20 de maio de 2026

Do Plano de Metas às Missões do Século XXI, por Celso P. de Melo

O Brasil volta a discutir planejamento estratégico, agora sob a forma de missões nacionais em inovação, educação e desenvolvimento

O Plano de Metas de JK (1956–1961) usou Grupos de Trabalho para coordenar ministérios, empresas e financiamento público.
Missões do século XXI enfrentam problemas complexos e exigem coordenação política forte, tecnologia e educação estratégica.
Empresas participam desde o início sob regras públicas, com inovação como infraestrutura transversal das missões nacionais.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Do Plano de Metas às Missões do Século XXI

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Estado, tecnologia e empresas em um novo projeto nacional

por Celso Pinto de Melo

“Temos uma enorme capacidade criadora que é sistematicamente frustrada”
Darcy Ribeiro, A Universidade Necessária [1]

Quando se observa a rapidez e a coerência com que o Brasil executou o Plano de Metas (1956–1961), um elemento institucional costuma ficar em segundo plano no debate atual: os Grupos de Trabalho (GTs) criados no governo de Juscelino Kubitschek. Eles não eram comissões decorativas, mas núcleos técnico-políticos com capacidade real de coordenação, vinculados diretamente à Presidência da República, capazes de integrar ministérios, empresas estatais, financiamento público e execução. Esse arranjo institucional foi decisivo para transformar um programa desenvolvimentista em energia, indústria, infraestrutura e capacidade produtiva concreta  [2].

Essa leitura se conecta diretamente com a análise recente de Luís Nassif, que, ao revisitar o Plano de Metas de JK em contraste com o New Deal de Roosevelt, enfatiza que seu êxito não decorreu da criação de novas instituições, mas da capacidade política de coordenar estruturas já existentes, articulando bancos públicos, ministérios, empresas e técnicos sob um centro decisório claro. Como observa Nassif, tratou-se menos de um elenco de obras e mais de um método de governo, baseado em metas finitas, crédito direcionado e resolução política de conflitos no núcleo do Executivo – uma lição particularmente atual para o debate contemporâneo sobre missões nacionais e coordenação estatal no século XXI.

Décadas depois, o Brasil volta a discutir planejamento estratégico, agora sob a forma de missões nacionais em inovação, educação e desenvolvimento [3]. A pergunta central, no entanto, não é se devemos planejar, mas como atualizar esse modelo para um Estado democrático, digital e baseado em conhecimento, sem recair nem no tecnocratismo do passado nem no improviso do presente.

A primeira mudança é conceitual. Nos anos 1950, os GTs estavam organizados em torno de setores e gargalos materiais bem definidos. As missões do século XXI lidam com problemas complexos e sistêmicos: transição energética justa, soberania em saúde, educação científica, soberania digital, bioeconomia e reindustrialização, entre outros. Isso implica abandonar a lógica setorial clássica e adotar uma lógica orientada a problemas, como tem sido defendido no debate internacional sobre políticas orientadas por missões [4]. Um GT de Missão não substitui ministérios nem agências; ele existe para alinhar políticas públicas, ciência, educação, financiamento e produção em torno de objetivos claros e socialmente legitimados.

A lição de JK, contudo, permanece intacta: sem coordenação forte no centro do governo, a fragmentação administrativa tende a prevalecer. Por isso, missões só funcionam se estiverem vinculadas diretamente à Presidência ou à Casa Civil, com direção política inequívoca e uma coordenação técnica executiva profissionalizada. A execução, por sua vez, deve ser distribuída e articulada por meio de instituições já existentes – como o BNDES, a FINEP, a EMBRAPII, a CAPES e o CNPq – e de instrumentos estruturantes de financiamento, como o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), todos operando sob uma estratégia comum. O papel do GT não é operar editais isolados, mas prover coerência temporal, metas verificáveis e critérios públicos de avaliação à ação do Estado.

