10 de junho de 2026

A crítica desacreditada, por Ivonaldo Neres Leite

Os judeus não formam um grupo homogêneo, e possivelmente, até entre os críticos do sionismo, exista heterogeneidade
Tommy Ingberg

Ex-primeiro-ministro israelense Ehud Olmert critica governo Netanyahu por crimes de guerra na Faixa de Gaza.
Sociólogo Jessé Souza fez declaração controversa sobre “lobby judaico” ligada a teorias conspiratórias e antissemitismo.
Artigo destaca diversidade judaica e alerta contra discursos monolíticos que alimentam preconceitos e desinformação.

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Uma imaginária ‘conspiração’ e a pressa espetaculosa nas redes sociais: a crítica desacreditada

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por Ivonaldo Neres Leite[1]

Num artigo de opinião publicado em 2025 (27/05), intitulado Enough is Enough (Basta), o ex-Primeiro-Ministro de Israel Ehud Olmert  (2006-2009) foi categórico na crítica ao atual governo do país por suas ações na Faixa de Gaza. Disse ele, por exemplo: “O que estamos fazendo em Gaza agora é uma guerra de devastação, ilimitada, cruel e criminosa. Sim, estamos cometendo crimes de guerra” [2].

 Em outra passagem do texto, Olmert foi ainda mais enfático: “Estamos negando aos habitantes de Gaza alimentos, medicamentos e necessidades básicas de vida como parte de uma política explícita. Netanyahu, como de costume, está tentando obscurecer o tipo de ordens que tem dado, a fim de fugir da responsabilidade legal e criminal no devido tempo. Mas alguns de seus lacaios estão dizendo isso abertamente, em público, até mesmo com orgulho: Sim, vamos matar Gaza de fome”. Outras vozes judaicas, oriundas não só de segmentos críticos ao sionismo, mas advindas inclusive de ex-autoridades israelenses, como Olmert, têm ecoado questionamentos semelhantes, e até mais duros, dirigindo-os diretamente ao governo Netanyahu[3]

Essas manifestações, assim como outros fatos constituintes da longa história dos judeus, são uma demonstração empírica consistente da complexidade que marca a chamada ‘questão judaica’, conforme a expressão conceitual cunhada  pelo pensamento social clássico[4], em suas diversas vertentes teóricas. Por óbvio, os judeus não formam um grupo homogêneo, e possivelmente, até entre os críticos do sionismo, exista heterogeneidade (cabendo, talvez, realizar uma distinção diferenciando antissionista e não sionista). O mesmo raciocínio vale para o sionismo histórico.

Posto isto, causa uma imensa surpresa e estupefação a recente declaração do sociólogo Jessé Souza, em vídeo nas redes sociais, referindo-se, de forma monolítica, a um ‘lobby judaico’ em torno de Jeffrey Epstein, para obtenção de informações a serem usadas, por exemplo, ‘em modo de chantagem’, diante de conjunturas e situações como a que diz respeito a deliberações políticas, envolvendo a comunidade internacional, no tocante à Faixa de Gaza.  Por suposto, uma declaração monolítica de tal natureza dirigida, seja a que grupo for, o apanha identitariamente como um todo, com um julgamento prévio, isto é, com preconceito, que gera discriminação, designadamente discriminação racial. Sobretudo em alguém com o background de Jessé, não é expectável um tropeço desse naipe. 

Diante da repercussão negativa, resultante do disparate que perpassa o  vídeo, ele o excluiu, e fez outro claudicando e procurando repaginar as suas palavras. Seja como for, isso não apaga o equívoco que representou uma declaração monolítica,fazendo relembrar, então, tristes episódios passados, antissemitas,  segundo os quais haveria  uma conspiração judaica global que seria responsável por ‘todas as tragédias do mundo’. Assunções estas sem nenhuma evidência científica.  A propósito, cabe (re)lembrar o dito ‘Protocolo de Sião’, um texto apócrifo e antissemita, que inspirou o nazismo e que, no Brasil, nos anos 1930, forneceu bases para o famigerado e fraudulento Plano Cohen, justificando o golpe de Estado de 1937, que levou à instauração  da ditadura do Estado Novo. Ditadura que entregou a judia Olga Benário, gravida, aos nazistas, para ser assassinada.

