10 de junho de 2026

Quando a realidade vira inimiga (I), por Celso Pinto de Melo

Como a desinformação e o culto à “certeza performática” corroem o debate público — do negacionismo climático ao episódio do Sharpiegate

O trumpismo nos EUA rebaixa e distorce a ciência, transformando a desinformação em método político e cultural.
O episódio Sharpiegate expôs pressão política sobre a NOAA para alterar mapa oficial do furacão Dorian em 2019.
Redes sociais amplificam mentiras por engajamento, afogando fatos e corroendo o debate público e a governança racional.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Quando a realidade vira inimiga (I): Trumpismo, desinformação e a corrosão dos fatos

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Como a mentira vira método — e o orçamento vira arma

por Celso Pinto de Melo

“O que pode ser afirmado sem provas pode ser negado sem provas”
Christopher Hitchens ¹

Nota do autor (série em 2 partes) — Este artigo integra uma série de dois textos consecutivos sobre o modo como o trumpismo transformou a ciência e a realidade factual em alvos políticos. Na Parte I, examino como a desinformação e o culto à “certeza performática” corroem o debate público — do negacionismo climático ao episódio do Sharpiegate, quando o Estado foi pressionado a ajustar o real para caber na narrativa. Na Parte II, discuto o passo seguinte, ainda mais grave: quando a guerra cultural se converte em política pública, com cortes e tentativas de estrangulamento orçamentário de agências civis estratégicas (saúde, ciência básica, monitoramento ambiental), além dos impactos concretos desse negacionismo na pandemia, na regulação e na transição energética.

Há momentos em que o debate público deixa de ser uma disputa de ideias e passa a se converter numa luta pelo controle da própria realidade. Não é figura de linguagem: quando a verdade vira objeto de guerra política, o país que aceita brincar com fatos como se fossem opinião começa a corroer seus próprios pilares [2].

Nos Estados Unidos contemporâneos, o fenômeno MAGA – e a nova direita que orbita Donald Trump – transformou esse deslocamento em método. Ali, o conhecimento científico não é apenas ignorado: é rebaixado, ridicularizado, distorcido e reinterpretado até se tornar irrelevante. O método científico é a arte da dúvida disciplinada; o trumpismo opera como arte da certeza performática.

A frase de Hitchens ilumina o paradoxo: Trump fala como se não precisasse de provas; a sociedade, se quiser continuar vivendo no mundo real, não pode se conceder a mesma licença.

A mentira como identidade

Essa degradação do debate científico não começou na pandemia, embora 2020 tenha sido seu laboratório mais cruel. Em 2012, Trump já propagava que o aquecimento global seria uma “farsa” inventada pelos chineses [3]. Ao longo dos anos, mudou a embalagem, mas não o conteúdo: ora dizia “não acreditar” no aquecimento antropogênico, ora zombava do tema sempre que uma frente fria atingia o país [4].

Em 2018, diante de recordes de frio, tuitou: “Tragam de volta o aquecimento global” – como se clima e tempo meteorológico fossem a mesma coisa [5]. Na realidade, enquanto ele ironizava uma frente fria, a temperatura média do planeta continuava subindo de forma mensurável e documentada [4, 6].

O ponto essencial não é a ignorância em si. É a transformação da ignorância em performance política, feita para mobilizar seguidores e humilhar instituições.

Sharpiegate: quando o Estado adultera mapa para agradar o líder

Esse padrão atingiu um ápice simbólico no episódio conhecido como Sharpiegate. Em 2019, o furacão Dorian, que inicialmente ameaçava certas áreas, mudou de curso e as projeções oficiais da NOAA – agência federal – indicaram que o Alabama já não corria risco [7].

Trump insistiu no contrário e, para sustentar sua versão, exibiu publicamente um mapa adulterado com caneta marcadora (“sharpie”), expandindo artificialmente a zona de risco. Sob pressão política, a própria agência acabou soltando uma nota incomum – vista por muitos como uma capitulação institucional [7, 8].

O risco daquele episódio não era “um meme sobre mapas”. Era muito mais grave: a mensagem implícita era que, se os fatos conflitam com a palavra do líder, pior para os fatos. Numa democracia funcional, a burocracia pública existe justamente para impedir que decisões sejam tomadas com base num capricho. Quando o governante força instituições a validar versões políticas da realidade, abre-se a porta para o colapso lento – porém seguro – de qualquer sistema de governança racional [2].

A máquina perfeita para afogar o real

Mas o trumpismo não opera no vazio. O ataque à realidade tornou-se ainda mais estrutural porque encontrou um aliado poderoso: o ecossistema das plataformas digitais.

As redes não recompensam veracidade. Elas recompensam o engajamento – cliques, raiva, permanência, compartilhamento. E isso significa que conteúdos falsos, exatamente por apelarem ao medo e à indignação, circulam mais rápido do que informações factuais [9].

Nesse ambiente, a mentira deixa de ser exceção e passa a ser funcional ao modelo de negócios. E frequentemente é impulsionada por uma minoria altamente ativa, disciplinada, agressiva e profissionalizada [9].

A ciência, o jornalismo profissional e o conhecimento especializado não são derrotados em debate. São simplesmente afogados num fluxo permanente de estímulos: simplificações violentas, suspeita permanente, hostilidade às instituições e ataques pessoais.

O resultado é devastador: o trumpismo não apenas nega fatos – ele prospera em um sistema informacional desenhado para torná-los irrelevantes.

O passo seguinte

Quando algoritmos premiam a indignação, quando instituições são pressionadas a “ajustar” narrativas e quando o líder impõe sua versão como verdade oficial, o conhecimento científico deixa de ser refutado: simplesmente, é empurrado para fora do debate.

O que parecia apenas retórica vira método de governo.

Na segunda parte, examinaremos esse ponto de inflexão: quando o desprezo pelos fatos deixa de ser performance e passa a orientar decisões administrativas e orçamentárias — com efeitos concretos sobre ciência, saúde e clima.

Bibliografia

1.  Hitchens, C., God Is Not Great: How Religion Poisons Everything. 2007, New York: Twelve.

2.  Arendt, H., Between Past and Future: Eight Exercises in Political Thought. 1968, New York: Viking Press.

3.  Trump, D.J. The concept of global warming was created by and for the Chinese in order to make U.S. manufacturing non-competitive. 2012; https://x.com/realDonaldTrump/status/265895292191248385.

4.  IPCC, Climate Change 2023: Synthesis Report. 2023, Intergovernmental Panel on Climate Change: Geneva.

5.  Trump, D.J. In the beautiful Midwest, windchill temperatures are reaching minus 60 degrees, the coldest ever recorded… Bring back Global Warming! 2018; https://x.com/realDonaldTrump/status/1090074254010404864.

6.  NASA. Global Climate Change: Vital Signs of the Planet. 2024; https://climate.nasa.gov/.

7.  Center, N.N.H. Hurricane Dorian Advisory Archive (2019). 2019; https://www.nhc.noaa.gov/archive/2019/DORIAN.shtml.

8.  Commerce, U.S.D.o., Evaluation of NOAA’s September 6, 2019, Statement About Hurricane Dorian Forecasts, G. Office of Inspector, Editor. 2020, U.S. Department of Commerce, Office of Inspector General: Washington, DC.

9.  Vosoughi, S., D. Roy, and S. Aral, The spread of true and false news online. Science, 2018. 359(6380): p. 1146–1151.


Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE – Pesquisador 1A do CNPq – Membro da Academia Brasileira de Ciências

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Celso Pinto de Melo

Doutor em Física (UCSB, 1980), mestre em Física (1975) e engenheiro químico (1973) pela UFPE, é Professor Titular aposentado da UFPE e Pesquisador 1-A do CNPq. Atuou como Fulbright Senior Scholar no MIT (1986–1987). Lidera pesquisas em polímeros condutores, transporte em filmes finos e nanocompósitos aplicados à interface com sistemas biológicos e sensores. É autor de mais de 160 artigos e diversas patentes nacionais e internacionais, e orientou mais de 60 alunos de pós-graduação. Foi presidente da Sociedade Brasileira de Física (2009–2013), vice-presidente e conselheiro da SBPC, além de diretor do CNPq e pró-reitor da UFPE. Membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Pernambucana de Ciências. Recebeu a Comenda (2002) e a Grã-Cruz (2009) da Ordem Nacional do Mérito Científico, além da Ordem de Rio Branco (2007), por suas contribuições às ciências físicas no Brasil.

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  1. Lúcio Flávio Moreira Cavalcanti

    27 de janeiro de 2026 9:21 am

    Texto Cirúrgico. A destruição da realidade é o anestésico que prepara o terreno para a opressão. Sem fatos compartilhados, não há diálogo; e sem diálogo, só resta o comando. Informação muito relevante na sociedade atual.

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