O Colapso Silencioso da Democracia Americana
por Celso P. de Melo
A morte da democracia não vem em um único golpe,
mas por erosões cotidianas. – Hannah Arendt
Os EUA chegam a 2026 sob uma erosão democrática que avança por dentro das instituições, não contra elas. A “trumpinização” é um modo de corrosão legalista, incremental, planejado e meticulosamente conduzido, ao combinar o Project 2025, voltado a reaparelhar o Estado, com o Project Esther, que mobiliza bases religiosas numa guerra cultural permanente. Sua lógica central é redefinir quem pertence à nação e quem será tratado como inimigo, convertendo o medo e a divisão em método de governo.
Esse processo combina três eixos: captura institucional, militarização da política interna e guerra cultural permanente. Sua lógica é simples e brutal: transformar todas as esferas da vida pública – da educação à ciência, da burocracia à religião – em mecanismos de alinhamento incondicional ao movimento trumpista. O que se busca, em última instância, é impor ao Estado e à sociedade uma lealdade política contínua e vigilante.
No campo jurídico, a Suprema Corte conservadora reverte precedentes históricos e redesenha o tabuleiro constitucional. A reativação e ampliação da chamada Classificação F, criada por Trump em 2020, permite substituir servidores de carreira por nomeados políticos, desmontando um século de profissionalização administrativa e convertendo a burocracia em instrumento de obediência pessoal ao governante.
O aparelhamento também alcança a sociedade civil, com igrejas transformadas em polos de mobilização política. O Project Esther mistura teologia apocalíptica e fidelidade partidária, alimentando uma visão moral absolutista que substitui o pluralismo por uma cruzada, na qual Trump é apresentado não apenas como líder político, mas como figura providencial – alguém visto como instrumento escolhido por Deus para cumprir um papel histórico e restaurar a ordem moral do país.
Igualmente grave é a militarização crescente. Ao redefinir o Departamento de Defesa como ‘Departamento da Guerra’ e treinar tropas para agir contra supostos ‘inimigos internos’, o governo resgata a lógica da Doutrina de Segurança Nacional das ditaduras do Cone Sul, quando estudantes, jornalistas, sindicalistas e opositores em geral eram classificados como subversivos.
Desde a derrota republicana nas eleições legislativas de meio de mandato de 2022, intensificaram-se a contestação preventiva dos resultados e a pressão sobre as autoridades estaduais. Estados republicanos aprovaram regras restritivas e expurgos eleitorais que afetam sobretudo negros e latinos, enquanto softwares de modelagem produzem gerrymandering preciso, ou seja, o redesenho de distritos eleitorais para garantir uma maioria legislativa mesmo que baseada em menor número de votos – estratégia semelhante à usada por Orbán ao reconfigurar o sistema húngaro para bloquear a alternância.
Esse rearranjo institucional é acompanhado por um discurso racial disfarçado de tecnicalidade e por uma expansão contínua do aparato coercitivo. Embora as políticas repressivas tenham historicamente visado sobretudo latinos, caribenhos e muçulmanos, a atuação recente de agentes federais de imigração em Minneapolis levou à morte de dois cidadãos americanos brancos em pouco mais de duas semanas, em operações contra imigrantes e em protestos contra essas ações. O sinal é inequívoco: a violência estatal deixa de ser apenas seletiva e passa a atingir também quem desafia publicamente o ordenamento repressivo em consolidação. Em paralelo, a política de refugiados passou a privilegiar grupos “culturalmente assimiláveis”, como agricultores brancos sul-africanos, reafirmando critérios racializados de pertencimento nacional.
Nesse mesmo ambiente de radicalização, o negacionismo científico aprofunda a corrosão institucional. A retórica antivacina e o descrédito ao CDC e à FDA, agências de controle da saúde e dos medicamentos, fragilizam a saúde pública. No campo ambiental, normas antipoluição foram desmontadas e áreas antes protegidas abertas à exploração, comprometendo a transição energética. A potência que um dia liderou acordos climáticos agora se coloca como seu principal sabotador – e, com isso, perde não apenas influência geopolítica, mas legitimidade moral perante o próprio Ocidente.