Não se pode deixar de assinalar, também, a “tese” conspiracionista  antissemita  de extrema direita QAnon, nos Estados Unidos, a qual aponta a existência de uma suposta cabala secreta/de esquerda, e alega haver uma rede mundial de tráfico sexual infantil vinculada ao Partido Democrata. Entre os seus difusores, estão (neo)fascistas e apoiadores do Presidente Donald Trump, propagando a ideia de que há, no país, um Deep State (Estado Profundo), que precisa ser destruído.

A irrefletida declaração monolítica de Jessé Souza, de maneira não intencional, quero crer, subsidia “teses” conspiracionistas e antissemitas dessa natureza. Desfere uma canelada na História e alimenta perspectivas que ‘passam por cima’ de fatos e ignoram posições como a do ex-Primeiro-Ministro Ehud Olmert, a exemplo da sua forte oposição ao governo Netanyahu e as críticas que ele faz  à tolerância sionista no que concerne  à ação criminosa de colonos nos territórios palestinos (sob o apoio de Itamar Ben-Givir e Bezalel Smotrich). Ademais, as referidas perspectivas desconsideram que o próprio Olmert, em 2008, propôs a solução de dois Estados, sugerindo a divisão de Jerusalém, para que a parte árabe da cidade se tornasse a capital palestina (o plano foi apresentado à Autoridade Palestina, mas não avançou).

De resto, a irrefletida declaração do sociólogo desconhece (ou  despreza) a existência atual de uma crescente diversidade de grupos judaicos não sionistas, ao redor do mundo, solidários à causa dos palestinos, e que estão no front de combate por ela, como os grupos que se congregam no movimento Global Jews for Palestine. Por óbvio, seria um descabimento, e mesmo uma ofensa, relacionar esses grupos à imaginária “conspiração” realçada pela declaração monolítica de Jessé Souza. Afinal, tais grupos são assumidamente antifascistas, comprometidos com os direitos humanos e, em geral, com o princípio Tikkun Olam

Não penso, porém, que o episódio deva servir para desqualificar a condição de sociólogo de Jessé Souza, com ele sendo chamado, pejorativamente, de influencer, em programas televisivos, conforme tem acontecido. Além disso, há de se ter em conta que alguns que, agora, levantam a bandeira contra o antissemitismo estão pouco habilitados para essa empreitada, pelas mostras de racismo que têm dado em outras circunstâncias. O que tem ocorrido, em diversos casos, é a instrumentalização do uso político do antissemitismo, um ‘casamento de conveniência’, nas palavras de Benjamin Balthaser (da Indiana University, EUA)[5].

Historicamente, esse ‘casamento de conveniência’ tem implicado em riscos aos judeus, e isso deveria ser devidamente considerado, tendo em atenção as lições do passado. Por exemplo, no Pernambuco colonial, berço da massiva diáspora judaica sefardita e um grande centro de criptojudaísmo, os judeus desfrutaram, durante o ‘tolerante período da ocupação holandesa’, de um razoável acolhimento do establishment local/da sociedade canavieira[6]. Em Recife, foi estabelecida a primeira Sinagoga das Américas (Kahal Zur Israel – Rocha de Israel), e a dimensão da grande presença judaica, assim como o ambiente acolhedor aos judeus, já fez a cidade ser chamada, em abordagens sobre a época, de a ‘Jerusalém pernambucana’[7], uma espécie de ‘terra prometida’, ‘porto seguro’ diante do acossamento inquisitorial ibérico/cristão, que tanto os fez sofrer.