Aqui surge uma diferença decisiva em relação aos anos 1950: a educação deixa de ser um pano de fundo e passa a constituir infraestrutura estratégica da própria missão. Não há transição energética, soberania digital ou complexo econômico-industrial da saúde sem formação técnica, científica e docente acumulada ao longo do tempo. Esse argumento é desenvolvido de forma sistemática em duas Notas Técnicas recentes: “Brasil: do arquipélago ao continente – além do modelo linear de inovação” [3] e “Educação como Missão Nacional (2027–2050)” [5]. Ambas convergem na mesma constatação: políticas de desenvolvimento fracassam quando ignoram a dimensão cognitiva, institucional e intergeracional da formação de capacidades.

O que torna esse modelo viável hoje – e não o tornava no tempo de JK – é a disponibilidade de novas ferramentas tecnológicas de coordenação e governança. Plataformas interoperáveis de dados públicos, identidade digital segura, compras públicas digitais e rastreáveis, painéis de acompanhamento em tempo quase real e mecanismos de participação qualificada permitem algo inédito: coordenação central forte sem autoritarismo, combinando eficiência administrativa, transparência e controle democrático [6]. A tecnologia, aqui, não substitui a política; ela a torna exequível.

O exemplo mais didático é o da Estônia, frequentemente associado ao projeto e-Estonia. Ali, a digitalização do Estado não foi tratada simplesmente como modernização administrativa, mas sim como infraestrutura nacional, comparável à energia ou aos transportes. A adoção de identidade digital universal, a interoperabilidade obrigatória entre sistemas públicos e o princípio do once only – pelo qual o Estado não pode solicitar duas vezes a mesma informação ao cidadão – ampliaram a capacidade de ação estatal, reduziram custos, fortaleceram a confiança pública e criaram um ecossistema favorável à inovação privada [7, 8]. A lição é clara: digitalizar o Estado é ampliar sua soberania funcional, não reduzi-la.

Essa perspectiva ajuda a responder a uma questão recorrente no debate sobre missões: qual deve ser o papel das empresas e do setor produtivo? Parceiros meramente executores, chamados apenas na fase final, ou participantes ativos desde o nascedouro? A experiência histórica e comparada sugere que nenhum dos extremos funciona. Quando empresas entram apenas ao final do processo, a inovação tende a ser superficial e o aprendizado produtivo, limitado. Quando passam a definir sozinhas a agenda desde o início, o risco é a subordinação das prioridades públicas a interesses privados de curto prazo, fenômeno amplamente documentado na literatura sobre mal-sucedidas políticas industriais [9].

O modelo mais consistente é o das empresas como participantes ativos desde o início, mas sob regras públicas claras. Elas contribuem com conhecimento tecnológico aplicado, capacidade de engenharia, avaliação de viabilidade produtiva, domínio de processos industriais e potencial de escala, enquanto o problema a ser resolvido – transição energética, soberania em saúde, educação científica, infraestrutura digital – é definido politicamente e legitimado socialmente. Missões verdadeiras envolvem risco e incerteza; por isso, exigem compartilhamento de riscos, contrapartidas verificáveis, compromissos de formação de pessoal, difusão tecnológica e reinvestimento produtivo. Sem isso, não há parceria; há apenas transferência de recursos [10].

É nesse ponto que as ferramentas do século XXI fazem diferença. Compras públicas de inovação, encomendas tecnológicas e acompanhamento digital por marcos tecnológicos permitem que empresas participem desde o início, sem comprometer a autonomia decisória do Estado. No caso estoniano, empresas privadas ajudaram a construir o Estado digital, mas dentro de uma arquitetura pública interoperável, com padrões abertos e com o Estado atuando como guardião dos dados e do interesse coletivo [8].

Nesse enquadramento, a inovação precisa ser recolocada em seu devido lugar. Mais produtivo do que tratá-la como uma missão genérica adicional é compreendê-la como uma capacidade transversal, uma ferramenta habilitadora que atravessa todas as missões nacionais. Nas missões discutidas nas Notas Técnicas – da educação como infraestrutura cognitiva à reorganização da inovação, passando pela saúde, pela transição digital e pela economia de baixo carbono – a inovação aparece como meio operativo, na articulação entre ciência e engenharia, na superação dos gargalos entre pesquisa e escala produtiva, no uso intensivo de dados, plataformas digitais, inteligência artificial e manufatura avançada, e na capacidade de transformar políticas públicas e compras governamentais em motores permanentes de aprendizado tecnológico [3, 5]. Inovar, nesse sentido, não é estimular criatividade de forma abstrata, mas organizar sistemas de produção, uso e difusão tecnológica orientados por problemas nacionais concretos. A inovação deixa de ser um slogan e passa a funcionar como infraestrutura invisível das missões.

