A marmita e a Pedagogia da Fome
por Henrique Morrone
Sentado em algum café do Centro Histórico, observando o vaivém apressado de quem tenta equilibrar a vida entre o asfalto quente e a incerteza do amanhã, é difícil não perceber como ideias antigas reaparecem com verniz de novidade nos discursos oficiais. Porto Alegre, com seus jacarandás e suas contradições, assiste hoje a uma encenação clássica daquilo que Albert Hirschman descreveu em A Retórica da Reação.
Quando a tribuna da prefeitura volta sua artilharia contra as marmitas distribuídas aos famintos, não se trata de detalhe administrativo. É o velho expediente: não se ataca o objetivo — ninguém se declara a favor da fome —, mas a eficácia da ação. A conhecida tese da perversidade: qualquer política social, dizem, acabará produzindo exatamente o efeito contrário ao pretendido.
Ao sugerir que alimentar quem vive nas ruas “atrai” mais pobreza, o argumento segue esse roteiro à risca. A solidariedade vira um ímã de miséria; o prato de comida, um erro de urbanismo. A fome deixa de ser tragédia concreta e passa a ser tratada como variável de incentivo mal calibrado.
Esse raciocínio tem pedigree antigo. Antes de Hirschman, ele já aparecia em Thomas Malthus, para quem qualquer alívio aos pobres ameaçaria o equilíbrio social ao estimular comportamentos “imprudentes”. A miséria, nessa visão, não é um problema a ser resolvido, mas um mecanismo disciplinador. Dois séculos depois, o argumento retorna — agora vestido de gestão urbana e responsabilidade fiscal.
Aqui, Porto Alegre reencontra O Gattopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa: muda-se o discurso para que tudo permaneça como está. Retira-se a marmita em nome da “ordem”, da “eficiência” e do “planejamento”, mas preserva-se intacta a engrenagem que produz a fome. A política social não é abolida, é esvaziada. A racionalidade que sustenta esse discurso lembra o universo de Zadig e, sobretudo, de Cândido, ambos de Voltaire.
É exatamente essa lógica que reaparece quando a fome vira instrumento de gestão urbana. Alimentar deseduca; acolher incentiva; ajudar desorganiza. A miséria deixa de ser um problema moral e político e passa a ser tratada como ferramenta de correção comportamental.
Cria-se, assim, um labirinto moral no qual a omissão é vendida como prudência técnica. O governante se apresenta como o único realista em um mundo de “idealistas perigosos”. Como alertou Hirschman, essa retórica não resolve problemas, ela paralisa a ação coletiva e legitima o status quo.
Em Porto Alegre, alimentar o próximo passou a ser tratado como erro de planejamento. O gattopardo da gestão mia mudança, mas conserva o abandono. Entre Malthus e Voltaire, a cidade é convidada a aceitar como sabedoria aquilo que não passa de crueldade bem argumentada. Se a comida é o problema, o diagnóstico não é técnico, é moral. E nenhuma cidade se sustenta por muito tempo transformando a fome em método e o silêncio em política pública.
Henrique Morrone é professor associado da UFRGS e pesquisador do CNPQ.
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