América contra América
por Luciana Bauer
Todos acordamos em 2026 com desafios civilizacionais extremos. Primeiro a captura de Maduro, depois a ameaça ao território da Groenlândia. Escrevo este texto a partir de um ponto de desconforto teórico e histórico. Não se trata apenas da inquietação diante da instabilidade geopolítica ou da retórica belicista que volta a organizar a política internacional. Trata-se de algo mais profundo: a percepção de que a democracia constitucional contemporânea entrou em um regime de normalização do risco, no qual a exceção econômica, a emergência climática e a geopolítica dos recursos estratégicos passaram a coexistir sem escândalo, sem ruptura e sem responsabilização.
As recentes notícias sobre a instabilidade dos mercados financeiros diante do agravamento das disputas comerciais e estratégicas — em especial envolvendo a Groenlândia — e o debate público, cada vez menos técnico e mais político, sobre a sustentabilidade da dívida pública dos Estados Unidos revelam facetas distintas de um mesmo fenômeno estrutural: o esgotamento do modelo de governança liberal assentado em crescimento permanente, financeirização ilimitada e canibalização ecológica.
A Groenlândia, território até recentemente periférico no imaginário geopolítico, tornou-se símbolo de uma nova fase do capitalismo global. O degelo do Ártico, longe de ser tratado como catástrofe civilizatória, é reinterpretado como oportunidade estratégica. Ali convergem três vetores centrais do século XXI: segurança militar, cadeias de suprimento da transição energética e disputa por minerais críticos. O que está em jogo não é apenas soberania territorial, mas a capacidade de controlar os insumos materiais do futuro tecnológico.
Essa corrida por terras raras e rotas estratégicas não ocorre em um vácuo fiscal. Ela é financiada por Estados profundamente endividados, cuja legitimidade política depende cada vez mais da capacidade de sustentar crescimento artificial via expansão monetária e rolagem permanente da dívida. O que chamo de fábula do crescimento infinito dentro de um mundo finito. O debate em torno dos mais de 38 trilhões de dólares da dívida pública dos EUA não é contábil; é constitucional e moral. Ele revela uma fratura entre dois imperativos inconciliáveis: manter a centralidade do dólar e preservar alguma estabilidade social interna diante de uma população empobrecida e cada vez mais em insegurança alimentar (relatorio ALICE 2025 Florida).
Nesse contexto, o mercado financeiro passa a exercer uma função paradoxal. Ao mesmo tempo em que depende da previsibilidade institucional e da confiança democrática, ele antecipa e precifica o colapso dessas mesmas condições. A volatilidade deixa de ser anomalia e se converte em estratégia. Fundos, bancos e gestores globais não perguntam mais se o sistema é sustentável; perguntam apenas como extrair valor durante o ajuste — ou durante o colapso. Vide recente painel em Davos com o sugestivo título “FULL DISCUSSION: BlackRock, Citadel & Lagarde Clash Over $38 Trillion U.S. Debt, AI & Market Risks”
É aqui que emerge o que denomino, em meus trabalhos recentes, de “democracia indiferente” e o conceito do “capitalismo de extinção”. Uma democracia que não nega a crise climática, mas a administra como variável secundária. Que reconhece formalmente direitos ambientais, mas os subordina à lógica da segurança energética, da competitividade e da estabilidade fiscal. Que mantém eleições, cortes e parlamentos funcionando, mas desloca as decisões estruturais para arenas tecnocráticas, financeiras ou militares, opacas ao controle popular.
Capitalismo de extinção é o estágio avançado e terminal do capitalismo contemporâneo no qual a lógica de acumulação deixa de produzir desenvolvimento social ou progresso humano e passa a operar, de forma estrutural, como um regime de gestão da morte, do colapso ecológico e da indiferença institucional.
Nesse modelo, a destruição ambiental, o esgotamento dos bens comuns, a precarização da vida, a guerra e a intensificação das crises climáticas não são externalidades nem falhas do sistema, mas condições funcionais para a continuidade da acumulação econômica e do poder político. O colapso deixa de ser exceção e se converte em mecanismo de governança.