A atualização do legado dos GTs de JK como missões modernas, digitalmente estruturadas, não é nostalgia desenvolvimentista nem fetiche tecnológico. É reconhecer que, em um mundo complexo e acelerado, o Estado precisa recuperar capacidade de coordenação, aprendizado e correção de rumos em tempo real. O desafio contemporâneo não é apenas crescer, mas sim decidir coletivamente o destino da tecnologia, do investimento e do conhecimento.

Ontem, Juscelino Kubitschek demonstrou que o Brasil era capaz de planejar, decidir e executar, transformando o projeto em infraestrutura e a intenção em capacidade produtiva. Hoje, o desafio é mais complexo – e mais decisivo: provar que o país pode planejar o futuro, aprender continuamente e inovar com direção, articulando Estado, empresas e sociedade em torno de missões claras, socialmente legitimadas e orientadas ao bem comum. Sem isso, restam apenas iniciativas dispersas e promessas vazias. Com isso, torna-se novamente possível falar em projeto nacional – não como retórica, mas como escolha política.

Bibliografia

1.    Ribeiro, D., A Universidade Necessária. 1975, Rio de Janeiro: Paz e Terra.

2.    Lafer, C., JK e o Programa de Metas (1956–1961): processo de planejamento e sistema político no Brasil. 2002: Fundação Getulio Vargas.

3.    de Melo, C.P., Brasil: do arquipélago ao continente – além do modelo linear de inovação: missões nacionais e soberania tecnológica (2027–2050). 2025, Nota Técnica.

4.    Mazzucato, M., Mission Economy: A Moonshot Guide to Changing Capitalism. 2021: Allen Lane.

5.    de Melo, C.P., Educação como Missão Nacional: equidade, capacidades e futuro comum no Brasil (2027–2050). 2026, Nota Técnica. https://blogdecelsopdemelo.wordpress.com/2025/12/22/22-12-2025-brasil-do-arquipelago-ao-continente/

6.    Organisation for Economic, C.-o. and Development, Government at a Glance 2023. 2023, OECD Publishing: Paris.

7.    Kalvet, T., Innovation: A Factor Explaining E-government Success in Estonia. Electronic Government, an International Journal, 2012. 9(2): p. 142–157.

8.    Vassil, K., Estonian E-government Ecosystem: Foundation, Applications, Outcomes. 2015, World Bank.

9.    Amsden, A.H., The Rise of “The Rest”: Challenges to the West from Late-Industrializing Economies. 2001: Oxford University Press.

10.  Mazzucato, M., The Entrepreneurial State: Debunking Public vs. Private Sector Myths. 2018: Penguin.


Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Celso Pinto de Melo

Doutor em Física (UCSB, 1980), mestre em Física (1975) e engenheiro químico (1973) pela UFPE, é Professor Titular aposentado da UFPE e Pesquisador 1-A do CNPq. Atuou como Fulbright Senior Scholar no MIT (1986–1987). Lidera pesquisas em polímeros condutores, transporte em filmes finos e nanocompósitos aplicados à interface com sistemas biológicos e sensores. É autor de mais de 160 artigos e diversas patentes nacionais e internacionais, e orientou mais de 60 alunos de pós-graduação. Foi presidente da Sociedade Brasileira de Física (2009–2013), vice-presidente e conselheiro da SBPC, além de diretor do CNPq e pró-reitor da UFPE. Membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Pernambucana de Ciências. Recebeu a Comenda (2002) e a Grã-Cruz (2009) da Ordem Nacional do Mérito Científico, além da Ordem de Rio Branco (2007), por suas contribuições às ciências físicas no Brasil.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Gaspar

    3 de fevereiro de 2026 9:59 am

    Além de coragem, precisamos de inteligência e pesquisa sério. O público e notório não existe uma mentalidade de sequência governamental. A vaidade, o clientelismo, burocracia e ausência de manutenção no meu entender fórmula o descrédito de qualquer plano.

Recomendados para você

Recomendados