21 de maio de 2026

Diplomacia das canhoneiras: quando a coerção explica o comércio, por Celso Pinto de Melo

A presença naval, os bloqueios e as restrições transformam a negociação em formalidade. O objetivo não é dialogar, mas impor condições.

Diplomacia das canhoneiras usa coerção militar para impor condições políticas e comerciais, sem guerra declarada.
Nos EUA, Perry forçou o Japão a abrir portos em 1853, marcando o método de pressão naval coercitiva.
Casos como Venezuela, Cuba e Filipinas mostram padrão histórico de imposição com força, limitando soberania.

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Diplomacia das canhoneiras: quando a coerção explica o comércio

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por Celso Pinto de Melo

“A força é o argumento que dispensa tradução.” – Hannah Arendt, Da violência (paráfrase) [1]

Quando um Estado poderoso decide impor condições políticas ou comerciais a outro mais fraco sem recorrer à guerra declarada, a diplomacia costuma aparecer apenas como encenação. O núcleo da decisão já foi previamente definido pela ameaça de força. Negociar, nesse contexto, significa aceitar termos impostos. A esse método antigo e persistente, a história deu um nome preciso: diplomacia das canhoneiras.

O episódio recente envolvendo pressão naval, bloqueios e constrangimento econômico contra a Venezuela insere-se claramente nessa tradição [2, 3]. Mais do que a simples exibição de força, houve também uma incursão militar direta e cirúrgica – culminando no sequestro do presidente Nicolás Maduro – que explicitou o núcleo coercitivo da operação. O uso ostensivo de meios militares e logísticos – interdição de rotas, apreensão de navios, vigilância naval – não visa persuadir, mas estreitar deliberadamente o campo de escolhas de um Estado até que a capitulação se torne a única alternativa viável. Trata-se menos de uma tática circunstancial do que de um método histórico recorrente, em que a diplomacia funciona como linguagem auxiliar da imposição  [4].

Para compreender a lógica profunda dessa prática, vale recuar ao episódio que se tornou seu modelo clássico: a missão do comodoro Matthew C. Perry ao Japão, em meados do século XIX.

Durante mais de dois séculos, o Japão manteve-se deliberadamente fechado ao comércio internacional. A política do sakoku, instituída pelo xogunato Tokugawa no século XVII, proibia a entrada de estrangeiros, restringia severamente o contato com o exterior e limitava o comércio a poucos entrepostos rigidamente controlados. O objetivo era preservar a estabilidade interna, impedir a infiltração religiosa e política europeia – sobretudo do cristianismo – e evitar que o arquipélago seguisse o destino de outras regiões da Ásia submetidas à dominação colonial [5].

Esse isolamento passou a ser percebido como obstáculo estratégico pelos Estados Unidos na primeira metade do século XIX. A jovem potência norte-americana avançava rapidamente pelo Pacífico, impulsionada pela doutrina do destino manifesto, pela anexação da Califórnia e pela necessidade de rotas comerciais e pontos de apoio logístico em direção à Ásia. O enfraquecimento da China após as Guerras do Ópio e sua fragmentação em zonas de influência europeias reforçaram em Washington a percepção de que era preciso agir rapidamente, antes que o tabuleiro asiático estivesse completamente ocupado [5].

Foi nesse contexto que o presidente Millard Fillmore autorizou o envio de uma missão naval ao Japão, confiada ao comodoro Perry. A iniciativa não tinha caráter diplomático no sentido clássico. Tratava-se de uma demonstração explícita de poder militar, destinada a forçar a abertura de portos japoneses ao comércio e ao abastecimento de navios norte-americanos.

Em julho de 1853, Perry entrou na baía de Edo (atual Tóquio) com seus chamados “navios negros” – embarcações a vapor, fortemente armadas e tecnologicamente muito superiores à frota japonesa. A mensagem era inequívoca: o Japão deveria aceitar a abertura ou enfrentar o uso da força. Embora não tenha ocorrido um bombardeio extensivo, os canhões foram deliberadamente apontados, disparos de advertência realizados e mapas com alvos estratégicos exibidos às autoridades locais. A diplomacia era sustentada pela ameaça concreta de destruição.

Diante da assimetria militar absoluta e face à recente humilhação imposta à China, o xogunato capitulou. Em 1854, o Tratado de Kanagawa abriu portos japoneses aos Estados Unidos, garantiu proteção a marinheiros americanos e inaugurou uma série de acordos desiguais com outras potências ocidentais. Não houve guerra formal – apenas coerção bem-sucedida [5].

As consequências foram profundas e ambíguas. Para os Estados Unidos, o resultado foi a consolidação de sua presença no Pacífico e o acesso a novos mercados e rotas estratégicas. Para o Japão, a humilhação externa acelerou uma crise interna que culminaria, poucos anos depois, na Revolução Meiji. A restauração do poder imperial, iniciada em 1868, rompeu com o isolamento e lançou o país em um processo acelerado de modernização econômica, militar e institucional – precisamente para evitar novas imposições externas.

O Havaí completa o quadro e escancara a transição entre coerção e anexação. Se o comodoro Perry forçou o Japão a abrir portos ao comércio norte-americano, no arquipélago havaiano o movimento foi mais radical: não se buscou apenas “abrir mercados”, mas derrubar um Estado soberano e reorganizar seu poder político interno sob tutela estrangeira [6]. Em 1893, a monarquia local foi deposta com o protagonismo de elites empresariais ligadas às plantações de açúcar e o apoio decisivo da presença militar norte-americana em Honolulu – com a instabilidade agravada pelas disputas comerciais e por interesses econômicos transnacionais [7]. O episódio não foi simples atrito diplomático: foi mudança de regime sob tutela armada, culminando na anexação (1898) e na conversão do Havaí em plataforma avançada dos EUA no Pacífico [6, 8]. Não por acaso, a importância de Pearl Harbor como ponto naval estratégico já estava no centro desse cálculo: um porto profundo e controlável valia mais do que qualquer tratado comercial.

O paralelo com a Venezuela é direto. Assim como no Japão do século XIX, a coerção não se apresenta como guerra, mas como “medida necessária”, “proteção do comércio” ou “defesa da ordem”. A presença naval, os bloqueios e as restrições logísticas transformam a negociação em formalidade. O objetivo não é dialogar, mas impor condições.

Esse padrão não é episódico. Desde o fim do século XIX, a política externa dos Estados Unidos recorre com frequência à diplomacia das canhoneiras [9]. Após a guerra hispano-americana, a independência de Cuba foi formalmente reconhecida, mas severamente limitada pela Emenda Platt (1901) [10], que autorizava Washington a intervir militarmente sempre que julgasse haver ameaça à “ordem” ou aos seus interesses – além de assegurar o arrendamento de áreas estratégicas, como a base naval de Guantánamo [11]. Na prática, tratou-se de um mecanismo de tutela que restringiu a soberania cubana até sua revogação, em 1934.

Nas Filipinas, o roteiro também foi inequívoco. Entre 1898 e 1902, após a Guerra Hispano-Americana e a transferência do arquipélago da Espanha para os Estados Unidos, a promessa de autodeterminação foi negada pela força. A Guerra Filipino-Americana expôs o custo humano da expansão imperial e revelou o traço recorrente do período: quando a soberania de um povo contrariava interesses estratégicos, ela era reinterpretada como obstáculo [12]. O arquipélago converteu-se em peça-chave do tabuleiro do Pacífico, e a diplomacia cedeu espaço à guerra como linguagem de “organização” do mundo.

Pouco depois, a ocupação do Haiti (1915–1934) consolidou um regime de tutela sustentado por presença militar ostensiva e por mecanismos financeiros e administrativos impostos de fora. A retórica oficial falava em “estabilidade” e “modernização”, mas o efeito concreto foi o esvaziamento da soberania: a política interna passou a operar sob supervisão estrangeira, e a ordem foi mantida menos por legitimidade do que por coerção. O Haiti tornou-se, assim, exemplo emblemático de como a força pode funcionar não como episódio, mas como estrutura: um Estado formalmente independente, porém submetido a uma disciplina colonial disfarçada de missão civilizatória [13].

