHARMOS PARA A OPERAÇÃO em si, a grande pergunta é: por que a Venezuela não reagiu militarmente à agressão? Por que o atacante nada sofreu? Trump argumenta que “Muitos helicópteros, muitos aviões e muitas pessoas participaram dessa batalha. No entanto, nenhum equipamento militar foi perdido. E o mais importante: nenhum soldado morreu”. É espantoso!

4- DOS CINCO ATAQUES realizados em território venezuelano, o principal foi desfechado no forte Tiúna, onde estava o presidente Maduro. Não se deu em área desguarnecida. Para que se tenha uma ideia, o forte é uma verdadeira cidade dentro de Caracas. Situado em seu setor sudoeste, lá estão abrigados quase 20 mil militares, a Academia Militar, divisões blindadas, heliporto, base aérea, clube, moradias, refeitórios, academias de ginástica, campos de treinamento e inúmeros outros equipamentos. É uma espécie de símbolo do poderio do Exército Venezuelano.

5- NÃO SE SABE o número de helicópteros que pousou na guarnição militar. Foram vistos dois modelos em voos baixos na capital. O primeiro é a aeronave naval MH-60 Seahawk, multifunção, com capacidade para quatro tripulantes e 11 passageiros. O segundo é o CH-47 Chinook, com capacidade para transportar até 55 soldados, além de três tripulantes. Uma jamanta voadora. De acordo com o general Dan Caine, que discursou logo após Trump na coletiva de Mar-a-lago , uma das aeronaves foi atingida durante a aproximação, sem perder as condições de voo. Por mais poderosos que sejam, helicópteros são equipamentos significativamente mais lentos e vulneráveis que caças supersônicos. Como pousaram e decolaram quase incólumes?

6- O GENERAL DAN CAINE revelou ainda que “nossas equipes de inteligência [trabalharam meses] para localizar Maduro e entender como ele se movimentava, onde morava, para onde viajava, o que comia, o que vestia, quais eram seus animais de estimação”. Ou seja, um dos líderes políticos mais visados do mundo tinha um esquema de segurança pessoal permeável a infiltrações.

7- A FALTA DE RESISTÊNCIA de forças teoricamente mais bem preparadas e armadas do continente é a principal lacuna na operação de 3 de janeiro. O curioso é que o chefe da Casa Branca, em seu já citado discurso, mistura sem o menor critério, fatores de segurança externa e interna, lembrando de intervenções da Guarda Nacional no policiamento de cidades como Washington, Memphis, Chicago, Los Angeles e Nova Orleans. Trump planeja realizar mudanças nos aparatos de repressão em toda linha.

8- NO ÂMBITO POLÍTICO, qual o real objetivo de Trump? Sua primeira alegação é que se trata de um combate ao “narcoterrorismo”, neologismo imperial que eleva cartéis de drogas e seus operadores ao patamar de inimigos a serem abatidos in limine. No entanto, os alvos detectados pelo seu poderio bélico foram pouco mais de meia centena de embarcações de pequeno porte, cerca de 120 pessoas assassinadas e zero de comprovação de ligação com o tráfico.

9- PERCEBENDO A FRAGILIDADE do pretexto, logo Donald Trump saca do colete a formulação do “roubo do petróleo”. O argumento, repetido na coletiva, é risível: “Nós construímos a indústria petrolífera venezuelana com talento, esforço e habilidade americanos, mas o regime socialista a roubou. Este foi um dos maiores roubos de propriedade americana da história do nosso país”.

10- VAMOS À HISTÓRIA. A exploração do petróleo venezuelano tem início na década de 1920, em poços localizados no lago Maracaibo, pela holandesa Royal Dutch Shell. Nas décadas seguintes, empresas estadunidenses, como a Exxon, a Mobil e a Texaco passam a explorar as reservas do país, até janeiro de 1976. A partir daí, o governo Carlos Andrez Pérez nacionalizou o negócio e criou a estatal Petróleos de Venezuela S. A. (PDVSA). Ressalte-se: a nacionalização não foi realizada por um governo bolivariano, mas por uma gestão aliada da Casa Branca. Mais uma vez, o argumento do presidente dos EUA não passa de grossa mentira.

11- “PRESO POR TER CÃO E PRESO POR NÃO TER CÃO” é uma expressão do Brasil colonial, repetida pelo barbeiro Porfírio, personagem de O Alienista, de Machado de Assis, em suas desventuras com a justiça. Podemos trazê-la para a atualidade. Se o caso não é de narcoterrorismo, se não é de roubo do que quer que seja, então Nicolás Maduro deve ser culpado por qualquer coisa que o Império lhe impute: “ditador ilegítimo” (como se existissem ditadores legítimos), “antiamericano”, “terrorista” etc. etc. Recordemos: em outubro de 1962, o motivo do presidente John Kennedy para ameaçar Cuba com um ataque nuclear era a instalação de mísseis soviéticos na Ilha (o que era real). Agora, em tempos do uso desbragado de conceitos como “pós-verdade”, “tenho convicções e não provas”, entre outros, a desculpa para atacar pode ser qualquer coisa, na visão do Império. De imediato, toda a soberania da América Latina está em risco.

