4 de junho de 2026

O Alfaiate Desajustado, por Henrique Morrone

Acreditava que o prestígio de uma nação se media pela elegância das dobras do orçamento e pela largura das bainhas das promessas.
Reprodução

Álvaro, alfaiate, tenta ajustar o Brasil a moldes europeus, ignorando sua realidade e tamanho reais.
Ele aplica rigor fiscal extremo, apertando o “cinto” do país, mas isso sufoca a economia e o povo.
O texto critica a austeridade e defende redistribuição para equilibrar as proporções do país gigante.

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O Alfaiate Desajustado

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por Henrique Morrone

A sina de Álvaro, o astuto alfaiate, era vestir tamanho G, mas nutria aversão à gordura das entranhas. Para ele, o Brasil deveria ser uma vitrine elegante, incapaz de denunciar o peso da própria carne. Álvaro cortava o país em moldes londrinos, ignorando a tropicalidade e o seu tamanho avantajado.

Em sua oficina, operava a farsa com método. Acreditava que o prestígio de uma nação se media pela elegância das dobras do orçamento e pela largura das bainhas das promessas. Aceitava vestir um país com porte de gigante, mas recusava-se a reconhecer suas medidas reais. Queria um Brasil de aparência esguia, ainda que quase-asfixiado.

Diante do espelho nu, não via o país; via apenas o “excesso”. Sua saída era sempre a mesma: em vez de harmonizar linhas e formas, recorria ao cinto como garrote. Apertava o nó do ajuste fiscal com fervor quase religioso, jurando que o sufoco na cintura, por milagre, alcançaria o alinhamento do todo.

O que Álvaro, em sua febre tecnocrática, insistia em não compreender é que gigantes precisam de reservas e que suas proporções obedecem à própria escala. Enquanto se perdia em crenças, métricas de caimento e fetiches de austeridade, o conjunto penava. O país, asfixiado pelo rigor do seu “cinto”, perdia o fôlego tentando sustentar o peso real: juros elevados e privilégios preservados. Ao gigante bastaria um nutricionista: menos aperto na cintura, mais redistribuição da massa.

No fim, a física sempre vence a retórica de alfaiataria. Álvaro acabou produzindo uma figura grotesca: um país estrangulado, empenhado em manter a pose enquanto o povo padece. É o teatro recorrente da nossa elite — disfarçar a ausência de projeto com a ilusão da elegância fiscal.

A lição é curta e amarga, como um corte de tesoura. Não há disfarce que oculte a desproporção entre o que se gasta no topo e o que se corta na base. No acerto de contas com a história, a verdade se impõe sem pedir licença: se o cinto aperta, não adianta usar calça larga.

Henrique Morrone é professor associado da UFRGS.

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Henrique Morrone

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS, com atuação dedicada aos temas de macroeconomia, crescimento econômico, desenvolvimento e conflito distributivo no Brasil. Escreve sobre juros, indústria, dominância fiscal e monetária, política econômica e as narrativas que moldam — e por vezes distorcem — o debate público nacional. Publicou no Sul21, GGN, Jornal da UFRGS, Agência TSS, A Terra é Redonda, Revista Economistas (Cofecon) e Rede Estação Democracia (RED), entre outros veículos.

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