O Condomínio e a Calçada: Brasil e o Avesso de Lisarb
por Henrique Morrone
A cidade, vista de cima, parece um tabuleiro desconjuntado, onde as peças se encostam, mas não se reconhecem. No Brasil, essa descoordenação não é acidente: é método. De um lado da cerca, o mármore reluz ao raiar do dia; do outro, a raiz da árvore levanta a calçada agonizante. A cena se repete sem escândalo, sinal inequívoco da nossa incapacidade crônica de conjugar o verbo compartilhar.
Diz-se que em Lisarb tudo funciona ao contrário do Brasil. Lá, o dicionário é lido no sentido comum: imposto é contribuição com retorno, calçada é passagem, e espaço público não é sinônimo de abandono. Aqui, lemos tudo pelo avesso. Imposto vira confisco sem contrapartida visível, calçada vira obstáculo urbano, e o cidadão é empurrado para uma escolha binária: ou cliente de luxo, ou figurante do descaso. Se é coletivo, ninguém cuida; se é privado, poucos desfrutam. Essa não é uma opinião — é a certidão de óbito do espaço público brasileiro.
Nas grandes cidades, o fenômeno se reproduz com precisão quase industrial. Guindastes erguem torres reluzentes, vendidas como ilhas de ordem em meio ao caos. É a consagração do individualismo defensivo: cansado do fracasso coletivo, o cidadão compra sua própria fração de civilização. Em Lisarb, isso seria tratado como colapso institucional. No Brasil, vira lançamento imobiliário. A paz prometida é seletiva, cara e filtrada — exige senha, vigilância armada e distância social administrada.
O microepisódio é banal. Em frente a um condomínio recém-entregue, com portaria blindada e câmeras em todas as direções, a calçada cedeu após a primeira chuva mais forte. Um buraco se abriu ao lado da guarita. Durante semanas, ninguém assumiu a responsabilidade. Não era do condomínio, tampouco da prefeitura. O morador desviava o passo, o pedestre se equilibrava, o cadeirante retornava. O buraco permaneceu ali, funcionando como alegoria involuntária da cidade: protegida por muros por dentro, abandonada por fora.
Basta um passo além da guarita para que a realidade cobre a conta. O poste que não acende, o ônibus que não chega, o parque apodrece silenciosamente. O paradoxo não é acidental: enquanto o investimento privado se multiplica, a infraestrutura pública se desfaz. Há uma transferência silenciosa de energia, recursos e responsabilidades. Quanto mais o cidadão se refugia no condomínio, no shopping ou no estacionamento fechado, menos se reconhece como parte de uma coletividade. Em Lisarb, isso seria chamado de regressão civilizatória. No Brasil, foi naturalizado como estratégia racional de sobrevivência.
No fim, o espaço público se traveste em resíduo geográfico abandonado, servindo apenas de corredor entre um bunker de conforto e outro. A ironia final é elementar: nenhuma ilha de eficiência resiste cercada por um oceano de precariedade. O muro aparta, postergando o inexorável. Enquanto isso, a conta chega com juros — altos. O morador do condomínio permanece com o buraco à porta e o entorno fraturado, recebendo como compensação apenas uma indenização parcial e cínica: juros financeiros extratosféricos, que não consertam a cidade, apenas remuneram o fracasso coletivo.
Henrique Morrone é professor associado da UFRGS e pesquisador do CNPQ.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário