Em Davos, a China se apresenta como âncora de estabilidade frente à retórica de fragmentação Ocidental
por Samuel Spellmann
Na Suíça, o tom prevalente do Fórum de Davos deste ano foi marcado pelos pronunciamentos do presidente francês Emmanuel Macron e do Primeiro-ministro canadense Mark Carney. Convergiram em uma crítica severa à ruptura unilateral da ordem internacional e ao uso coercitivo do poder económico por parte de Washington.
Enquanto líderes ocidentais delineavam defesas de suas posições, a mensagem do Vice-Premiê chinês, He Lifeng, surgiu como um contraponto propositivo. O que se viu não foi apenas um choque de discursos, mas a encenação de uma transição de poder em andamento, onde as novas instituições multilaterais gestadas pelos países em desenvolvimento foram promovidas como peças-chave de uma nova arquitetura mundial.
Entrementes, Macron denunciou um “mundo sem regras”, dirigindo sua crítica mais severa aos Estados Unidos e sua política de coerção, que ameaça a soberania europeia. Paralelamente, alertou que as “capacidades em excesso” da China distorcem o comércio. Sua resposta foi um chamado urgente a uma “soberania europeia” baseada em proteção e inovação. O alinhamento histórico do bloco europeu parece buscar um horizonte perante o ataque à soberania europeia representado pela tentativa americana de anexação da Groenlândia.
O primeiro-ministro canadense Mark Carney diagnosticou uma “ruptura” da ordem liderada pelos EUA, onde a “ficção útil” das regras acabou e a integração econômica virou arma. Para potências médias, a velha lógica tornou-se fonte de “subordinação”. Sua estratégia, portanto, é buscar autonomia e diversificar parcerias para não ficar “no cardápio”.
Para potências médias como o Canadá, a velha lógica de integração tornou-se fonte de “subordinação”. Sua conclusão foi um alerta famoso: “se você não está à mesa, está no cardápio”. A estratégia canadense, portanto, projeta para o país certo novo realismo, buscando construir autonomia estratégica e diversificar rapidamente suas parcerias, inclusive com a China.
A mensagem central do representante chinês foi a de oportunidade compartilhada e crescimento mútuo. Ele afirmou categoricamente que o desenvolvimento da China “é uma oportunidade, não uma ameaça, para a economia global”. Seu discurso enfatizou os princípios de “igualdade, benefício mútuo e resolução de questões por meio de consultas”, posicionando o país como uma força para a criação de resultados “ganha-ganha”.
Essa postura foi reforçada por um compromisso reiterado com a abertura de novos mercados, prometendo alinhar-se com altos padrões internacionais de comércio e assegurar tratamento igual para empresas nacionais e estrangeiras. Diante de um panorama global volátil, a narrativa chinesa, conforme apresentada por He Lifeng, foi a de um parceiro confiável e previsível, disposto a usar as vantagens de seu vasto mercado para compartilhar oportunidades com o mundo.
A mensagem de Pequim, portanto, operou como contraponto discursivo parcial aos posicionamentos de líderes ocidentais no evento. Ao ressaltar a estabilidade e construção institucional no globo, o ministro chinês destacou as novas instituições do BRICS+ como possibilidades de construção conjunta de um arranjo multilateral de desenvolvimento.
Ao mesmo tempo, a fala de He Lifeng ressaltou o crescimento das capacidades da China, relembrando a sua nova estatura geopolítica global. Ganharam espaço o crescimento de 5% da economia chinesa em 2025 e no compromisso formal com altos padrões internacionais de comércio. Em especial, o vice-ministro apresentou o vasto mercado chinês como uma oportunidade compartilhada de desenvolvimento através do crescimento do mercado global, materializando assim a retórica da multipolaridade com uma promessa de ganhos tangíveis.
A justaposição de visões consolida o reconhecimento do cenário de multipolaridade global, agora assumida discursivamente por países centrais do capitalismo. De um lado observou-se um Ocidente que, através de Macron e Carney, demonstrava um misto de resistência e adaptação, buscando fortificar sua soberania e reafirmar suas alianças históricas. De outro, uma China que se projeta como a potência construtora de um futuro compartilhado, multilateral, oferecendo um caminho institucional para aqueles que buscam alternativas ao sistema centrado no dólar.
A não-oposição à ordem vigente calcifica a interpretação chinesa de aversão ao confronto direto por parte da China. Em vez disso, o país busca uma reconfiguração gradual do sistema a partir de dentro, promovendo suas próprias instituições e padrões como alternativas mais atrativas, sem desencadear uma reação defensiva imediata das potências tradicionais.
Nas entrelinhas, o que se testemunha é a construção ativa de uma multipolaridade prática, conectada diretamente à dinâmica geofinanceira atual. O “Espírito de Davos” sobreviveu, mas revelou um mundo profundamente dividido sobre os fundamentos mesmos da próxima ordem global, negociando seus termos não em consenso, mas no palco competitivo das narrativas e das instituições rivais.
Samuel Spellmann – Doutorando em Relações Internacionais pela PUC Minas, professor e Coordenador do Curso de Especialização em China Contemporânea, na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). É pesquisador do China Working Group – International Initiative for Promoting Political Economy (IIPPE), School of African and Oriental Studies, University of London (IIPPE, SOAS).
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