5 de junho de 2026

Orelha e o silêncio da impunidade, por Dora Nassif

A ausência de punição produz repetição. Quando abandonar não gera sanção, o abandono se multiplica. E a violência se normaliza.

A impunidade estrutural no Brasil permite que violência e abandono se tornem rotina, afetando humanos e animais.
Animais abandonados nas ruas refletem a falta de responsabilidade social e a ausência de punição efetiva.
A naturalização da violência indica perda da indignação social e aprofunda desigualdades e injustiças.

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Orelha e o silêncio da impunidade,

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por Dora Nassif

A violência no Brasil não se sustenta apenas pela ação de quem agride, mas pela certeza de que, para alguns, não haverá consequência. A impunidade de quem tem dinheiro, poder ou prestígio social não é um desvio do sistema: ela é parte estrutural dele. E quando a punição deixa de existir, a violência deixa de ser exceção e passa a ser rotina.

Esse processo é silencioso e perverso. Crimes são relativizados, comportamentos violentos são tratados como “excessos”, e a responsabilidade se dissolve em justificativas jurídicas, privilégios econômicos e redes de proteção social. A mensagem é clara: nem toda vida vale o mesmo. Nem todo dano exige reparação.

O problema é que essa lógica não se limita às relações entre indivíduos. Ela se espalha pelo espaço público, molda comportamentos e atravessa as ruas. Basta olhar ao redor. Nas mesmas cidades em que a violência humana é naturalizada, cresce também o número de animais abandonados, vivendo à margem, expostos à fome, às doenças, aos atropelamentos e ao frio.

Cachorros não chegam às ruas por acaso. Eles são colocados ali. São abandonados por quem não assume a responsabilidade de cuidar, por quem não castra, por quem compra animais como objetos descartáveis. Também são vítimas de uma cadeia de impunidade: raramente quem abandona é responsabilizado, raramente há consequências reais, raramente o Estado atua de forma preventiva.

A ausência de punição produz repetição. Quando abandonar não gera sanção, o abandono se multiplica. Quando a violência não provoca indignação, ela se normaliza. E quando a sociedade se acostuma, perde-se algo essencial: a capacidade de reconhecer o sofrimento do outro, humano ou não, como uma injustiça intolerável.

Não se trata de comparar dores, mas de compreender padrões. A mesma estrutura que protege quem agride e concentra privilégios é a que empurra os mais vulneráveis para a invisibilidade. A impunidade no topo sempre escorre para baixo. Ela define quem pode errar sem pagar e quem paga mesmo sem ter culpa.

A rua não deveria ser destino. Nem para pessoas, nem para animais. Enquanto aceitarmos a violência como parte inevitável da vida urbana e a impunidade como um mal menor, seguiremos reproduzindo um modelo social baseado na indiferença.

O que mais assusta hoje não é apenas a violência em si, mas o quanto ela já deixou de nos chocar. E quando a violência deixa de causar espanto, o problema ultrapassa o jurídico ou institucional.

Dora Nassif – Advogada, Mestra em Direitos Humanos e Doutoranda em Ciências Jurídicas e Políticas pela Universidad Pablo de Olavide, em Sevilla.

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Dora Nassif

Advogada, Mestra em Direitos Humanos e Doutoranda em Ciências Jurídicas e Políticas pela Universidad Pablo de Olavide, em Sevilla.

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2 Comentários
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  1. Delmar Gularte

    28 de janeiro de 2026 5:04 pm

    Orelha

    Tinha muitos donos, não tinha nenhum
    Um cão de rua de simpatia incomum
    Mansinho mascote da Praia Brava
    Orelha, assim a gente o chamava
    Um dia apareceu arrebentado
    Por quatro garotos foi massacrado
    Uma brutalidade desumana
    Todos eles filhinhos de bacana
    A barbárie como novo normal
    Mata pobre, mulheres, mata animal
    O pega geral até pegar você
    O social em rede e nas esquinas
    O circo dos horrores descortina
    E a maioria finge que nem vê

  2. Rafael

    31 de janeiro de 2026 12:21 pm

    Especificamente sobre o que merecem os delinquentes deste caso temos um ditado aqui que entendedores entenderão..

    “Cachorro que come ovelha, só matando..”

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