A Polícia Federal deflagrou na manhã desta sexta-feira (23) a Operação Barco de Papel, que mira o presidente e diretores do Rioprevidência, o fundo responsável pelas aposentadorias e pensões de 235 mil servidores estaduais do Rio de Janeiro. A investigação apura irregularidades em aportes que somam quase R$ 1 bilhão em ativos do Banco Master, instituição que sofreu intervenção do Banco Central em novembro passado.
Agentes federais cumprem quatro mandados de busca e apreensão expedidos pela 6ª Vara Federal Criminal. Entre os alvos estão o presidente da autarquia, Deivis Marcon Antunes, além do ex-diretor de investimentos Eucherio Lerner Rodrigues e do ex-gerente de investimentos Pedro Pinheiro Guerra Leal.
Na casa de Eucherio, foram apreendidos R$ 3.760 em espécie. Já na residência de Deivis, em Botafogo, os agentes precisaram pular o portão, mas o dirigente não foi localizado; ele viajou para os Estados Unidos no último dia 15.
Risco e fragilidade técnica
A PF investiga nove operações financeiras realizadas entre novembro de 2023 e julho de 2024. O montante de R$ 970 milhões foi aplicado em Letras Financeiras, um título que, diferentemente da poupança ou de CDBs, não possui a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
“O termo ‘barco de papel’ é uma metáfora para ativos financeiros que possuem alto risco de crédito, lastro frágil ou nenhuma garantia real em caso de calote”, explicou a PF em nota. “A analogia funciona porque, assim como um barco de papel, esse tipo de investimento é fácil de ser realizado e atrativo, porém, se desfaz rapidamente diante de condições adversas.”
Relatórios técnicos indicam que as aplicações foram feitas sem o devido crivo do comitê de investimentos. Depoimentos recentes de ex-membros do comitê revelam que os aportes se tornaram “automáticos” após uma aprovação inicial, sem a apresentação de laudos, planilhas ou estudos de viabilidade técnica.
Alerta ignorado do Tribunal de Contas
O cerco ao Rioprevidência se intensificou após alertas sucessivos do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ). Em maio, a corte já havia apontado “graves irregularidades“. Em um dos casos, o fundo estadual foi o único cotista de um fundo que rendeu apenas 4,05%, valor significativamente abaixo da poupança (5,47%) e do CDI (9,31%).
O conselheiro Jose Gomes Graciosa, ao defender a interrupção das transações em outubro, foi enfático: “Chega de decisões sem transparência, chega de colocar em risco a aposentadoria daqueles que colaboraram com a construção deste estado”.
Impacto e crimes investigados
A operação de hoje busca provas de crimes como gestão fraudulenta, desvio de recursos, corrupção passiva e associação criminosa. No auge da exposição, cerca de 25% de todo o patrimônio líquido do Rioprevidência estava vinculado ao grupo liderado por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que também é investigado por fraudes contra o sistema financeiro.
Em nota anterior aos mandados, o Rioprevidência afirmou que as operações visavam taxas mais atrativas e que buscava substituir os títulos por precatórios federais. A autarquia ainda não se manifestou oficialmente sobre as buscas desta manhã.
evandro
24 de janeiro de 2026 11:55 amQue tal relembrar o caso Postalis e como foram tratados os administradores.