4 de junho de 2026

Renato Rabelo, por Manuel Domingos Neto

Com o final da ditadura, organizamos o PCdoB para atuar sob condições legais e disputar mandatos parlamentares. Renato percorria todo o país.
Foto Arquivo

Renato Rabelo, ex-presidente do PCdoB, morreu aos 83 anos, deixando legado de luta política e resistência à ditadura.
Ingressou no movimento estudantil na UFBA, viveu clandestino e foi preso na França, onde recebeu apoio internacional.
Após o fim da ditadura, liderou o PCdoB, atuando na organização legal do partido e na defesa da democracia no Brasil.

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Renato Rabelo

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por Manuel Domingos Neto

Conchita me avisa que Renato partiu. Meu coração aperta. Mil lembranças me ocorrem. Foram mais de 50 anos de amizade e companheirismo.

Apesar de alguns anos mais velho do que eu, tínhamos a mesma origem política, a Ação Popular dos anos 1960.

Renato ingressou no movimento estudantil quando cursava medicina na UFBA. Com a repressão, mudou-se para São Paulo. Integrava a direção da AP. Casado e com filhos, viveu como itinerante clandestino.

Convencidos de que a luta armada no campo seria o caminho conquistar a democracia, a soberania, desenvolver o país e rumar ao socialismo, nos integramos ao PCdoB, em 1973. Eu estava preso em Fortaleza, com José Duarte, Rogério Lustosa e dezenas de militantes cearenses.

Depois de libertado, fui para Paris, em 1974. Renato chegou em seguida. Andava com documentos forjados e foi preso pela polícia francesa. Na cadeia, comunicou-se com José Luiz Guedes, ex-presidente da UNE.

Sua libertação foi uma novela. Contamos com a ajuda do físico francês Albin Volte, fundador do Comitê de Solidariedade França-Brasil, que mobilizou o juiz Étienne Bloch (filho do historiador Marc Bloch) e o advogado Louis Joinet. Gerald Thomas, que atuava na Anistia Internacional, também nos ajudou.

Solto, Renato voltou à atividade como dirigente do PCdoB. João Amazonas e Diógenes Arruda também estavam em Paris. Viviam meio clandestinamente, com a ajuda do governo albanês.

A guerrilha do Araguaia estava derrotada e, em 1976, a direção do PCdoB fora duramente atingida. A tensão era permanente. A repressão acompanhava nossas atividades no exterior.

Renato conseguiu emprego num hospital e logo reuniu a família. Passaram a viver discretamente num subúrbio popular de Paris. Com seu jeito manso, colecionava amizades em Paris.

Gostava de cozinhar. Sabendo que eu fora criado no Delta do Parnaíba, preparou-me uma fritada de caranguejo à moda baiana. O caranguejo era enlatado, mas foi uma festa.

Em 1978, a Ditadura mostrava esgotamento e a luta pela anistia ganhou amplitude. Nos preparamos para voltar. João Amazonas deixou-se fotografar pelo jornal Movimento. Renato, então, já era o seu braço direito.

No Brasil, o grande desafio seria garantir eleições diretas e reunir uma Constituinte.

Com o final da ditadura, tratamos de organizar o PCdoB para atuar sob condições legais e disputar mandatos parlamentares. Renato percorria todo o país. Conversamos assiduamente quando eu assumi o mandato de deputado federal.

Com a fragilidade física de Amazonas, Renato assumiu a presidência do PCdoB por muitos anos. Eu me afastara da militância orgânica, mas sempre trocávamos ideias, em particular na última década, quando os militares retornaram ao ativismo político.

A última vez que nos encontramos foi em seu apartamento, em São Paulo. Estava abatido, lutava contra o câncer, mas a cabeça estava em forma. Conchita, pura gentileza, preparara mesa sortida. Por algumas horas, trocamos lembranças e impressões sobre o rumo do país.

A partida de Renato me entristece de um jeito que não sei explicar. É como se momentos fundamentais de minha vida fossem junto com ele. Mas o recado que deixa é inequívoco: não vale desistir de mudar a sociedade.

Manuel Domingos Neto nasceu em Fortaleza em 1949. Graduou-se em História pela Universidade de Paris VI, em 1976. Obteve o título de Mestre em Sociedade e Economia na América Latina, pela Universidade de Paris III, em 1976, e o título de Doutor em História pela mesma universidade, em 1979. Foi pesquisador da Casa de Rui Barbosa, superintendente da Fundação Centro de Pesquisas Econômicas e Sociais do Piauí, estado pelo qual também foi deputado federal. Professor da Universidade Federal do Ceará e professor associado da Universidade Federal Fluminense, foi também vice-presidente do CNPq e presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED).

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Manuel Domingos Neto

Manuel Domingos Neto nasceu em Fortaleza em 1949. Graduou-se em História pela Universidade de Paris VI, mestre pela Universidade de Paris III e Doutor em História pela mesma universidade, em 1979. Professor da Universidade Federal do Ceará e professor associado da Universidade Federal Fluminense

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2 Comentários
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  1. Gaspar Alencar

    15 de fevereiro de 2026 5:01 pm

    Tive o privilégio de estar quando da comemoração do aniversário da comunidade coluna Prestes, em Floriano, Piauí (1982-1983), não pudemos aproximar vimos Anita Prestes. Nunca me filei. Meu pai Jerônimo ( in memoriam), mais rebelde e mamãe Maria de Jesus, mais socialista. Os bons vão cedo ( frase de filme).

  2. Avel Alencar

    15 de fevereiro de 2026 6:44 pm

    Lutou o bom combate. Vá em paz.

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