Contudo, após o fim da ocupação holandesa, os judeus, em Pernambuco, viram-se às voltas com perseguições, sendo muitos obrigados a fugir para distantes lugares interioranos do estado, fixando-se, por exemplo, em localidades rurais serranas da região agreste, para se protegerem. Os ventos políticos passaram a soprar em outra direção; o establishment local se reencontrou com o espírito do Tribunal do Santo Ofício – a impiedosa Inquisição. O ‘casamento de conveniência’ terminou. Menciono esse fato até mesmo por razões de laço consanguíneo[8], mas não só por isso.  

Por fim, cabe dizer que recusar a desqualificação da condição de sociólogo de Jessé Souza implica, contudo, esperar que ele proceda, em manifestações públicas, de acordo com os parâmetros dessa condição, e não conforme a pressa espetaculosa e irrefletida própria da tagarelice das redes sociais. Por essa via, a crítica torna-se desacredita e sem credibilidade.


Notas

[1] Sociólogo, com Doutorado pela Universidade do Porto/Portugal e Pós-doutorado no Departamento de Sociologia da Facultad de Ciencias Sociales de la Universidad de la República/Montevideo; é  professor na Universidade Federal da Paraíba. De ascendência sefardita/criptojudaica.

[2] OLMERT, Ehud. Enough is enough: Israel is committing war crimes. In: Haaretz, Jerusalém, edição em língua inglesa do dia 27/05/25. Disponível em: <https://www.haaretz.com/opinion/2025-05-27/ty-article-opinion/.premium/enough-is-enough-israel-is-committing-war-crimes/00000197-0dd6-df85-a197-0ff64a5c0000> 

[3] Recentemente, um ex-ministro da Defesa de Israel, Moshe Ya’alon, afirmou que a “ideologia da supremacia judaica” tornou-se dominante no país, e, fazendo uma comparação sempre evitada (e incisivamente atacada pelo governo israelense), disse que a situação “lembra a teoria racial nazista”. Conforme Mondoweiss: News & Opinion About Palestine, Israel & the United States – Reportagem de Jonathan Ofir: ‘Former Israeli Defense Minister: Israel’s ideology of ‘Jewish supremacy’ resembles Nazi race theory’. Edição do dia 04/02/26. Disponível em: <https://mondoweiss.net/2026/02/former-israeli-defense-minister-israels-ideology-of-jewish-supremacy-resembles-nazi-race-theory/>

[4] LEITE, Ivonaldo Neres. A dialética invertida da questão judaica. In: A Terra é Redonda, 22/02/25. Disponível em: <https://aterraeredonda.com.br/a-dialetica-invertida-da-questao-judaica/> ISSN 3085-7120.

[5] Ver BALTHASER, Benjamin. Citzens of the whole word. London/New York: Verso, 2025;  TAXAY, Naomi. A “marriage of convenience”: Pro-Israel conservatives confront antisemitic factions in their coalition. In: Medill on the Hill, 19/11/25. Disponível em: < https://medillonthehill.medill.northwestern.edu/2025/11/a-marriage-of-convenience-pro-israel-conservatives-confront-antisemitic-factions-in-their-coalition/>

[6] RIBEMBOIM, Jacques. História dos judeus de Pernambuco. Recife: CEPE, 2023.

[7] VANIFAS, Ronaldo. O fim da Jerusalém pernambucana: identidades partidas no Brasil holandês. Revista del CESLA, vol. 29, pp. 175-194, 2022

[8] LEITE, Ivonaldo Neres. Memória, Educação Popular e uma Serra com Cruz: Reminiscências Criptojudaicas. In: FIALHO, Lia Machado Fiuza; DA COSTA, Maria Aparecida Alves (Orgs.). Anais do XII Seminário Nacional de Práticas Educativas, Memórias e Oralidades. Fortaleza: Editora Universitária/UECE, 2025. ISSN 2358 – 9027.

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