21 de maio de 2026

Quando a realidade vira inimiga (II), por Celso Pinto de Melo

Quando o desprezo pela evidência deixa de ser retórica e passa a orientar decisões administrativas, prioridades públicas e o orçamento.

O orçamento federal dos EUA para 2026 propõe cortes significativos em agências científicas como NIH, NSF e CDC.
O negacionismo trumpista ataca energias renováveis, distorce incertezas e bloqueia políticas climáticas e de inovação.
No Brasil, discurso negacionista influenciou aumento do desmatamento e resistência a políticas ambientais e de saúde.

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Quando a realidade vira inimiga (II): Ciência sob ataque e o custo político do negacionismo

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Como a mentira vira método — e o orçamento vira arma

por Celso Pinto de Melo

“A liberdade de opinião é uma farsa
se a informação sobre os fatos não é garantida.” Hannah Arendt [1]

Na primeira parte desta série, discuti como o trumpismo construiu um ecossistema informacional em que fatos científicos passam a valer menos do que lealdades políticas – e em que a desinformação deixa de ser ruído para virar método, sustentada por plataformas digitais, incentivos algorítmicos e ataques permanentes às instâncias de mediação [2].

Nesta segunda parte, avanço para um patamar mais grave: quando esse desprezo pela evidência deixa de ser retórica e passa a orientar decisões administrativas, prioridades públicas e, sobretudo, o orçamento. Em outras palavras: quando a guerra cultural deixa de ser teatro e vira infraestrutura de governo.

Quando o orçamento vira arma

A evolução recente do orçamento federal destinado à ciência e à saúde nos EUA sugere que o negacionismo MAGA não é apenas performático – ele tende a se consolidar como diretriz administrativa. Quando a realidade insiste em contradizer o discurso, a resposta não é corrigi-lo, mas enfraquecer as instituições capazes de tornar a contradição visível.

Ao longo das duas últimas décadas, os orçamentos do NIH, NSF, CDC e setores científicos da NASA apresentam uma trajetória relativamente consistente de fortalecimento do sistema científico americano, com oscilações pontuais associadas a ciclos econômicos e crises. Essa tendência se mantém, inclusive após a pandemia, quando a centralidade da ciência biomédica e da saúde pública se tornou inescapável.

Mas o pedido orçamentário do Executivo para o ano fiscal de 2026 marca uma inflexão abrupta: em dólares constantes, os cortes propostos reduzem simultaneamente os recursos das principais agências civis a patamares próximos – e, em alguns casos, inferiores – aos do início da década de 2010 [3, 4].

Esse gráfico é mais do que um registro contábil: é um documento político. Ele sinaliza uma ruptura coordenada, não um ajuste técnico: menos ciência básica, menos saúde pública, menos capacidade regulatória – portanto, menos mediações institucionais entre o poder político e a realidade empírica.

Essa leitura não é isolada. Em janeiro de 2026, um especial imersivo da revista Nature reuniu evidências sobre cancelamentos, congelamentos e suspensões de milhares de bolsas e financiamentos, além de intervenções explícitas em prioridades de pesquisa e degradação operacional de agências estratégicas – corroborando que o desmonte não é episódico, mas estrutural [5].

Mesmo que o Congresso não aprove integralmente o pacote, a mensagem já está dada: produzir instabilidade, interromper programas e corroer capacidades estratégicas. Cortar orçamento, aqui, é neutralizar instituições.

Renováveis sob fogo: o ataque ao futuro

A negação da ciência climática articula-se com outro eixo central do trumpismo: o ataque às energias renováveis, avançando para o terreno do absurdo ao declarar que “ninguém sabe o que é um ímã”, ao comentar o uso de terras raras em tecnologias modernas.

Ao mesmo tempo, incertezas reais são distorcidas até virar munição ideológica, bloqueando o debate racional e substituindo políticas energéticas por uma guerra cultural contra o futuro.

Frases de efeito – turbinas que “causam câncer”, eólicas que “matam baleias”, carros elétricos como “fracassos dispendiosos” – não são apenas grotescas. Elas cumprem uma função política: transformar inovação em suspeita, engenharia em fraude e ciência em opinião.

COVID: quando a fantasia mata

A pandemia revelou a face mais letal desse mecanismo.

Em fevereiro de 2020, Trump afirmou que a COVID “desapareceria como um milagre”, em choque frontal com a evidência epidemiológica acumulada. Em abril, ele especulou sobre “injeção de desinfetante” ou “luz interna”, levando fabricantes e autoridades a emitir alertas formais contra intoxicações graves. Nos meses seguintes, promoveu a hidroxicloroquina como “virada de jogo”, apesar da ausência de evidências de benefício clínico e dos riscos associados.

Autoridades médicas que insistiram nas boas práticas internacionais viraram alvo de ataques e de teorias conspiratórias. A mensagem implícita tornou-se cristalina: insistir em fatos tem custo político.

