Os Barões Ladrões e o Imperialismo que Nunca Foi Embora
por Henrique Morrone
Há momentos em que a história não avança: ela pigarreia, ajusta o paletó e volta a falar com o mesmo sotaque antigo. Os Estados Unidos parecem viver uma dessas fases. Ao ouvir Donald Trump atacar “elites globais” enquanto distribui benefícios a bilionários domésticos, é difícil não reconhecer os velhos barões ladrões, agora sem cartola, mas com redes sociais, plataformas digitais e poder financeiro concentrado em escala inédita.
No final do século XIX, a economia americana produziu figuras que não construíam apenas aço, ferrovias ou petróleo, mas sobretudo assimetria de poder. Vanderbilt, Rockefeller e Carnegie não eram empreendedores no sentido romântico do termo. Eram arquitetos de monopólios, especialistas em transformar concorrência em exceção histórica. A riqueza não era consequência do mercado, mas o prêmio pela sua suspensão.
Aquele período ficou conhecido como Gilded Age, dourado na superfície e desigual na estrutura. Sob o verniz do progresso, avançavam a precarização do trabalho, a captura da política e a concentração de renda. O Estado não era mínimo; era seletivo, forte para proteger a propriedade e fraco para proteger gente. Crescia a desigualdade interna e se aprofundava a distância entre o centro do capitalismo e suas periferias.
Trump não inaugura esse movimento. Apenas retira o disfarce. Sua retórica antissistema nunca foi dirigida contra o grande capital; ao contrário, libera os interesses dominantes da obrigação de fingir moderação. O trumpismo é menos uma ruptura e mais uma desregulamentação moral, que autoriza dizer em voz alta o que antes operava sob linguagem técnica, jurídica e tecnocrática.
Os novos barões ladrões já não controlam ferrovias, mas plataformas, dados, cadeias logísticas e fluxos financeiros globais. Extraem renda não pela produção, mas pela posição estratégica. Não competem; intermediam. Não vendem bens; vendem acesso. O capitalismo concorrencial sobrevive como peça didática, enquanto, na prática, o poder se organiza por hierarquias globais rígidas.
Basta observar as grandes cidades: sedes corporativas reluzentes e centros financeiros blindados, enquanto a vida comum é empurrada para periferias distantes. A renda sobe por elevadores privados; o trabalho espera no térreo. O império já não precisa de bandeiras: administra fluxos, define padrões e impõe regras por contratos, algoritmos e sanções.
Há, por trás dessa virada, uma ansiedade histórica pouco disfarçada. Mais do que nacionalismo difuso, o trumpismo expressa a tentativa desordenada de estancar algo percebido como iminente: a expansão econômica da Ásia Oriental, com centro motor na China. Não se trata apenas de comércio ou tarifas, mas de liderança sistêmica. Como observou Giovanni Arrighi, hegemonias não colapsam de forma súbita; reagem quando já perderam o dinamismo produtivo. O barulho político surge quando a vantagem começa a se deslocar do Ocidente para o Oriente.
Trump fala em “América primeiro”, mas governa para poucos. Seu nacionalismo econômico não é industrializante; é patrimonial. Tarifas surgem como barganha política, não como estratégia de desenvolvimento. O trabalhador aparece apenas como recurso retórico, nunca como sujeito econômico. A desigualdade interna se aprofunda enquanto se tenta preservar, por meios cada vez mais agressivos, a desigualdade entre países.
Há algo de profundamente regressivo nesse processo. Não apenas socialmente, mas historicamente. É como se a maior economia do mundo tivesse decidido ignorar o século XX: esquecer o New Deal, desprezar Bretton Woods e abandonar a arquitetura institucional que, por algumas décadas, reduziu assimetrias e transformou conflito social em crescimento compartilhado. Retorna-se ao capitalismo cru, no qual o sucesso dos poucos vira mérito e o fracasso dos muitos, falha moral.
Os barões ladrões sempre precisaram de uma narrativa. Antes, era o progresso inevitável. Hoje, é a guerra cultural. O inimigo deixa de ser o poder econômico concentrado e passa a ser qualquer obstáculo à naturalização da desigualdade: imigrantes, universidades, ambientalistas, países emergentes. As cidades se verticalizam, as calçadas se esvaziam e a política passa a administrar cercas, não futuros.
Trump é apenas o apresentador desse retorno: um animador de auditório de um imperialismo que perdeu a vergonha, mas não o método. O espetáculo distrai, a retórica inflama, enquanto o essencial permanece intocado, a concentração de poder, a hierarquia entre nações e a desigualdade como regra.
A história mostra que os barões ladrões não caem sozinhos. Eles são contidos. Ou não. Nos Estados Unidos, isso exigiu sindicatos fortes, regulação pesada e um Estado disposto a enfrentar o poder econômico. Em escala global, exigiu instituições capazes de reduzir assimetrias entre países. Nada disso nasce espontaneamente.
A “América” soberana já esteve aqui antes.
Da última vez, precisou reaprender a governar o capital.
É sintomático que, agora, diante do deslocamento do centro dinâmico do mundo em direção ao Oriente, esteja disposta a esquecer essa lição, justamente quando o imperialismo que nunca foi embora retorna em sua forma mais nua.
Como diz um ditado italiano: no fim da partida, o rei e o peão acabam na mesma caixa de carvalho.
Henrique Morrone é economista, professor associado da UFRGS e pesquisador do CNPQ.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário