24 de junho de 2026

Nassif: Polilaminina: entre o otimismo legítimo e o rigor científico necessário

É indispensável entender com clareza o alcance real da pesquisa e seu estágio atual. Não para diminuir a conquista, mas para protegê-la.
Reprodução

A Anvisa autorizou a Fase 1 dos ensaios clínicos da polilaminina, molécula para lesão medular da UFRJ.
Ensaios iniciais com poucos pacientes indicam segurança, mas eficácia ainda precisa ser comprovada em fases seguintes.
Recuperação espontânea e falta de replicação externa exigem cautela na interpretação dos resultados atuais.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

É animador, nestes tempos em que a imprensa exercita o baixo-astral cotidiano, assistir à transformação de uma cientista em heroína nacional. O fenômeno revela um país ávido por otimismo e por demonstrações de amor-próprio — sentimentos ainda mais valiosos quando se voltam para a ciência. A pesquisadora da UFRJ Tatiana Sampaio e sua molécula, a polilaminina, tornaram-se símbolos de esperança para milhares de pacientes com lesão medular, condição que afeta cerca de 130 mil brasileiros e impõe custos humanos e sociais devastadores.

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Mesmo assim — ou exatamente por isso —, é indispensável entender com clareza o alcance real da pesquisa e seu estágio atual. Não para diminuir a conquista, mas para protegê-la: expectativas infladas costumam se converter em frustração proporcional, e a ciência não precisa desse tipo de turbulência.

Vamos a uma avaliação baseados em entrevista com Paulo Lotufo, professor da USP.

O que foi autorizado — e o que isso significa

O que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizou foi a realização da Fase 1 dos ensaios clínicos. Essa etapa tem um objetivo preciso e limitado: avaliar a segurança da molécula em seres humanos, definir a faixa de dosagem adequada e identificar possíveis efeitos adversos. Em outras palavras, a Fase 1 pressupõe risco, mas não prova eficácia. É o ponto de partida de um longo percurso, não a linha de chegada.

Somente após a conclusão satisfatória da Fase 1 o projeto poderia avançar para a Fase 2, que avalia a eficácia preliminar em grupos maiores de pacientes, e depois para a Fase 3, que exige comparação ampla com placebo ou com o tratamento-padrão vigente, além de confirmação estatística robusta da eficácia. Esse percurso costuma durar entre dez e quinze anos e consumir centenas de milhões de dólares. A aprovação regulatória final só vem — quando vem — ao fim desse processo.

O problema do tamanho da amostra

Os primeiros estudos clínicos com polilaminina envolveram menos de uma dezena de pacientes. Em ciência clínica, esse número serve para sinalizar possibilidade — jamais para demonstrar eficácia ou estabelecer certeza. Amostras tão pequenas são incapazes de distinguir efeitos genuínos do medicamento de variações aleatórias, efeito placebo ou simples coincidência.

Para chegar à aprovação como tratamento, seriam necessários centenas de pacientes, distribuídos em grupos controle (submetidos a placebo ou ao padrão atual de cuidado), com avaliação estatística que permita isolar o efeito real da molécula do ruído natural dos dados. Sem isso, qualquer resultado positivo permanece, no vocabulário científico, uma hipótese promissora — não uma evidência.

O risco de confusão com recuperação espontânea

A lesão medular não é uma entidade única. Há diferenças fundamentais entre lesões completas — em que há interrupção total da via nervosa — e lesões incompletas, nas quais alguma conexão residual é preservada. Há também diferenças relevantes conforme o nível da lesão (cervical ou torácico), o tempo decorrido desde o trauma e a idade do paciente. Essas variáveis influenciam decisivamente o prognóstico.

Um fator particularmente crítico é a recuperação espontânea. Pacientes com lesões incompletas, especialmente quando tratados em centenas de horas após o trauma, podem recuperar funções motoras e sensitivas de forma natural, independentemente de qualquer intervenção farmacológica. Sem um grupo controle adequado, é impossível saber se o que se observa é efeito do medicamento ou o curso natural da lesão. Essa distinção não é detalhe técnico: é a diferença entre uma descoberta e uma ilusão.

Replicação independente e transparência metodológica

Em ciência, um resultado conta pouco até ser reproduzido por outros. A replicação independente — conduzida por equipes sem vínculo com o grupo original, em diferentes centros e contextos — é o mecanismo pelo qual a comunidade científica testa se uma descoberta é real ou produto de condições específicas, viés inconsciente ou acaso. Até o momento, os resultados com polilaminina não foram reproduzidos por centros externos.

Igualmente relevante é a ausência de publicação em revistas científicas internacionais com revisão por pares. Esse processo, embora lento e por vezes frustrante, é o filtro essencial que distingue a ciência da especulação: revisores independentes examinam a metodologia, os dados e as conclusões antes que qualquer resultado seja considerado válido pela comunidade. Sem passar por esse crivo, mesmo resultados animadores permanecem em zona cinzenta.

A questão da patente e o financiamento privado

Um ponto que gerou confusão pública — e que especialistas como o epidemiologista Paulo Lotufo, da USP, declararam não compreender plenamente — é o argumento em torno da “perda da patente internacional”. A pesquisa é financiada pelo laboratório Cristália, que obteve a patente em parceria com a UFRJ.

Quando o argumento da “perda de patente” aparece como justificativa para acelerar etapas ou pressionar reguladores, isso deve ser tratado como sinal de alerta, não como argumento científico.

O que há de genuinamente relevante na pesquisa

Feitas as ressalvas necessárias, é justo reconhecer o que a pesquisa representa de concreto e significativo:

•   O Brasil conseguiu desenvolver uma molécula própria e levá-la a estudo clínico em neurorregenaração, uma das áreas mais complexas e de menor sucesso histórico da farmacologia moderna.

•   A abordagem tenta reconectar circuitos neurais danificados — algo que está na fronteira do conhecimento científico atual e que, se validado, representaria um avanço paradigmático no tratamento de lesões do sistema nervoso central.

•   Diferentemente de muitas terapias inovadoras, a polilaminina tem potencial para ser produzida a custo relativamente baixo — o que, caso a eficácia seja confirmada, tornaria o tratamento acessível em escala global, inclusive em países de renda média e baixa.

O contexto histórico: por que a cautela é necessária

A história da medicina é repleta de moléculas que chegaram à Fase 1 com resultados animadores e nunca passaram disso. A taxa de sucesso de um composto desde o início dos ensaios clínicos até a aprovação regulatória final é inferior a 15% — e, em neurologia, esse percentual é ainda menor. O cemitério de terapias regenerativas promissoras é longo: moléculas que funcionaram em modelos animais, resistiram à Fase 1 e fracassaram nas etapas subsequentes por falta de eficácia em escala maior, toxicidade imprevista ou incapacidade de atravessar a barreira hematoencefálica de forma consistente.

Isso não significa pessimismo — significa probabilidade. E a probabilidade, bem comunicada, não diminui a esperança: a torna mais sólida, porque fundada em expectativas realistas.

O que deveria acontecer agora

O próximo passo indispensável é a publicação dos resultados em um periódico científico internacional com revisão por pares, com total transparência metodológica — protocolo detalhado, dados brutos acessíveis, conflitos de interesse declarados. Essa publicação não é burocracia: é o ato pelo qual a pesquisa deixa de ser uma promessa e passa a ser um dado verificável.

Se a polilaminina avançar bem nas Fases 1 e 2 com resultados sólidos e replicáveis, o Brasil terá produzido algo raro: uma terapia farmacológica regenerativa competitiva em custo, originada em universidade pública, capaz de disputar espaço em um mercado global que há décadas busca exatamente isso. Seria uma conquista extraordinária — e o caminho para ela exige exatamente o rigor que a cobertura midiática entusiasmada tende a ignorar.

A heroína nacional pode continuar sendo heroína. Mas a ciência só a consagra se o processo funcionar direito — não apesar dele.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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7 Comentários
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  1. José de Almeida Bispo

    24 de fevereiro de 2026 8:16 am

    Pois é.
    Torcida, da minha parte, não falta; mas desconfio de popularidade em ciências.

    1. Evandro

      24 de fevereiro de 2026 11:19 am

      Rapaz, digo o mesmo em relação aos penduricalhos travados pelo Dino.

  2. Carioca

    24 de fevereiro de 2026 12:53 pm

    Tomara que a pesquisadora e equipe não se infecte pelo “vírus midiático”…

    No mais, é torcer para que tudo se comprove.

  3. Fernando Antonio

    24 de fevereiro de 2026 2:42 pm

    Bom, concordo em grande parte com o artigo.
    Quanto a atravessar a barreira hematoencefálica creio que não haja essa limitação com a polilaminina que é aplicada diretamente na medula. A barreira hematoencefálica, se me lembro bem de meus estudos em veterinária, é para medicamentos aplicados de forma endovenosa.
    Quanto às expectativas, só quem tem um parente nessa condição sabe como é.
    Eu infelizmente tenho um irmão que recebeu a Polilaminina, de forma compassiva, no começo desse mês.
    É muito fácil falar em controlar expectativas quando não se está no olho do furacão.
    Quanto aos testes clínicos, teremos uma questão ética em estabelecer um grupo controle, dificilmente alguém se submeteria a um grupo controle tendo uma perspectiva de melhora, vejam bem, não estamos falando de uma dorzinha ou de um resfriado e sim da possibilidade de ficar em uma cama pelo resto da vida.
    Então o controle seria sem o placebo e sim com o tratamento convencional.
    Outra questão pode surgir a partir daí:
    Para quer ter um grupo controle com tratamento convencional se vc já tem estes dados consolidados na literatura mundial?
    Então é mais ou menos nisso que a pesquisadora se fia, confrontar os dados do tratamento com a polilaminina com os dados já existentes do tratamento convencional.
    Precisamos ter rigor para evitar quebra de expectativas, mas não precisamos de reinventar a roda para atender a formalismos.

    1. Agnaldo

      25 de fevereiro de 2026 9:16 am

      Se formos seguir a sua sugestão de como fazer ciência, logo, logo estaremos usando a magia como ciência.

  4. Mingo

    24 de fevereiro de 2026 8:12 pm

    Segundo filósofo Thomas Kunh, Nem sempre fazemos ciência normal (o longo processo de desenvolver vacinas, por exemplo), as vezes fazemos ciencia “extraordinária” que quebra algumas regras (os testes farmacológicos da pfizer durante a pandemia, por exemplo).
    Lembremos que a conexão zika virus e microcefalia foi feito pela médica Adriana Melo com apenas dois pacientes e foi solenemente ignorada por longos dois meses pelas autoridades de saude do país. Disserama a ela para fazer pesquisas com instituições de pesquisa para poder afirmar a relação causal. No Brasil matamos as ideias originais em seu nascimento. Parece que é uma ofensa pessoal ter ideias inovadoras neste pais

    1. Agnaldo

      25 de fevereiro de 2026 9:19 am

      O fato de a médica ter feito a conexão com apenas 2 pacientes por si só não significa nada, é apenas um indício. Você deveria explicar como foi feita a pesquisa que concluiu a relação causal. Indício por indício, a terra é plana.

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