Vacinas e paranoia: a fábrica da suspeita

O ataque continuou com as vacinas.

Trump cultivou, por anos, insinuações sobre a vacinação e o autismo, apesar de revisões científicas sucessivas terem derrubado essa associação. Ao legitimar líderes antivacina, ampliou o terreno conspiratório como ativo político.

O método é recorrente: misturar incerteza científica real com alarmismo fabricado; chamar de “debate” aquilo que é, na prática, sabotagem do conhecimento.

O saldo, porém, é mensurável: estimativas indicam que a vacinação contra COVID evitou milhões de mortes apenas em 2021. Ainda assim, a paranoia segue politicamente rentável.

O método exportado: do MAGA ao bolsonarismo

No Brasil, o discurso da “gripezinha” ecoou quase literalmente a Casa Branca. Com relação ao meio ambiente, o mesmo padrão reapareceu: enquanto autoridades deslegitimavam fiscalização e ciência, o desmatamento amazônico atingiu níveis recordes.

A retórica muda; o método permanece: atacar quem mede, quem monitora, quem prova. Em 2022, o desmatamento na Amazônia atingiu 13.038 km², o maior valor desde 2006 [6]. No mesmo período, ministros e parlamentares alinhados à nova direita repetiam, em uníssono, que “não há crise”, que “falar em colapso climático é histeria”.

O contágio é profundo. No agronegócio, dirigentes repetem que políticas ambientais seriam imposições estrangeiras, enquanto avança a erosão legislativa, como na derrubada de vetos presidenciais ligados ao PL do desmatamento – um verdadeiro tiro no pé cuidadosamente anunciado [7].

No campo da saúde, grupos médicos brasileiros converteram-se em sucursais de um ecossistema de desinformação. Durante a pandemia, defenderam cloroquina e ivermectina sob o rótulo de “tratamento precoce”, invocando uma vaga “liberdade médica” para rejeitar regulações baseadas em evidências e lançar dúvidas sobre a eficácia das vacinas.

A realidade não negocia

Quando Trump repete, em palcos internacionais, que a mudança climática seria “a maior fraude da história”, já não fala apenas a seu eleitorado: fala a uma rede transnacional que transformou a desconfiança na ciência em identidade política.

A lição final é simples: afirmar sem provas é fácil; negar sem provas, mais fácil ainda. Governar sem provas, porém, é ruinoso.

A política pode manipular mapas, números e slogans. Os oceanos, os vírus e o clima, não.

O trumpismo – e suas variantes globais – pode transformar fatos em slogans e ciência em alvo. Mas a realidade não negocia. Ela espera. E quando retorna, retorna inteira.

Bibliografia

1.  Arendt, H., Between Past and Future: Eight Exercises in Political Thought. 1968, New York: Viking Press.

2.  Vosoughi, S., D. Roy, and S. Aral, The spread of true and false news online. Science, 2018. 359(6380): p. 1146–1151.

3.  Congressional Research, S., Federal Research and Development (R&D) Funding: FY2026. 2025, Congressional Research Service: Washington, DC.

4.  National Science, F., FY 2026 Budget Request to Congress. 2025, National Science Foundation: Arlington, VA.

5.  Kozlov, M., J. Tollefson, and D. Garisto. US science after a year of Trump: what has been lost and what remains. 2026; https://www.nature.com/immersive/d41586-026-00088-9/index.html.

6.  Instituto Nacional de Pesquisas, E., Prodes 2022: Taxa de desmatamento na Amazônia Legal. 2023, INPE: São José dos Campos.

7.  de Melo, C. P., O congresso pós-COP30: o Brasil que promete e o Brasil que devasta. 2026 2026–01–07; https://diplomatique.org.br/o-congresso-pos-cop30-o-brasil-que-promete-e-o-brasil-que-devasta/.


Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE – Pesquisador 1A do CNPq – Membro da Academia Brasileira de Ciências.

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Celso Pinto de Melo

Doutor em Física (UCSB, 1980), mestre em Física (1975) e engenheiro químico (1973) pela UFPE, é Professor Titular aposentado da UFPE e Pesquisador 1-A do CNPq. Atuou como Fulbright Senior Scholar no MIT (1986–1987). Lidera pesquisas em polímeros condutores, transporte em filmes finos e nanocompósitos aplicados à interface com sistemas biológicos e sensores. É autor de mais de 160 artigos e diversas patentes nacionais e internacionais, e orientou mais de 60 alunos de pós-graduação. Foi presidente da Sociedade Brasileira de Física (2009–2013), vice-presidente e conselheiro da SBPC, além de diretor do CNPq e pró-reitor da UFPE. Membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Pernambucana de Ciências. Recebeu a Comenda (2002) e a Grã-Cruz (2009) da Ordem Nacional do Mérito Científico, além da Ordem de Rio Branco (2007), por suas contribuições às ciências físicas no Brasil.

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