A fazenda que corria para ficar no mesmo lugar
por Henrique Morrone
Napoleão, o porco astuto e explorador da Fazenda dos Animais, em seu processo de “humanização”, sofreu um revés que não caberia nem nas fábulas mais cruéis: ao tentar virar gente, acabou regredindo à animalização. Sua liderança, antes intocável na Fazenda do Solar — nome adotado depois que a antiga Fazenda dos Animais passou a causar certo constrangimento — foi colocada em xeque por uma sequência de eventos. Conto brevemente o que ocorreu.
Em algum momento incerto, Napoleão encontrou um livro empoeirado num canto do celeiro. Um manual de finanças, desses que prometem controlar riscos e multiplicar ganhos com a elegância fria das fórmulas. Com conhecimentos parcos — muito superiores aos dos demais animais, mas muito aquém do saber técnico do desaparecido Bola de Neve — lançou-se à nova obsessão: dominar o jargão da economia ortodoxa, sua parte fancy, o lado que costuma falar baixo e cobrar caro.
Napoleão caiu, sem perceber, no mesmo conto em que tantos agricultores da região também haviam caído. Há quem diga, com a gravidade dos gráficos bem-comportados, que a agricultura tradicional está condenada porque insiste em plantar sem antes consultar a bolsa. Para esses economistas de mercado, a crise do agricultor nasce da ingenuidade financeira: ele colhe milho, mas deveria colher também opções; planta soja, mas se recusa a semear contratos futuros. O risco, garantem, é natural como a chuva — e quem não aprende a fazer hedge merece a seca.
Do outro lado, a crítica insiste que o drama é exatamente o inverso: não é a ausência de finanças que quebra o agricultor, mas o excesso delas. A volatilidade deixou de ser capricho do clima e passou a ser produzida em telas, por fundos que nunca pisaram no barro. Quando o agricultor entra nesse jogo, entra pequeno, atrasado e endividado, tentando proteger a safra enquanto o mercado transforma alimento em ativo e colhe renda sem plantar nada. No fim, a lavoura até cresce — mas a renda murcha. E o risco, que prometeram domar, volta sempre maior, agora vestido de modernidade.
Seduzido pela promessa de imunidade ao acaso, Napoleão descobriu tarde demais que o mercado oferece proteção com uma mão e puxa a cadeira com a outra. Os prejuízos se acumularam, a dependência financeira virou coleira e ele fracassou. Sua posição foi sendo rebaixada em silêncio, como se a fazenda inteira tivesse combinado fingir que nada acontecera. Sem saída, optou — como fazem os derrotados com discurso — por migrar “livremente” para outra propriedade, situada na parte menos temperada da Ilha. Migrou para a Fazenda Brasiléia.
Lá encontrou animais alfabetizados — o que o obrigou a elevar o jogo. Mas a vida gosta de ironias: Napoleão chegou justamente quando a Fazenda Brasiléia atravessava um processo persistente de quase-estagnação. Não era colapso, mas também não era crescimento; era aquele andar rastejante que cansa mais do que a queda, porque exige esperança contínua sem oferecer recompensa.
O dono humano, desencantado com tudo e com todos, convocou os animais “mais capazes” para uma reunião no celeiro. Estavam presentes Nicolau, o cavalo keynesiano; Napoleão, ainda fiel ao catecismo ortodoxo; Manuela, a vaca do novo-desenvolvimentismo; e a toupeira — marxista, geralmente difamada por suposta ignorância, quando na verdade sofria do defeito de enxergar demais no escuro. O celeiro estava cheio. O dono humano mantinha o olhar típico de quem quer uma explicação rápida e barata — e, se possível, uma solução que não mude coisa alguma.
Napoleão abriu os trabalhos. Não por autoridade, que já não tinha, mas por impulso. Sua análise foi contida, superficial e repleta de palavras que soavam importantes. Falou em incentivos corretos, eficiência, confiança do celeiro. Para ele, a quase-estagnação decorria de choques externos, rigidez excessiva e da indisciplina dos animais menos produtivos. Bastariam ajustes pontuais, algum sacrifício temporário, e a retomada viria naturalmente — como sempre promete o mercado quando está com pressa de convencer.
Nicolau pediu a palavra batendo o casco, já sem grande paciência. Disse que o problema não era confiança, mas demanda. Animais cansados, mal alimentados e inseguros não ampliam produção. A fazenda girava em falso. Cabia ao dono humano agir de forma anticíclica: investir, expandir o celeiro, aceitar algum déficit no curto prazo para salvar a produção no longo. “É curioso”, concluiu, “que apenas alguns porcos muito seguros de si acreditem que, para arar a terra, o boi precise confiar primeiro.”
Manuela ruminou antes de falar, como quem organiza o plano no estômago. O problema, disse, era estrutural. Produzia-se sempre o mesmo grão, com baixo valor agregado, pouca diversificação e raros encadeamentos internos. Faltavam máquinas, tecnologia, coordenação e estratégia. Sem crédito direcionado, investimento persistente e proteção seletiva, a Fazenda Brasiléia seguiria presa ao pasto raso: sempre crescendo pouco e tropeçando cedo. Uma possível saída seria iniciar a produção de conservas, com maior valor agregado; depois, quem sabe, outros produtos poderiam surgir.
Por fim, a toupeira emergiu lentamente do chão. Enquanto os demais disputavam preços, incentivos e expectativas, ela falava do que se passava abaixo da superfície. Falou baixo, com precisão incômoda. Todos ali observavam sintomas, mas evitavam a causa. A quase-estagnação não era azar, nem apenas falta de demanda ou erro estrutural isolado. O núcleo do problema era a queda da taxa de lucro da fazenda. À medida que mais trabalho era explorado, mais máquinas incorporadas e mais custos financeiros acumulados, o excedente que sustenta a expansão encolhia. Era preciso olhar para o subterrâneo. O sistema passava a correr para ficar no mesmo lugar. O restante do debate, concluiu, era a disputa de sempre: quem pagaria a conta.
O celeiro silenciou. O dono humano pigarreou. Napoleão, ouriçado, franziu o cenho — gesto típico de quem discorda antes de compreender. Nicolau coçou a crina. Manuela seguiu ruminando. A toupeira, fiel ao ofício, já desaparecia no solo, consciente de que suas palavras, como sempre, só seriam plenamente compreendidas quando a crise deixasse de ser “quase” e não restasse outra opção.
Na Fazenda Brasiléia, como em tantas outras, o diagnóstico estava posto. Faltava decidir apenas uma coisa: se continuariam discutindo como acelerar — ou se finalmente teriam coragem de perguntar por que o chão cedia a cada passo.
Henrique Morrone é professor associado da UFRGS e pesquisador do CNPQ.
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