Banco Master, um episódio inédito?
por Luiz Gonzaga Belluzzo
Luís Nassif está avaliando rigorosamente as peripécias do Banco Master. Ocorreu-me sugerir a publicação no GGN de um artigo que cuida, de forma sucinta, da história das crises financeiras.
As crises financeiras do capitalismo, desde a sua versão mercantil dos séculos XVII e XVIII até os terremotos do Terceiro Milênio, sempre envolveram o crédito fácil , alavancagem e a explosão de preços de um ativo – “real” ou financeiro – escolhido como sedutor dos cobiçosos e servidores do enriquecimento ilimitado. A palavra “real” está entre aspas porque na economia monetária financeira capitalista as fábricas e outros ativos “reais” são avaliados em termos monetários.
O filósofo-especulador George Soros, em recente depoimento ao Congresso americano, desautorizou as teorias que tratam de analisar os mercados financeiros a partir dos pressupostos da “eficiência”, ou seja, do comportamento racional dos investidores que avaliam a formação de preços dos ativos a partir dos “fundamentos”. Soros sustenta que “percepções equivocadas podem levar à formação de bolhas… e tais movimentos reforçam as tendências prevalecentes até o momento em que a distância entre a realidade e a percepção da realidade pelo mercado se torna insustentável”.
No livro Manias, Panics and Crashes o economista Charles Kindleberger faz uma autópsia dos processos maníacos que, inevitavelmente, terminam no colapso de preços e nas crises de crédito. Assim foi em Amsterdã, no episódio da Tulipomania, um antepassado modesto dos grandes crashes dos séculos XX e XXI. Entre 1634 e 1637, os investidores holandeses, muitos de classe média, especularam furiosamente com a possibilidade de negociar bulbos de tulipa a preços cada vez mais elevados, que, ademais, exigiam muito pouco ou nada para a sua reprodução. Na base das expectativas exacerbadas a respeito da evolução do preço das tulipas estava o Banco de Amsterdã e sua capacidade de estender o crédito e suportar o avanço da especulação.
Na história das finanças é comum a imagem de investidores inconformados com os resultados da própria cupidez. Desde a Tulipomania de 1634, passando pelas crises cada vez mais frequentes do século XVIII (como a Bolha dos Mares do Sul, em 1720), e chegando aos desastres financeiros do século XX, o que mais impressiona o observador é a semelhança entre episódios tão diferentes.
Primeiro é a fantasia do enriquecimento rápido, sem causa, milagroso, fruto de alguma esperteza inata ou habilidade singular; segundo, a formação de um consenso sobre o ineditismo das circunstâncias que parecem justificar a valorização rápida dos papéis (sempre há uma “nova economia”); terceiro, o envolvimento dos bancos na especulação, fornecendo crédito abundante para alimentar a euforia: quarto, o avanço do endividamento dos investidores, disfarçado pelos valores cada vez mais inflados da riqueza financeira ou imobiliária: quinto, a “correção de preços”, decepção e quebradeira.
A evolução do sistema de crédito chegou ao ápice depois da Revolução Industrial. A expansão dos mercados, desde o século XI até o fim do século XVIII, foi acompanhada de importantes transformações nos sistemas monetários e na operação do sistema de crédito. Com o renascimento do comércio, a longa distância e a recentralização do poder político, as relações de débito e crédito ressurgiram nas feiras medievais. Eram administradas pelos grandes comerciantes encarregados de promover a liquidação, entre uma feira e outra, do saldo das operações mercantis e estabelecer as taxas de câmbio entre as diversas moedas que denominavam as transações.
Entre o fim do século XIX e os primórdios do século XX, ocorreram importantes transformações na forma de existência do capitalismo, enquanto modo de produção de riqueza e sistema de relações internacionais. São elas:
1. A consolidação das práticas de financiamento e de pagamentos internacionais, sob a égide de um padrão monetário universal.
2. A metamorfose do sistema de crédito – expressa no aparecimento dos bancos de depósito que ajustam suas funções e formas de operação à nova economia comandada pela indústria.
3. A emergência de uma nova divisão social do trabalho, consubstanciada na crescente separação técnica e econômica entre o departamento de meios de consumo e o departamento de meios de produção.
4. A internacionalização capitalista sob a hegemonia inglesa produz a industrialização dos EUA e da Europa e, simultaneamente, a periferia produtora de matérias-primas e alimentos.