Esses episódios – Japão, Cuba, Havaí, Filipinas, Haiti e, hoje, Venezuela – revelam um padrão estrutural de coerção assimétrica [14]. Não se trata necessariamente de conquista formal, mas da imposição de condições que esvaziam a soberania. A presença da força redefine os termos da negociação antes mesmo que o verbo “negociar” seja pronunciado.

A diplomacia das canhoneiras, ontem como hoje, diz menos sobre a fragilidade dos países coagidos e mais sobre a persistência de uma lógica imperial: quando a força está disponível e a assimetria é grande o suficiente, o direito internacional torna-se maleável – e a diplomacia converte-se apenas no idioma educado da imposição [14]. No curto prazo, esse método pode parecer eficaz; no longo prazo, no entanto, cobra seu preço, alimentando instabilidade, ressentimento e ciclos históricos de retorno da violência [15].

Referências

1.     Arendt, H., Sobre a violência. 2009, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

2.    Ali, I., et al., Trump orders ‘blockade’ of sanctioned oil tankers leaving, entering Venezuela. 2025.

3.    Brasil, C.N.N., Especialistas da ONU condenam bloqueio naval dos EUA contra a Venezuela. 2025.

4.    Reuters, Trump signs order to protect Venezuelan oil revenue held in U.S. accounts. 2026.

5.    Jansen, M.B., The Making of Modern Japan. 2000, Cambridge, MA: Harvard University Press.

6.    Silva, N.K., Aloha Betrayed: Native Hawaiian Resistance to American Colonialism. 2004, Durham: Duke University Press.

7.    La Croix, S.J. and C. Grandy, The Political Instability of Reciprocal Trade and the Overthrow of the Hawaiian Kingdom. The Journal of Economic History, 1997. 57(1): p. 161–189.

8.    United States National, A., Joint Resolution to Provide for Annexing the Hawaiian Islands (Newlands Resolution), July 7, 1898. 1898.

9.    Bradley, J., The Imperial Cruise: a secret history of empire and war. 2009, New York: Little, Brown and Company.

10.  Archives, U.S.N. Platt Amendment (1903). Milestone Documents [Documento institucional (web)] 2022 2026–01–10; Available from: https://www.archives.gov/milestone-documents/platt-amendment.

11.  Elsea, J.K., Naval Station Guantanamo Bay: History and Legal Issues Regarding Its Lease Agreements, in Congressional Research Service Report. 2022, Congressional Research Service (CRS).

12.  Linn, B.M., The Philippine War, 1899-1902. 2000, Lawrence: University Press of Kansas.

13.  Schmidt, H., The United States Occupation of Haiti, 1915-1934. 1995, New Brunswick: Rutgers University Press.

14.  Kennan, G.F., American Diplomacy. 1951, Chicago: University of Chicago Press.

15.  Kennedy, P., Ascensão e queda das grandes potências: transformação econômica e conflito militar de 1500 a 2000. 1989, Rio de Janeiro: Campus.


Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE – Pesquisador 1A do CNPq – Membro da Academia Brasileira de Ciências

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Celso Pinto de Melo

Doutor em Física (UCSB, 1980), mestre em Física (1975) e engenheiro químico (1973) pela UFPE, é Professor Titular aposentado da UFPE e Pesquisador 1-A do CNPq. Atuou como Fulbright Senior Scholar no MIT (1986–1987). Lidera pesquisas em polímeros condutores, transporte em filmes finos e nanocompósitos aplicados à interface com sistemas biológicos e sensores. É autor de mais de 160 artigos e diversas patentes nacionais e internacionais, e orientou mais de 60 alunos de pós-graduação. Foi presidente da Sociedade Brasileira de Física (2009–2013), vice-presidente e conselheiro da SBPC, além de diretor do CNPq e pró-reitor da UFPE. Membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Pernambucana de Ciências. Recebeu a Comenda (2002) e a Grã-Cruz (2009) da Ordem Nacional do Mérito Científico, além da Ordem de Rio Branco (2007), por suas contribuições às ciências físicas no Brasil.

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