4 de junho de 2026

Cientista político critica “pesquisismo” e aponta distorções em sondagens eleitorais

Além de cristalizar a percepção de que Lula seria o único candidato da esquerda, pesquisas de intenção de voto também são influenciadas pelas empresas que a encomendam
Marcelo Camargo - Agência Brasil

O avanço do chamado “pesquisismo”, termo usado para criticar a centralidade excessiva das pesquisas eleitorais no debate público, foi o tema central da entrevista concedida pelo cientista político Dawisson Belém ao programa Desinformação & Política, exibido em 10 de fevereiro. Professor de Política Internacional e Comparada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisador do CNPq, Belém afirmou que o “ecossistema de pesquisas de intenção de voto no Brasil não anda bem” e apontou distorções recorrentes na formulação e divulgação dos levantamentos.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Segundo o professor, desde janeiro de 2023 consolidou-se um padrão nas principais sondagens eleitorais: a contraposição direta entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e um conjunto amplo de nomes do centro à direita. “Primeiro porque naturaliza a ideia de que o Lula é a figura a ser batida, ou seja, naturaliza-se o conceito, o entendimento de que a esquerda não tem opções ao Lula. A gente passou a operar com essa hipótese com uma naturalidade constrangedora, e ela não é uma hipótese testada empiricamente”, afirmou.

Para Belém, esse formato produz dois efeitos principais. O primeiro é a cristalização da percepção de que a esquerda não dispõe de alternativas competitivas. O segundo é a transformação das pesquisas em uma espécie de “recurso experimental” para candidatos do campo conservador.

O cientista político destacou que raramente há séries históricas consistentes testando outros nomes do campo governista, o que impede a comparação evolutiva de desempenho eleitoral.

Vieses

Belém também abordou a influência dos financiadores das pesquisas. Ele citou levantamentos patrocinados por empresas do mercado financeiro e veículos de comunicação, como Genial Investimentos, Bloomberg, a Confederação Nacional do Transporte (CNT) e o Grupo Globo.

Embora tenha evitado afirmar que haja intencionalidade deliberada, o professor ponderou que quem paga a banda escolhe a música. Para ele, mesmo que não exista orientação explícita, o conjunto de incentivos pode gerar vieses estruturais. “A gente pode considerar que há uma predominância de interesses econômicos e de poder alimentando essas sondagens, porque, de fato, fazer pesquisa é algo muito caro, todos nós sabemos, é algo bastante caro, então, esses interesses estão aí dominando a cena do ambiente de pesquisa, desse ecossistema de pesquisa”, avaliou.

Outro ponto discutido foi o papel da imprensa na amplificação dos resultados. Belém observou que manchetes frequentemente destacam o desempenho agregado de “candidatos da direita” em comparação direta com Lula, mesmo quando esses nomes não são oficialmente pré-candidatos. Para ele, esse enquadramento reforça a percepção de polarização assimétrica e influencia o imaginário do eleitorado.

Eliara Santana também mencionou o uso de pesquisas por setores da extrema direita como instrumento de mobilização política, fenômeno que, segundo Belém, se intensificou com a expansão das redes digitais.

Impacto na democracia

Para o cientista político, a questão ultrapassa a disputa eleitoral de 2026, mas de como se estrutura o debate democrático. Ele defendeu maior transparência metodológica, equilíbrio na formulação dos questionários e diversificação dos cenários testados como medidas necessárias para preservar a qualidade do processo democrático.

A íntegra da entrevista está disponível no programa Desinformação & Política, na TV GGN:

LEIA TAMBÉM:

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

3 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Gaspar Alencar

    15 de fevereiro de 2026 2:38 pm

    Eu, nunca fui entrevistado sobre pesquisa eleitoral. Deveríamos ter uma regulação mínima. Porque no frigir dos ovos todo dinheiro investido na campanha. É decidido pelas pesquisas. Como o país não lê e não interpreta. A nação fica nas mãos dos espertalhões. Cooptando os demais segmentos! Estamos no mato sem cachorro! Vai chover e não tem lenha! O agro dar sinais de inadimplencia!

  2. Fábio de Oliveira Ribeiro

    16 de fevereiro de 2026 7:56 am

    IAs vão resolver todos os problemas do mundo, haverá abundancia para odos, mais democracia e igualdade de dieritos, blá-blá-blá continuam dizendo alguns engenheiros de TI e donos de Big Techs. Mesmo aqueles que temem um Terminator cenário se esquecem que no planeta realidade existe algo muito mais preocupante do que uma IA autoconsciente comandando um exército de robos assassinos para exterminar a humanidade. O potencial dessa tecnologia para desestabilizar países democráticos e afetar o resultado de eleições de uma maneira desastrosa já é uma verdade factual e isso tende a piorar. Não chegou o momento de intensificar o debate acerca de uma firewall soberana nacional?

    https://www.salon.com/2026/02/15/swarms-of-ai-bots-are-threatening-democracy-partner/

  3. JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO

    23 de fevereiro de 2026 8:22 am

    Já não estou sozinho contra o festival de pesquissoreia eleitorais que assola o país. Infelizmente até a esquerda escorrega nauseabundo. Atualmente ignoro solenemente os resultados divulgados, só vou prestar alguma atenção, quando estivermos próximos das eleições.

Recomendados para você

Recomendados