10 de junho de 2026

O Ano do Colapso que nunca termina, por Márcio S. de Castro

O documentário 1975: o Ano do Colapso nos traz de volta filmes considerados clássicos do cinema hollywoodiano.
Divulgação

O documentário “1975: Breakdown” usa filmes da época para refletir sobre a crise social e política dos EUA pós-anos 1960.
O filme destaca o desencanto com o governo após Vietnã e Watergate, e a ascensão da reação conservadora liderada por Reagan.
Personagens de filmes como “Taxi Driver” simbolizam a alienação social, enquanto o Oscar de 1977 reforça o mito do esforço individual.

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O Ano do Colapso que nunca termina

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por Márcio Sampaio de Castro

“Vivemos um pós-tudo e um pré-nada”. Repetida inúmeras vezes, esta frase marca de maneira emblemática o espírito do documentário 1975: Breakdown ou O Ano do Colapso, em português. Mas antes de dizermos do que trata o filme de Morgan Neville, recentemente lançado na plataforma de streaming Netflix, é preciso dizer o que ele não é.

O ano escolhido por Neville para intitular sua obra é parcialmente arbitrário. E aqui reside um dos grandes méritos do documentário. Ao contrário do que alguns críticos se adiantaram em reclamar, o documentário não é, stricto sensu, sobre cinema. Seu roteiro e texto visual dialogam consciente ou inconscientemente com os escritos do filósofo e crítico cultural britânico Mark Fisher e suas reflexões a respeito do que ele chama de Realismo Capitalista[i], a denominação que este deu para o desastre neoliberal. O trabalho de Neville nos traz elementos para pensarmos muito mais alguns aspectos culturais, sociais e políticos dos EUA de hoje do que necessariamente do país de 50 anos atrás.

O publicista Tom Engelhardt em seu livro “O Fim da Cultura Vitoriosa” [ii]já nos adiantava que os anos 1960 marcaram o fim da inocência e de uma crença maniqueísta da organização do mundo a partir da perspectiva do norte-americano médio. Engelhardt nos lembra que enquanto figuras como John Wayne andavam pelas telas a eliminar indígenas e facínoras, o mundo fazia sentido. Afinal, a America era a terra dos bravos e defensores da justiça e da liberdade. Mas essa visão binária do mundo havia sido ferida de morte ao longo da década anterior iniciada com o assassinato de JFK e incendiada com a luta pelos direitos civis, o movimento de contracultura e, sobretudo, com o atoleiro imoral do Vietnã, evento que sozinho anunciava aos quatro ventos a nudez real. Havia no ar uma sinalização de impureza no paraíso, um pecado original até então solenemente ignorado.

No documentário de Neville, o ano de 1975 é uma espécie de epicentro para onde convergem os reflexos da década anterior, que encontrara seu réquiem no Watergate, e onde também germinam elementos que desenharão os EUA e o mundo pelas cinco décadas a seguintes.

Logo nos primeiros minutos do filme, vemos o diretor Oliver Stone sacar do bolso uma folha de papel amarrotada e listar alguns filmes que para ele marcaram aquele período: Rede de Intrigas, Taxi Driver, Um Estranho no Ninho e Todos os Homens do Presidente aparecem na lista de Stone.  Eles compõem uma leva de trabalhos importantes através dos quais seus diretores buscavam desglamourizar a America. Era preciso escancarar a perversão presente naquela atmosfera e Neville aponta o ator Jack Nicholson como um símbolo e um líder daquele movimento cultural.

Em Um Estranho no Ninho seu personagem, Randle McMurphy, é um criminoso reincidente e dissimulado que se faz passar por louco para escapar do sistema penitenciário tradicional, sendo encaminhado para uma unidade psiquiátrica. Em sua estrutura narrativa a história não apresenta heróis ou vilões e o protagonista morre ao final. Nicholson já havia ganhado notoriedade em um filme anterior (Chinatown) com sua personagem, o detetive J.J Gittes. Na trama, estavam presentes corrupção, assassinato, incesto e outro desfecho amargo para as personagens. Como ele mesmo declararia, havia de sua parte uma predileção por esses roteiros e personagens disruptivos.

É interessante notar que os desmandos do poder político e econômico começavam a ser apresentados e discutidos com uma intensidade nunca antes vista na sociedade estadunidense e é nesse clima que o filme Todos os Homens do Presidente ganhará notoriedade. As ações escusas da administração Nixon e o triunfo de um jornalismo investigativo (e defensor dos valores democráticos) que levaria à renúncia do presidente são contrapostos por Neville com o resgate do pronunciamento de Gerald Ford, concedendo o perdão presidencial ao seu antecessor. “O otimismo pós-Watergate converteu-se em cinismo e Hollywood passou a refletir essa mudança”, lembra o professor e crítico cultural Todd Boyd.

Em meio a esses diversos sinais trocados, o cidadão comum sucumbe completamente desorientado. Ao som de Psycho Killer, dos Talking Heads, somos reapresentados a Travis Bickle (Robert De Niro), o protagonista de Taxi Driver. Fazendo uma alusão indireta à obra do escritor russo Fiódor Dostoievsky, o diretor Martim Scorcese sintetiza: “É um homem que emerge do subterrâneo. Em uma das cidades mais populosas do mundo, ele está desconectado de todos. Ele explode”. Bickle é o homem da massa, raivoso, desorientado e desacreditado de si mesmo e do Estado.

