10 de junho de 2026

O ano velho, por Felipe Bueno

2026 é recém-nascido, mas tem um poder especial: despertar nas pessoas um estranho desejo de que passe o mais rápido possível
Arquitetura iraniana - Ariana Zilliacus - ArchDaily

2026 começa com o peso de décadas e desperta desejo de que passe rápido, sem deixar saudade.
Figuras e ideias do passado ressurgem, enquanto conflitos como o da Palestina perdem força e ganham novas analogias.
A “nova ordem mundial” de paz cede lugar a um sistema marcado pela pós-verdade e interesses egoístas.

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O ano velho

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por Felipe Bueno

2026 mal começou e já tem meses, anos, décadas até. Inicia-se carregado de bagagens pesadas das quais não conseguiu se livrar antes. É recém-nascido, mas tem um poder especial: despertar nas pessoas, desde as primeiras horas, um estranho desejo de que passe o mais rápido possível, aparentemente incapaz de deixar saudade.

Não se trata do único poder especial: é capaz também de acordar fantasmas adormecidos e, ao mesmo tempo, fazer com que os espíritos de tempos anteriores venham buscar pessoas e instituições que, talvez, estejam cumprindo hora extra neste mundo.

As páginas de Maquiavel, Morgenthau e Fukuyama aparecem diante de nós, viradas por personagens de tempos idos como Bush, Blair, Powell, Cheney, Rumsfeld e Reagan, sem que tenhamos solicitado suas contribuições. De repente, a comoção internacional em defesa dos palestinos e contra o atual governo de Israel, por exemplo, se transforma em uma lembrança remota, de um tempo em que havia esperança de que manifestações populares fossem uma maneira de marcar posição e iniciar uma luta por um ideal. A Groenlândia passa a ser a nova Faixa de Gaza, ainda que distante por uma questão de temperatura local e renda per capita.

Avisados fomos da escolha que, por um tempo, foi colocada diante de nós: cuidar dos nossos ou de todos? Formalmente as opções ainda estão na mesa, mas cada vez mais cobertas de pó, mofo e ferrugem. Em pouco tempo, para nada mais servirão.

Avisados fomos também de que a “nova ordem mundial” de paz e prosperidade depois de 1989  estava desaparecendo, vítima de outra, insidiosa, entrópica e prepotente, fundamentada na pós-verdade e no império de poucos eus, pessoas físicas e jurídicas para quem a figura do outro pode até existir, mas não tem a menor relevância, a não ser que se disponha a pouco mais que olhar, de baixo para cima, admirar e concordar, de preferência fazendo negócios desvantajosos para si.

O mundo novo está batendo à sua porta. Ou será o mesmo velho de sempre que resolveu nos enganar?

Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

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