Luiz Gonzaga Belluzzo é professor titular do Instituto de Economia (IE) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (1985-1987) e de Ciência e Tecnologia de São Paulo (1988-1990). Belluzzo é formado em Direito e Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP), pós-graduado em Desenvolvimento Econômico pela Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal) e doutor em economia pela Unicamp. Fundador da Facamp e conselheiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), é autor dos livros “Os Antecedentes da Tormenta”, “Ensaios sobre o Capitalismo no Século XX”, e coautor de “Depois da Queda, Luta Pela Sobrevivência da Moeda Nacional”, entre outros. Em 2001, foi incluído entre os 100 maiores economistas heterodoxos do século XX no Biographical Dictionary of Dissenting Economists. Em 2005, recebeu o Prêmio Intelectual do Ano (Prêmio Juca Pato).
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Jicxjo
16 de janeiro de 2026 9:28 amEstá sendo construída na mídia uma perigosa narrativa, visando naturalizar um eventual calote pelo FGC em milhões de pequenos investidores, rotulados como irresponsáveis ou gananciosos. Pera lá! A discussão tem que se dar em nível jurídico, contratual, não com base em uma régua moral picareta muito conveniente aos bancões mantenedores do fundo. Bancões que, aliás, economizam meio bilhão de reais em cada mês de atraso na necessidade de recompor o patrimônio do FGC.
Régua moral tem para todo gosto, e seria possível elencar aqui críticas contundentes à aplicação em qualquer ativo, até mesmo no Tesouro Direto das atuais taxas obscenas; afinal, quem trava taxas altíssimas em títulos públicos que vencerão em décadas está deixando de investir no setor produtivo e ao mesmo tempo se pendurando nas tetas do Erário (leia-se contribuinte), ou não? Logo, um bom moralista deveria unilateralmente deixar de investir nessas condições, claro. Não precisamos nem falar de ações, mercados futuros de commodities, derivativos, fundos imobiliários, criptoativos…
Bom era deixar os recursos na poupança e deixar outros lucrarem com o SEU dinheiro, ou investir nos produtos ridículos oferecidos pelos ilibados bancões, para eles manterem o monopólio das captações e dos empréstimos, não é mesmo? Claro que não, e isso desmascara a falácia de que esse tipo de questão deva ser tratado no âmbito de uma duvidosa e particularíssima moral individual: autocontenção, privação individual não surtirá qualquer efeito sobre as regras pelas quais o jogo acontece – e continuará acontecendo com todos os demais, você participe ou não. A luta eficaz é pela mudança das regras, para todos, mas enquanto tal não acontece, apenas o próprio indivíduo pode julgar o que serve ou não para si, sem aceitar perorações pseudomoralistas de terceiros.
Jicxjo
16 de janeiro de 2026 10:25 amUm último adendo: por critérios morais, todos os títulos do Palmeiras da era Leila Pereira, a madrasta dos aposentados e dos superendividados, deveriam ser repudiados e, quiçá, cassados. Ou não?
Crefisa ter sido autorizada a concorrer em leilões (com trocadilho, por favor) da folha do INSS é um escárnio, assim como a tolerância estatal a essas operações de empréstimo a juros de agiota (ou piores).
CDBs e LCs de 140% do CDI da Crefisa e de outras financeiras lastreados em escravidão financeira não deveriam ser proibidos? Ou, se elas oferecerem apenas 110% do CDI aos investidores, fica valendo, ainda que aufiram retornos de quase 3.000% do CDI? Afinal, os investidores não estariam agindo com cupidez, deixando esta apenas para os “profissionais” em lucrar com o dinheiro alheio.
Da mesma forma, claro, tudo isso poderia ser dito de clubes patrocinados por BETs, sites de prostituição, por gestoras picaretas como a Fictor, assim como quanto aos títulos financeiros eventualmente emitidos por tais entes. No limite, não seria a cupidez intrínseca ao sistema capitalista?
Logo, seria de fato esse critério pertinente a análises internas ao sistema, ou deveríamos simplesmente responder com um “macaco, olha o teu rabo!”? Critérios morais são individuais, jamais podem ser invocados como “lição” a terceiros, ou são hipocrisia. Justamente para resolver isso que toda sociedade criou seu Direito, esta sim a régua comum a ser observada, esta sim a esfera para um debate honesto.
(Qualquer semelhança com falácias como “esquerda caviar” não é mera coincidência. Não concordar com a sociedade podre em que vivemos não significa ter que viver em uma bolha fora do espaço e do tempo, ou, no limite, suicidar-se e deixar o mundo de presente para os gananciosos.
A defesa de privações individuais contra questões inegavelmente coletivas é outro contrabando liberal fajuto, que visa no fundo que nada mude. O verdadeiro teste de caráter é lutar pela mudança de regras que estão lhe beneficiando pessoalmente, não pela extinção de práticas e privilégios que só estão sendo usufruídos por terceiros. Afinal, quem não conhece casos de pessoas que eram ardorosos lutadores por justiça social, mas que mudaram de opinião depois de conhecer a riqueza?)