Neville usará um truque de edição já conhecido, mas com efeitos muito interessantes para sua proposta. Os personagens dos diversos filmes de alguma maneira interagem com o texto em off narrado por Jodie Foster, mas também entre si, como na cena em que Bickle assiste pela TV às falas desvairadas do apresentador Howard Beale de Rede de Intrigas. É uma sociedade à beira de um surto psicótico.

O jornalista Seymour Hersh e sua denúncia sobre o Massacre de My Lai, a terrível chacina de camponeses vietnamitas em uma vila homônima, e os Pentagon Papers (Papéis do Petágono), detalhando a orquestração por parte da CIA e outros aparatos de inteligência para incentivar aquele conflito, publicados pela grande imprensa no início dos anos 1970 também contribuíram para o desencanto e desconfiança em relação ao Estado.

O documentário resgata aqui algumas sequências do filme estrelado por Robert Redford, Três Dias do Condor, que trazia de maneira inédita a representação da corrosão no interior da agência de inteligência mais famosa do mundo. Mas destaca principalmente uma fala do então senador Frank Church na comissão do Senado criada para investigar abusos desses braços da burocracia estatal:

“Se esse governo algum dia se tornar uma tirania, se um ditador algum dia assumir o poder, a capacidade tecnológica fornecida pelos serviços de segurança a esse governo poderão também lhe dar condições para impor uma total tirania e não haveria maneira de enfrentá-lo”. Uma fala que ajustada aos dias que correm provoca verdadeiros calafrios em qualquer pessoa de bom senso.

O contragolpe reacionário

Contrapondo as imagens de um presidente republicano Gerald Ford suando e assustado por ter sofrido duas tentativas de assassinato em uma semana, Neville resgata uma entrevista de Ronald Reagan a um programa de TV. Naquele ano de 1975, o então ex-governador da Califórnia e futuro paladino do neoliberalismo mais radical lançava sua pré-candidatura à presidência. Em total contraste com seu companheiro de partido, demonstrava auto-confiança e a segurança de que seria o homem certo para resgatar “o sonho americano”. Lembremos que o slogan Let’s Make America Great Again empregado na campanha seguinte, quatro anos depois, pertenceu originalmente a Reagan.

Ainda que o documentário ilumine a força das lutas feministas no período, a mobilização negra no campo da dramaturgia e até a nascente preocupação com o avanço da tecnologia computacional sobre a vida dos indivíduos, em sua perna final mergulhará seu foco na reação conservadora. O esquecido Fernão Capelo Gaivota, best-seller literário transposto para as telas, reaparece aqui para enfatizar sua mensagem principal, que inspirou milhões de pessoas mundo afora: “Você tem a liberdade de ser você mesmo, você de verdade, aqui e agora, e nada pode impedir o seu caminho”.

O Tubarão, de Steven Spielberg, também merece destaque. Seu poder semiótico é considerável. Diante da besta-fera que se esconde sob as águas da incerteza e devora os desavisados, o engenho e empenho de um indivíduo determinado são capazes de por fim às suas maldades e devolver a paz às pessoas de bem. 

Neville também justapõe as falas de Rennie Davis. Em 1968, uma importante liderança do movimento anti-guerra nos EUA que, em entrevista para a TV, conclamava para a unidade contra o governo e sua responsabilização pelo desastroso envolvimento no Vietnã. Em 1975, o mesmo Davis aparece diante das câmeras se apresentando como investidor e declarando que a verdadeira busca pela paz não está no mundo exterior e sim no mundo interior de cada indivíduo. “Sem paz interior, não haverá paz no mundo”, conclui o investidor.

Como dissemos no começo deste texto, a escolha de Morgan Neville pelo ano de 1975 é parcialmente arbitrária, diríamos simbólica, já que os fatos e o material compilado não se restringem exclusivamente àquele ano. É muito didática a escolha pela abordagem da premiação do Oscar ocorrida dois anos depois. Na premiação de melhor filme daquela edição concorriam Rede de Intrigas, Taxi Driver e Todos os Homens do Presidente. E o Oscar foi para… Rocky, um Lutador. O homem branco das classes operárias que com muito esforço, dedicação e sem ajuda de ninguém subiu ao ringue para esmurrar o negro falastrão Apollo Creed e provou que com suor e com os punhos é possível vencer na vida.

“Vivemos o sonho americano ou o pesadelo americano?”, pergunta a voz de Jodie Foster. Certamente as respostas estão muito mais no presente do que no passado e Morgan Neville acerta ao fazer suas escolhas de forma sofisticada, ainda que isso cause incômodo aos críticos de cinema mais ortodoxos.


[i] Fisher, M. (2024). Realismo Capitalista. É Mais Fácil o Fim do Mundo do que o Fim do Capitalismo? São Paulo: Autonomia Literária.

[ii] Engelhardt, T. (1995). The End of Victory Culture: Cold War America and the Disillusioning of a Generation . New York: Basic Books.

Márcio Sampaio de Castro é mestre em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. É professor assistente nos cursos de Relações Internacionais e Propaganda e Marketing das Faculdades de Campinas (FACAMP), onde coordena o Grupo de Análise e Pesquisa sobre a China (GAP – China).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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