O capitalismo de extinção caracteriza-se por:
1. Normalização da catástrofe
Eventos extremos, crises climáticas, deslocamentos forçados e perdas humanas são incorporados ao cálculo econômico e tratados como “riscos administráveis”, não como violações éticas ou jurídicas.
2. Financeirização da destruição
A crise ambiental torna-se ativo econômico: seguros climáticos, mercados de carbono disfuncionais, especulação com escassez, mineração predatória e extração de terras raras convertem a devastação em oportunidade de lucro.
3. Indiferença democrática
As democracias constitucionais mantêm suas formas procedimentais, mas falham estruturalmente em proteger o futuro, os vulneráveis e as gerações futuras. A omissão estatal torna-se politicamente aceitável e juridicamente naturalizada.
4. Colonialismo climático e geopolítico
Os custos ambientais e humanos são deslocados para o Sul Global, povos indígenas e territórios periféricos, enquanto os centros de poder preservam estabilidade, consumo e segurança energética.
5. Captura tecnológica e algorítmica
A promessa de soluções tecnológicas — IA, transição “verde” sem ruptura, eficiência de mercado — funciona como retórica de adiamento, obscurecendo a continuidade do modelo extrativista.
6. Suspensão ética do futuro
O direito das gerações futuras, da natureza e das crianças que ainda não nasceram é sistematicamente sacrificado em nome da estabilidade econômica de curto prazo. Neste contexto a guerra e sua dor é só um risco teórico econômico.
A crise da dívida estadunidense e a geopolítica das terras raras operada por TRUMP revelam, assim, um padrao do capitalismo de extinção: o futuro é continuamente hipotecado em nome da governabilidade presente. As gerações futuras aparecem apenas como abstração retórica, jamais como sujeitos de direito efetivo. O clima, por sua vez, é tratado como risco econômico, não como limite normativo. Limite a própria vida de humanos e não humanos.
Essa arquitetura produz uma forma específica de injustiça intergeracional. Não se trata apenas de transferir custos ambientais para o amanhã, mas de restringir deliberadamente o espaço democrático das gerações futuras, que herdarão Estados mais endividados, ecossistemas degradados e margens políticas reduzidas. E quem sabe herdarão a própria democracia morta e disfuncional que hoje vemos operar nos EUA.
A dívida financeira e a dívida ecológica passam a operar de modo sinérgico e perigoso para nossas democracias.
O mais inquietante, contudo, é que esse processo ocorre sem ruptura explícita. Não há golpe, não há suspensão formal da Constituição, não há declaração de exceção. Há apenas uma sucessão de decisões “necessárias”, “técnicas” e “inevitáveis”. A exceção torna-se rotina; o colapso, gestão. Algo muito parecido com o famoso livro de Franz Newman “Behemoth” e que irei explorar em um artigo na sequência, e que descreve o funcionamento estatal e jurídico do Terceiro Reich. Tão perigosamente similar ao que Trump 2.0 implementa a passos largos.
A democracia, nesse cenário, não é destruída — ela é esvaziada. Continua existindo como forma, mas perde densidade ética e capacidade transformadora. Torna-se funcional ao que chamo de capitalismo de extinção: um sistema que sobrevive produzindo inviabilidade ecológica e política. Quando não guerras!
Este texto não propõe soluções confortáveis nem reconciliações fáceis. Ele se apresenta como um alerta normativo diante de um tempo em que a democracia aprendeu a conviver com a catástrofe. Enquanto a transição climática for enquadrada como oportunidade de mercado e não como exigência de justiça histórica e intergeracional; enquanto a dívida pública for administrada como instrumento de disciplina geopolítica e não como problema de legitimidade democrática; enquanto territórios, corpos e recursos naturais forem tratados como ativos estratégicos e não como bens comuns da humanidade, a democracia seguirá existindo em sua forma procedimental, mas esvaziada de responsabilidade moral e de compromisso com o futuro.
Luciana Bauer é Doutora em Direito pelas universidades de Delaware/USA e Univali/Brasil. Fundadora do coletivo Climático Jusclima e do Agnelli & Bauer Advocacy. Autora de A Democracia Indiferente e A Norma Climática
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