O chocolate vai continuar caro…, por Felipe Bueno
…e os vinhos, os presuntos, e tantas outras coisas com as quais aqui nos deleitamos ou ao menos em algum momento sonhamos, traficantes de pequenos prazeres que somos, quando e se temos a oportunidade de viajar para a Europa. As contas políticas no Velho Continente deram uma guinada, os contras de repente se tornaram minoria e, voilà, o acordo com o Mercosul foi aprovado. Rojões soltos, papéis assinados, é importante dizer que na prática, pouca coisa ainda vai mudar.
Mas existe um valor simbólico do apertar de mãos transatlântico, e isso não deve ser subestimado.
Os tempos são outros: uma mudança de paradigma se desenha, algo que não acontece do dia para noite. A quem enxerga apenas uma tentativa da América do Sul de sobreviver, manter e ampliar mercados para suas commodities, pode-se responder algo que seria impensável dez ou vinte anos atrás: num mundo em que vale a Doutrina Donroe, a busca pela existência, pela relevância comercial e política, não é exclusividade nossa. Ou seja, o outro lado do acordo também está igualmente em busca de oxigênio.
Com um pouco de otimismo, vamos admitir que para a América do Sul – Brasil em particular – o acordo representa um manifesto de mínima autonomia num momento em que tal ousadia é tão necessária quanto perigosa. Afinal, Donald Trump está em escuta permanente, pronto para taxar a sua opinião, a sua posição sobre os grandes temas geopolíticos do momento, como fez na semana passada ao anunciar tarifas adicionais para nações cujos líderes reprovam a invasão dos Estados Unidos à Groenlândia.
Para a Europa também, apesar dos contras locais, o acordo diz ao restante do mundo que o Velho Continente sim, se dá conta da perda de sua relevância e, assustado, busca em antigos parceiros (colônias) um sinal de existência econômica e política.
Mercosul e União Europeia à parte, a união entre essas duas peças nem começou de fato e já é desafiada a sobreviver à prova do tempo. A Europa tem uma pendência urgente a resolver, a questão entre Ucrânia e Rússia, e sabe que não pode abrir mão do apoio militar dos Estados Unidos, no âmbito da OTAN.
Por outro lado, a América do Sul – novamente, Brasil em especial – não pode e não deve abrir mão das relações comerciais que tem com a China. Isso, nos tempos atuais, é uma garantia de proteção. Por outro lado, garante também que Donald Trump e seu séquito podem a qualquer momento bater à sua porta.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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