4 de junho de 2026

Sangrando por letras para não sangrar na vida real

Parece que estou num eterno pender entre deter o controle e ceder para a queda livre de um abismo. No fim dele, lanças e pedras afiadas aguardam meu espatifar. Estão prontas para perfurar meus membros, pintadas com tinta fresca, com o sangue de outros que não suportaram a mesma pressão e… caíram. Parte da culpa desse meu desequilíbrio eu jogo em bestas bípedes fantasiadas de pessoas que acham poder me calar ou me subjugar lançando ameaças a mim.

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Você já recebeu um convite de um estranho para um desafio sangrento? Algo que nunca se recebe um dia após o outro e sempre te pega de surpresa. Entenda desafio sangrento como um embate físico entre você e um adversário envolvendo socos e facadas. Andando pela rua, se divertindo numa festa, voltando para casa, navegando pela internet; os lugares onde se pode receber o convite são variados assim como os personagens que o mandam.

Veja: os tempos em que se resolvia tudo fazendo uso de brutalidade se foram. A Lei do Talião, severa e impiedosa, já foi condizente com uma civilização – porém não é mais. Outras leis tomaram o lugar daquela, leis mais compreensivas que acompanharam a evolução do ser humano como ser racional. Hoje, quem transgride e age como um primata acaba enjaulado. Vira um renegado recluso. A lei, no passado ou no presente, é clara. Mas energúmenos embrutecidos dispostos a serem cegos perante leis e regras sempre existirão, independente da época. Essa mensagem é endereçada a esse tipo.

Até quando minha humanidade será testada em seu limite para domar esses animais enraivecidos? Diálogo? Diplomacia? Compreensão? Tais abordagens são muitas vezes inúteis para conter esses indivíduos – e quando os chamo de indivíduos estou elogiando-os. Cara da saída da festa, me dirijo a você. Namorado da minha (não mais) amiga, seu verme acéfalo, estou falando com você. Segurança prepotente de balada, vale para você também. O dia em que um imbecil aceitar seu desafio por um motivo pífio, vocês no final vão desejar que tivesse havido uma pessoa de cabeça pensante por perto que fosse capaz de amainar a situação. Isso se vocês ainda não acabaram surrados, de ficha suja ou mortos. Quem faz uso da violência terá uma morte violenta.

Sempre que sabiamente nego um convite do gênero estou fazendo um favor tanto para mim quanto para o desafiante desgraçado. Por vezes quase sou seduzido pelo convite, quase me deixo contagiar pela turbulência do momento, quase mergulho minha mão numa poça de sangue. Nessas horas preciso expurgar a influência dele sobre mim para só depois reagir racionalmente. E ser fraco não tem nada que ver com recusar esses convites; tem que ver com ser temente e obediente às leis que regem a sociedade, com amar meus parentes, a mim mesmo e a uma pessoa com quem um dia planejo me reatar – pessoas e relacionamentos que alimentam minha razão, me fazem pensar com clareza, me dão lucidez numa terra de ébrios. 

Treino meu corpo por conta própria. Reuni conhecimentos bastantes para poder treinar sozinho, gosto de me proclamar um Ronin. É legal ter músculos tinindo em meio a tantos sedentários flácidos, mas não é por isso que sairei por aí gastando meu treinamento em brigas. Street Fighter é um jogo cuja ideia é emocionante – só no videogame. Olho roxo, rosto deformado, dentes quebrados, ossos fraturados – e estou citando só as consequências físicas. Eu treino e me preparo para o dia em que terei mais nada a fazer senão lutar. O dia no qual eu for encurralado e a circunstância-final for o duelo pela minha vida (ou pelas de outros), aí sim eu invocarei tudo o que possuo para colocar meu inimigo de bruços. Me transformarei num animal com o específico objetivo de assassinar o animal que ameaça a mim, nem que isso resulte no sacrifício de um olho, de um braço, ou perna minha; é assim que funciona a lei da selva.

Todos temos um lado-monstro, mas não é esta face que deve permanecer no volante. Ela deve ser apenas um instrumento a ser convocado nessas horas delicadas citadas acima.

Isso não é apenas uma advertência para os briguentos; é também um incentivo às vítimas. Armem-se para poder se defender, e se não puderem se armar, unam-se contra o inimigo em comum. Armem-se porém optando primeiramente pela fuga da batalha. Armem-se porque correr por estar desarmado é vergonhoso. Armem-se pelo motivo certo tendo consciência de que outros estão se armando pelo errado. Quem baterá de frente quando um troglodita poderoso resolver praticar injustiças contra inocentes? Quem terá essa patente?

Evite confrontos, mesmo que isso signifique fingir que a parte oposta, a esquentada, tem razão. Por mais que aconteça tardiamente, essa mesma parte oposta vai ter de prestar contas às autoridades. Evite ter nexo com esse litígio, você não quer fazer parte dessa dor-de-cabeça.

Já me bastam as cicatrizes que eu mesmo inflijo no meu coração, por que iria querer mais cortes e arranhões no meu corpo?

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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