10 de junho de 2026

No acordo Mercosul–UE, o desafio não é ganhar ou perder, mas equilibrar

Para a economista Lia Valls, ganhos comerciais só se sustentam com estratégia de desenvolvimento
Foto: Câmara de Comércio Exterior

Ao analisar o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, a economista Lia Valls, chefe do Departamento de Análise Econômica da UERJ e pesquisadora associada do FGV/Ibre, alerta para uma leitura simplificadora que costuma dominar o debate público, centrada na ideia de ganhadores e perdedores.

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“O comércio internacional não é neutro. Sempre há quem ganha e quem perde. O problema não é esse, mas como o país enfrenta as perdas”, afirmou durante o programa TV GGN 20 Horas [confira abaixo].

Em linhas gerais, o acordo tende a favorecer setores mais competitivos da economia brasileira, especialmente o agronegócio, enquanto pode impor desafios adicionais a segmentos da indústria nacional.

Para Lia, isso não significa que o acordo seja, por definição, negativo. “Acordo nenhum resolve o problema de um país. Ele cria um cenário. O que vai definir o resultado são as políticas públicas, os investimentos e as escolhas internas”, disse.

A professora também destacou que o acordo não representa uma abertura abrupta da economia. Os prazos de redução tarifária são longos e, em alguns setores sensíveis, como o automotivo, podem chegar a até 30 anos.

A economista lembrou que a indústria brasileira já opera, na prática, com tarifas de importação mais baixas do que as oficiais, graças a instrumentos como o regime de ex-tarifário, que permite a redução ou isenção do imposto de importação de máquinas e equipamentos quando não há similar nacional.

Isso mostra, segundo Lia, que o acordo Mercosul–UE não representa uma ruptura abrupta. “A indústria brasileira tem problemas próprios de competitividade. Não é um acordo comercial que vai destruí-la”, afirmou.

Durante o programa, o jornalista Luis Nassif contextualizou o debate ao apontar que a retomada do acordo ocorre em um momento de fragilidade econômica da União Europeia, marcada por baixo crescimento, crise industrial e perda de competitividade frente aos Estados Unidos e à China.

Nesse cenário, o Mercosul passa a ser visto como alternativa estratégica para garantir acesso a alimentos, energia e matérias-primas, além de ampliar mercados para produtos industrializados europeus.

A comparação com o NAFTA — acordo firmado entre México, Estados Unidos e Canadá nos anos 1990 — também foi debatida. Lia questionou leituras automáticas que tratam o acordo como exemplo inequívoco de sucesso ou fracasso, e ressaltou que o caso mexicano mostra justamente os limites dos acordos comerciais.“Houve aumento de renda em um primeiro momento, mas a distribuição desses ganhos não veio do comércio. Isso é responsabilidade do próprio país”, afirmou.

Segundo ela, o NAFTA coincidiu com crescimento da economia norte-americana e desvalorização do peso mexicano, e também resultou em concentração regional da indústria e aumento da desigualdade.

Outro ponto central destacado pela professora é que o acordo envolve, na prática, dois instrumentos distintos. Um é estritamente comercial, voltado à redução de tarifas e de mais fácil aprovação.

O outro é um acordo regulatório mais amplo, que inclui, por exemplo, compromissos nas áreas ambiental, trabalhista e de desenvolvimento sustentável, e depende da ratificação dos parlamentos nacionais europeus. “Esse segundo acordo cria um ambiente institucional que pode tanto facilitar o diálogo quanto gerar tensões, especialmente se for usado de forma assimétrica”, avaliou.

Para Lia Valls, o desafio central do acordo é equilibrar os ganhos do setor agroexportador com uma política industrial ativa, capaz de preservar empregos, estimular investimentos e evitar a desestruturação produtiva. “Não é uma discussão sobre ser a favor ou contra o comércio, mas sobre qual modelo de desenvolvimento o país quer construir”, concluiu.

Assista à entrevista completa aqui.

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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