A convergência entre militarização, manipulação eleitoral, captura burocrática e guerra cultural compõe um movimento que se aproxima mais de uma democracia iliberal competitiva do que de um sistema democrático clássico: eleições continuam, mas sem competição real; instituições persistem, mas servem à facção dominante.
O impacto extrapola o território norte-americano. Uma potência em declínio normativo, politicamente instável e militarmente agressiva projeta turbulência no sistema internacional como um todo. Na ausência de um ator hegemônico comprometido com o multilateralismo, organismos internacionais tornam-se suscetíveis à instrumentalização; disputas geopolíticas endurecem; alianças tradicionais se fragilizam; respostas globais a crises sanitárias, climáticas e humanitárias perdem coordenação. Rivais estratégicos – como a China, a Rússia e o Irã – exploram esse vácuo, enquanto aliados europeus enfrentam dilemas inéditos: como conciliar dependência militar com divergência moral?
No Sul Global, o quadro também se tensiona. De um lado, crescem pressões bilaterais, sanções seletivas, intervenções por procuração e tentativas de controlar cadeias de suprimento estratégicas – sobretudo os recursos naturais e minerais críticos, além de energia. A recente escalada de coerção diplomático-militar sobre a Venezuela, combinada ao anúncio de uma nova doutrina de segurança hemisférica que explicita disposição para “ações preventivas” no entorno estratégico dos EUA, reforça a percepção de um retorno à lógica tutelar da Guerra Fria, elevando tensões regionais e ampliando a vulnerabilidade de países com menor capacidade de dissuasão.
De outro lado, abre-se espaço para maior autonomia relativa. A ascensão econômica e tecnológica chinesa – em contraste com a estagnação norte-americana acentuada pelo desmonte científico e institucional – reconfigura silenciosamente o equilíbrio global. Os BRICS ampliados consolidam mecanismos financeiros e diplomáticos alternativos, oferecendo ao Sul Global novas margens de manobra.
Nesse contexto, o Brasil ocupa posição singular: tem escala, capacidade diplomática e legitimidade para atuar como ponte entre blocos, defender uma ordem multipolar e ampliar a cooperação Sul–Sul em energia, tecnologia e desenvolvimento sustentável. Enquanto um EUA trumpinizado poderia ver nesse movimento um desafio direto à sua primazia, para preservar sua autonomia estratégica, o Brasil precisa fortalecer suas instituições democráticas e consolidar suas alianças em uma disputa global cada vez mais polarizada.
No cerne dessa transformação está a possibilidade – muito concreta – de que os EUA deixem de ser um sistema de alternância estável. As eleições legislativas de novembro de 2026 são decisivas porque definem a composição da Câmara e de um terço do Senado, podendo consolidar maiorias capazes de bloquear, investigar ou, ao contrário, legitimar e aprofundar a agenda de captura institucional. Sem um Congresso minimamente plural, desaparece um dos últimos freios formais ao Executivo. A mudança pacífica do poder, fundamento normativo de qualquer democracia, depende de eleições competitivas, de instituições neutras e do respeito às regras do jogo. Quando um movimento político captura o Judiciário, subjuga a burocracia, intimida a imprensa, manipula os distritos eleitorais e mobiliza forças armadas contra adversários internos, o que se instala não é democracia, mas uma forma de autocracia plebiscitária. Os sinais já são claros: o trumpismo não aceita derrota, busca neutralizar críticos e produz um ambiente em que o medo do outro, da mudança e da diversidade funciona como instrumento de governo.
Como já havia alertado George Washington, em seu discurso de despedida (1796), a maior ameaça às repúblicas não vem de fora, mas de líderes dispostos a manipular instituições e paixões populares em benefício próprio.
A história mostra que histerias políticas, como o macarthismo, só recuam quando confrontadas por instituições robustas. Se o trumpismo completar seu ciclo, a democracia americana poderá sobreviver apenas como simulacro – e o mundo terá de reorganizar-se sem a centralidade que os EUA reivindicaram por tanto tempo.
Celso P. de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.
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