21 de maio de 2026

A marmita e a Pedagogia da Fome, por Henrique Morrone

A fome deixa de ser tragédia concreta e passa a ser tratada como variável de incentivo mal calibrado.
Reprodução Instagram - Imagem ilustrativa

Prefeitura de Porto Alegre critica distribuição de marmitas a moradores de rua, alegando que atrai mais pobreza.
Argumento segue tese antiga de que políticas sociais produzem efeito contrário, tratando fome como variável de gestão.
Crítica destaca que retirar marmitas mantém estrutura que gera fome, transformando-a em ferramenta de controle social.

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A marmita e a Pedagogia da Fome

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por Henrique Morrone

Sentado em algum café do Centro Histórico, observando o vaivém apressado de quem tenta equilibrar a vida entre o asfalto quente e a incerteza do amanhã, é difícil não perceber como ideias antigas reaparecem com verniz de novidade nos discursos oficiais. Porto Alegre, com seus jacarandás e suas contradições, assiste hoje a uma encenação clássica daquilo que Albert Hirschman descreveu em A Retórica da Reação.

Quando a tribuna da prefeitura volta sua artilharia contra as marmitas distribuídas aos famintos, não se trata de detalhe administrativo. É o velho expediente: não se ataca o objetivo — ninguém se declara a favor da fome —, mas a eficácia da ação. A conhecida tese da perversidade: qualquer política social, dizem, acabará produzindo exatamente o efeito contrário ao pretendido.

Ao sugerir que alimentar quem vive nas ruas “atrai” mais pobreza, o argumento segue esse roteiro à risca. A solidariedade vira um ímã de miséria; o prato de comida, um erro de urbanismo. A fome deixa de ser tragédia concreta e passa a ser tratada como variável de incentivo mal calibrado.

Esse raciocínio tem pedigree antigo. Antes de Hirschman, ele já aparecia em Thomas Malthus, para quem qualquer alívio aos pobres ameaçaria o equilíbrio social ao estimular comportamentos “imprudentes”. A miséria, nessa visão, não é um problema a ser resolvido, mas um mecanismo disciplinador. Dois séculos depois, o argumento retorna — agora vestido de gestão urbana e responsabilidade fiscal.

Aqui, Porto Alegre reencontra O Gattopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa: muda-se o discurso para que tudo permaneça como está. Retira-se a marmita em nome da “ordem”, da “eficiência” e do “planejamento”, mas preserva-se intacta a engrenagem que produz a fome. A política social não é abolida, é esvaziada. A racionalidade que sustenta esse discurso lembra o universo de Zadig e, sobretudo, de Cândido, ambos de Voltaire.

É exatamente essa lógica que reaparece quando a fome vira instrumento de gestão urbana. Alimentar deseduca; acolher incentiva; ajudar desorganiza. A miséria deixa de ser um problema moral e político e passa a ser tratada como ferramenta de correção comportamental.

Cria-se, assim, um labirinto moral no qual a omissão é vendida como prudência técnica. O governante se apresenta como o único realista em um mundo de “idealistas perigosos”. Como alertou Hirschman, essa retórica não resolve problemas, ela paralisa a ação coletiva e legitima o status quo.

Em Porto Alegre, alimentar o próximo passou a ser tratado como erro de planejamento. O gattopardo da gestão mia mudança, mas conserva o abandono. Entre Malthus e Voltaire, a cidade é convidada a aceitar como sabedoria aquilo que não passa de crueldade bem argumentada. Se a comida é o problema, o diagnóstico não é técnico, é moral. E nenhuma cidade se sustenta por muito tempo transformando a fome em método e o silêncio em política pública.

Henrique Morrone é professor associado da UFRGS e pesquisador do CNPQ.

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Henrique Morrone

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS, com atuação dedicada aos temas de macroeconomia, crescimento econômico, desenvolvimento e conflito distributivo no Brasil. Escreve sobre juros, indústria, dominância fiscal e monetária, política econômica e as narrativas que moldam — e por vezes distorcem — o debate público nacional. Publicou no Sul21, GGN, Jornal da UFRGS, Agência TSS, A Terra é Redonda, Revista Economistas (Cofecon) e Rede Estação Democracia (RED), entre outros veículos.

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