12- AO FINAL DA II GUERRA MUNDIAL, os Estados Unidos emergiram como superpotência industrial, financeira, militar e cultural. Tornaram-se hegemônicos no plano global. O conceito de hegemonia política, a partir das formulações de Antonio Gramsci (1891-1937) envolve o uso da força (coação) e dos argumentos (convencimento). Nesse raciocínio, a potência hegemônica exerce liderança global não apenas por meio da força militar ou econômica. A hegemonia aqui também depende do consentimento da maior parte dos países (a chamada comunidade global). Para isso, é preciso ter capacidade de organizar regras e instituições capazes de reger e conduzir o sistema de Estados em uma direção desejada e fazer com que seus interesses particulares sejam percebidos como expressão do interesse coletivo. Hegemonia, assim, implica coerção, convencimento e liderança moral, ou seja, a capacidade de fazer ver ao conjunto do sistema interestatal que determinado país representa o interesse geral.

13- ENTRE 1945 E A CRISE DE 2008, Washington ergueu as bandeiras do combate ao comunismo, ao terrorismo, à defesa de democracia e da liberdade como valores universais para travar guerras, planejar golpes de Estado e invasões em países da periferia e legitimar sua posição hegemônica. Embora tais argumentos venham perdendo credibilidade há algumas décadas, com Donald Trump eles entram em nítido declínio. A batalha de tarifas, a oposição a aliados estratégicos na Europa, na América Latina e na Ásia e chantagens bélicas em várias situações vêm quebrando a autoridade moral do Império. É o caso das duvidosas acusações contra a Venezuela.

14- SEM CAPACIDADE DE CONVENCER ou de exercer liderança moral, o país hegemônico precisa se valer cada vez mais da coerção, da violência e do poder das armas para seguir proeminente. Essa situação é caracterizada por Giovanni Arrighi (1937-2009) como crise de hegemonia.

15- É BASTANTE PLAUSÍVEL a hipótese de que os ataques dos EUA à Venezuela e a diversos países não sejam uma demonstração de força, mas seu oposto: o uso da força torna-se essencial para evitar sua decadência global. Uma das demonstrações dessa situação é a redução paulatina do uso do dólar – expressão maior da hegemonia dos EUA – por diversos países e sua substituição por moedas locais em transações internacionais. Comentamos o fenômeno mais longamente em outro artigo.

16- O ATAQUE À VENEZUELA pode ter como objetivo, além da posse das maiores reservas de petróleo do mundo, a tentativa imperial de varrer a China, seu principal concorrente internacional, da América Latina. Como se sabe, Pequim tornou-se o principal parceiro comercial e forte investidor da maioria dos países do continente. A China é citada 21 vezes na Estratégia Nacional de Segurança, documento lançado em novembro último pela Casa Branca: “O presidente Trump, sozinho, reverteu mais de três décadas de suposições equivocadas dos Estados Unidos sobre a China. (…) A China enriqueceu e se tornou poderosa, e usou sua riqueza e poder em seu benefício considerável”, afirma o texto.

17- ESSE DOCUMENTO, em contraste, menciona a América Latina apenas duas vezes ao longo de suas 33 páginas. No entanto, define o “Ocidente” como lócus de ação essencial da política externa dos Estados Unidos e recupera um dos piores dísticos imperiais da Doutrina Monroe (1823): “América para os americanos”. Curiosamente, o raio de ação da “potência global” parece deixar de ser o globo e passa a ser a região tida como seu quintal.

18- EXISTE A SUPOSIÇÃO de que Donald Trump esteja pactuando uma nova divisão do mundo em áreas de influência, a exemplo da divisão do mundo entre EUA e URSS, entre 1945-1995. Assim as três potências com maior peso internacional marcariam a ferro e fogo seu entorno estratégico. A Venezuela (e a América Latina) seriam apêndices de Washington, a Ucrânia estaria na conta da Rússia e Taiwan seria problema da China. Essa última partição não é nada simples, pois Taiwan é líder mundial na produção de chips e mercadorias de alta tecnologia, algo que a coloca também na órbita de interesses dos EUA.

19- TRATA-SE DE HIPÓTESE ainda a ser confirmada. A partição do mundo implicaria uma espécie de congelamento de pretensões dos três países. É possível que para Washington seja algo viável. Mas para a China, em nítido processo de expansão internacional, com negócios em todos os continentes, um acordo de engessamento de metas não seja nada atraente.

20- DONALD TRUMP TEM SE CARACTERIZADO não apenas por buscar manter a hegemonia do Império a qualquer custo – mesmo! -, como em implodir qualquer resquício de Direito internacional. A ação de organizações como ONU, OMC, Corte Internacional de Direitos Humanos, OMC e outras atrapalham suas ambições de agir livremente e determinar regras arbitrárias em cada disputa na qual se coloca. É por esse motivo que sua brutal ação na Venezuela pode ter como objetivo algo muito maior e mais perigoso do que se apossar do petróleo: o de criar um clima de barbárie hobbesiana para reverter urgentemente a decadência da ex-“maior democracia do mundo”.

Gilberto Maringoni de Oliveira é um jornalista, cartunista e professor universitário brasileiro. É professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, tendo lecionado também na Faculdade Cásper Líbero e na Universidade Federal de São Paulo.

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Gilberto Maringoni de Oliveira é um jornalista, cartunista e professor universitário brasileiro. É professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, tendo lecionado também na Faculdade Cásper Líbero e na Universidade Federal de São Paulo.

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