O Comitê
por Felipe Bueno
A nação estava dividida: até que ponto o Estado, para além da legislação existente, teria o direito e o dever de censurar, e mais, tirar obras de circulação?
Publicações generalistas e específicas entraram no alvo das autoridades, incendiadas pela opinião pública; assuntos que estavam nas mentes e nas bocas de uns e outras eram considerados inadequados, até obscenos. A polarização se tornava mais intensa quando se tratava de potenciais ameaças aos hábitos, costumes e tradições, e mais ainda quando havia suposto risco para o futuro das crianças.
Era uma questão não apenas legal, mas moral.
Tanto palavras como imagens eram motivos para o clamor por intervenção e censura do Estado. O atual status, recém-estabelecido, era pressionado para intervir em nome do bem.
A opinião pública convenceu o governo: criou-se um comitê, composto por leigos e religiosos, com o propósito de analisar a situação e decidir se os braços do Estado poderiam se esticar mais e mais até alcançar e silenciar as vozes que incomodavam.
A aparente distopia acima não é roteiro barato, cópia miserável de 451 Fahrenheit, Nós ou 1984. Daqui do alto do século XXI olhamos para trás e vemos que isso de fato já aconteceu.
Cem anos atrás, em fevereiro de 1926, a Irlanda recém iniciava seu caminho para a sua independência da Inglaterra. O longo processo incluiu, em páginas esquecidas de seus primeiros capítulos, a formação de um Comitê Sobre a Literatura do Mal (Committee on Evil Literature), ação liderada pelo Departamento de Justiça do país que buscava sua liberdade sem perder de vista a repressão a palavras que pudessem incomodar.
Por quase um ano, seus integrantes se reuniram, ouvindo sugestões e denúncias. O veredito foi dado em dezembro: as leis não eram suficientes. Era necessária uma legislação mais rígida. Era necessária a censura.
De 1926 para cá, os rumos do mundo mudaram várias vezes; manteve-se, no entanto, a interminável busca pelo estabelecimento de limites justos para a liberdade individual em nome do soberano.
O caso da jovem Irlanda livre é um bom exemplo, de um passado não muito distante.
E vale reforçar, caso você tenha se esquecido: isso realmente aconteceu.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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