Inflação, desemprego e o custo social da política monetária no Brasil
por Henrique Morrone
O Brasil carrega uma longa história de instabilidade inflacionária, figurando entre os últimos países da América Latina a estabilizar os preços de forma relativamente duradoura apenas na década de 1990. O controle inflacionário obtido com o Plano Real representou uma inflexão importante, mas veio acompanhado de um regime macroeconômico estruturalmente restritivo, marcado por elevadas taxas reais de juros, crescimento econômico modesto e alta sensibilidade do mercado de trabalho às políticas de estabilização. A recuperação mais consistente da atividade só ocorreu nos anos 2000, em um contexto internacional favorável e com maior coordenação entre políticas fiscal, monetária e de crédito.
Desde então, o debate econômico brasileiro permanece polarizado em torno das causas da inflação e, sobretudo, dos instrumentos mobilizados para combatê-la. Uma corrente dominante sustenta que a inflação decorre essencialmente de pressões de demanda, isto é, de um nível de gasto considerado excessivo frente à capacidade produtiva da economia, frequentemente associado a desequilíbrios fiscais, expansão do gasto público e perda de credibilidade da política econômica. Nessa leitura, o combate à inflação exige a contração da demanda agregada, por meio de políticas monetária e fiscal restritivas, mesmo que isso implique desaceleração da atividade e elevação do desemprego.
Em oposição, há uma interpretação alternativa que enfatiza o papel dos choques de oferta na dinâmica inflacionária brasileira. Eventos climáticos extremos, elevações nos preços internacionais de alimentos e energia, gargalos produtivos, choques cambiais e desorganização das cadeias de suprimento tornaram-se recorrentes ao longo da última década. Além disso, uma parcela relevante da inflação no Brasil tem origem em segmentos não comercializáveis, menos sensíveis à concorrência externa. Para essa corrente, políticas restritivas à demanda tendem a ser pouco eficazes quando a inflação não decorre de excesso de gasto, mas de restrições produtivas e elevação de custos. Nesses casos, a política monetária atua de forma indireta e custosa, sendo capaz de conter a inflação sobretudo por meio da desaceleração da atividade econômica, do aumento do desemprego e, em certos episódios, da apreciação cambial.
É nesse contexto que o Índice de Miséria, proposto por Arthur Okun nos anos 1970, ganha relevância analítica. Definido como a soma da taxa de desemprego e da taxa de inflação, o índice oferece uma medida sintética do desconforto econômico enfrentado pela população, tornando explícito o custo social embutido em estratégias de estabilização baseadas no desemprego.
O Gráfico 1 apresenta a evolução do Índice de Miséria de Okun no Brasil entre 2012 e 2025, utilizando dados metodologicamente consistentes da PNAD Contínua (IBGE) para a taxa anual de desemprego e do IPCA (IBGE) para a inflação. O gráfico também incorpora a meta de inflação, seu piso e teto, bem como a trajetória da taxa Selic média anual, permitindo uma leitura integrada entre inflação, mercado de trabalho e política monetária.
Gráfico 1 — Índice de Miséria de Okun no Brasil (2012–2025)
Soma da taxa de desemprego (PNAD Contínua/IBGE) e da inflação (IPCA/IBGE), meta de inflação, piso e teto da banda e taxa Selic média anual.
Fonte: IBGE, Banco Central do Brasil. Elaboração própria com apoio de ferramentas de inteligência artificial (IA).
Os dados mostram um aumento expressivo do Índice de Miséria entre 2014 e 2021, período marcado pela recessão de 2015–2016, pela crise política prolongada e pelos efeitos econômicos da pandemia de covid-19. Nesse intervalo, o índice foi impulsionado sobretudo pela explosão do desemprego, evidenciando que o ajuste macroeconômico operou, em grande medida, por meio da compressão do mercado de trabalho. A inflação teve papel relevante em alguns momentos, mas o principal vetor da deterioração do bem-estar foi a perda de postos de trabalho.
A partir de 2022, observa-se uma queda consistente do Índice de Miséria, explicada pela combinação entre desaceleração inflacionária e, sobretudo, recuperação do emprego. O gráfico indica que a melhora recente das condições econômicas esteve mais associada à recomposição do mercado de trabalho do que ao simples controle inflacionário, sugerindo que o emprego teve papel decisivo na redução do desconforto econômico.
A análise da inflação ao longo do período permite uma leitura crítica do regime de metas de inflação. Em grande parte da série, a inflação permaneceu fora do núcleo da meta, oscilando entre o piso e o teto da banda. O curto intervalo entre 2017 e 2019, quando a inflação ficou abaixo do centro da meta, coincidiu com níveis elevados de desemprego e crescimento anêmico, o que limitou a redução do Índice de Miséria. Em termos sociais, foi uma estabilidade de preços obtida a alto custo.
A trajetória da taxa Selic reforça um padrão recorrente da política monetária brasileira: respostas agressivas via juros a episódios inflacionários, inclusive quando estes decorrem majoritariamente de choques de oferta. Nessas circunstâncias, o aperto monetário tende a reduzir a inflação comprimindo a atividade e o emprego, elevando o Índice de Miséria sem enfrentar as causas estruturais das pressões de preços.
Em síntese, a experiência brasileira recente indica que o uso recorrente da taxa de juros como principal instrumento de combate à inflação transformou o desemprego em variável de ajuste permanente da economia. Em episódios nos quais a inflação decorreu de choques climáticos, energéticos ou cambiais — e não de excesso de demanda — o aperto monetário operou sobretudo como mecanismo de compressão do emprego e da renda. O resultado é um regime que preserva a credibilidade formal da política monetária, mas socializa seus custos, elevando a miséria econômica sempre que surgem pressões inflacionárias. Persistir nessa estratégia é aceitar, de forma implícita, que o controle de preços continue sendo feito às custas do emprego. Isso não é um problema técnico: é uma escolha política, com vencedores e perdedores bem definidos.
Henrique Morrone é professor associado da UFRGS e pesquisador do CNPQ.
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