O fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, apresentaram versões conflitantes durante acareação realizada no Supremo Tribunal Federal (STF). O procedimento, cujos registros foram tornados públicos pelo ministro Dias Toffoli nesta quinta-feira (29), buscou esclarecer a origem de carteiras de crédito bilionárias adquiridas pelo banco público, que mais tarde se revelaram desvalorizadas.
O ponto central da discordância reside na transparência da operação. Vorcaro sustenta que o BRB foi informado de que os ativos, negociados a partir de 2025, não eram de “originação própria” do Master, mas sim de terceiros. Já Costa nega ter recebido tal informação, afirmando que a instituição acreditava estar comprando créditos gerados pelo próprio Master, que teriam sido apenas recomprados de outros players antes da revenda ao banco estatal.
O impasse sobre a Tirreno
A investigação da Polícia Federal (PF) aponta que o Master adquiriu créditos da consultoria Tirreno, sem realizar pagamento imediato, e os repassou ao BRB por cerca de R$ 12 bilhões. Na acareação, Vorcaro afirmou que sequer conhecia o nome da empresa na época. “Acho que a gente chegou a conversar por algumas vezes que a gente começaria um novo formato de comercialização que seria de terceiros“, declarou o empresário.
Paulo Henrique Costa, por outro lado, alegou que a ligação com a Tirreno só foi detectada meses depois, após análises técnicas identificarem um padrão documental estranho. Segundo o executivo, a identificação do originador final não costuma constar nos documentos de análise de risco, o que teria dificultado a percepção imediata da manobra. “Meu entendimento é que eram carteiras originadas pelo Master que haviam sido vendidas ou negociadas a terceiros e que o Master estava recomprando e revendendo para a gente“, disse Costa.
Risco de rombo bilionário
O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em novembro passado, após enfrentar severas crises de liquidez. A PF agora apura se o BRB negligenciou protocolos de governança para socorrer o banco privado. O volume de ativos do Master chegou a representar 30% de todo o patrimônio do banco público brasiliense.
Em depoimento anterior, o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, alertou que as provisões para cobrir perdas no BRB podem chegar a R$ 5 bilhões, devido à “baixa qualidade” dos ativos entregues pelo Master. Para mitigar o prejuízo, as instituições realizaram uma troca de R$ 12,7 bilhões em ativos, com o BRB aplicando um deságio de 30% para tentar garantir uma margem de segurança.
Defesa e supervisão
A defesa de Paulo Henrique Costa afirma que as operações ocorreram dentro da normalidade bancária e que, ao identificar irregularidades, o BRB agiu de forma técnica e comunicou as autoridades.
Vorcaro, por sua vez, argumentou que a operação era vista como “um bom negócio para o sistema financeiro” e que o foco da análise de risco deveria ser o devedor final, e não quem originou o papel.
Em nota, o Banco Central ressaltou que, embora monitore o sistema, a responsabilidade pela análise de qualidade dos créditos e pelo gerenciamento de riscos é exclusiva de cada instituição financeira.
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