Uma parceria entre o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP) e o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, começa a testar nesta semana um novo modelo de cuidado para pessoas com diabetes tipo 2 atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A iniciativa propõe uma abordagem que vai além da prescrição de medicamentos e aposta em mudanças sustentáveis no estilo de vida e na maior participação do paciente no próprio tratamento.
Com duração de um ano, o programa pretende incluir até 40 novos pacientes por mês. O público-alvo são adultos entre 45 e 65 anos, em geral com a doença fora de controle. Durante o período, o acompanhamento será compartilhado entre as instituições: o Sírio-Libanês ficará responsável pelos exames e pelo cuidado multiprofissional focado no diabetes, enquanto o HC seguirá com o atendimento clínico geral. Ao final do programa, o paciente retorna integralmente ao acompanhamento no HC.
“A gente sabe da complexidade que é cuidar de alguém com diabetes. Apostamos muito em tratamento com remédio, mas certamente a mudança do estilo de vida é o pilar mais importante, não só para o diabetes, mas também para muitas outras comordidades, como pressão alta, obesidade”, afirma Felipe Duarte Silva, gerente de práticas médicas e de pacientes internados do Hospital Sírio-Libanês.
O projeto reúne uma equipe multiprofissional formada por enfermeiros, nutricionistas, psicólogos e educadores físicos. As ações incluem atendimentos individuais e em grupo, oficinas, acompanhamento remoto e definição de metas personalizadas. Um dos eixos centrais é o letramento em saúde, a capacidade do paciente de compreender a própria condição e tomar decisões cotidianas mais informadas.
O programa surge em um contexto de forte crescimento do diabetes no país. Dados apresentados pelo Ministério da Saúde na última quarta-feira (28) mostram que a prevalência da doença entre adultos passou de 5,5% em 2006 para 12,9% em 2024, uma alta de 135% em 18 anos. Atualmente, cerca de 25 milhões de brasileiros convivem com o diabetes. Quando mal controlada, a doença aumenta o risco de infarto, AVC, insuficiência renal, amputações, cegueira e compromete significativamente a qualidade de vida.
Para a médica Maria do Patrocínio Tenório, professora associada da clínica médica do HC, a proposta atende a uma demanda antiga da equipe. “No Brasil ainda impera o modelo em que eu [o paciente] te entrego a minha doença e você faz com ela o que você quiser. Eu não me envolvo nesse plano de cuidado”, avalia.
Segundo ela, é comum que residentes que atendem diabéticos no ambulatório relatem frustração com os resultados. “Você faz, faz, faz, vê esses pacientes a cada mês ou a cada dois ou a cada três meses, mas as coisas não melhoram porque existem aspectos sociais, psicológicos, de todos os níveis. Daí a importância de uma equipe multiprofissional”, diz.
Outro diferencial do projeto é levar em conta as condições reais de vida dos pacientes. Recomendações tradicionais, como a prática de caminhadas, nem sempre são viáveis. “Eu mesma já pedi para uma paciente que mora na periferia caminhar e ela sofreu um sequestro relâmpago. A sorte é foi liberada logo depois. Ela disse pra mim: ‘caminhada tá fora de cogitação, a senhora pensa em outra coisa’”, relata Tenório.
A proposta é adaptar o tratamento à realidade de cada pessoa. Nutricionistas trabalharão com alimentos acessíveis e estratégias práticas, como o melhor aproveitamento de feiras livres. “A primeira coisa vai ser desconfigurar essa ideia de que eles vão precisar gastar muito dinheiro com uma alimentação saudável”, afirma a médica.
Os enfermeiros terão papel central no acompanhamento contínuo, inclusive à distância, auxiliando no monitoramento das metas estabelecidas em conjunto com o paciente. “A gente precisa criar uma meta que seja atingível. Isso faz com que ele mude, até porque aquilo está mais pertencente ao contexto e à realidade dele”, explica Felipe Duarte.
“Mais do que engajar, queremos ativar o paciente”, afirma Luiz Francisco Cardoso, diretor de governança clínica do Sírio-Libanês. “O médico consegue estar com a pessoa algumas horas por ano. O resto do tempo ela está sozinha com a doença. Ela precisa ter informação, apoio e ferramentas para mudar a trajetória da própria saúde.”
Além das consultas, os participantes terão acesso a exames que não fazem parte da rotina do SUS, como bioimpedância, avaliação digital do fundo de olho e análise da pisada, voltados à detecção precoce de complicações, especialmente nos pés. A retinografia poderá ser feita com equipamento portátil, com laudo remoto e apoio de inteligência artificial.
A iniciativa também terá um braço de pesquisa. Serão avaliados indicadores clínicos, qualidade de vida e a satisfação dos pacientes com o programa, um desfecho ainda pouco explorado na rede pública. Um subestudo buscará entender os fatores que dificultam a adesão de alguns participantes às propostas.
A expectativa é que os resultados ajudem a embasar mudanças mais amplas no SUS. “Queremos gerar evidências para mostrar que esse modelo é viável e pode ser adaptado à rede pública”, afirma Tenório. “Não é só sobre diabetes. É sobre como cuidar melhor de pessoas com doenças crônicas, olhando para a vida delas e não apenas para os exames.”
*Com informações da Agência Fapesp.
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