Quinze anos de convivência com golpismo, discurso de ódio e financeirização sem limites deixaram marcas profundas na capacidade do Brasil de pensar estrategicamente. Por limitações políticas e talvez geracionais, o país abdicou da ousadia. A mediocrização, hoje, permeia todos os poros da Nação — e em nenhum lugar isso é mais evidente do que na condução da política monetária pelo Banco Central.
A Selic a 15%: Objetivo Único
O objetivo declarado do Banco Central é cristalino: controlar o carry trade — a operação financeira que toma emprestado recursos em países com juros baixos para aplicar em países com juros elevados. Mantendo a Selic em 15%, o Brasil atrai dólares, aprecia o câmbio e, com isso, derruba a inflação via importados mais baratos. E só.
Esse modelo, porém, cobra um preço brutal da economia real. A taxa básica de juros a 15% não é apenas um número — é uma barreira intransponível para o investimento produtivo, uma sentença de estagnação para milhões de empresas e uma alavanca de concentração de renda sem precedentes.
As contraindicações são evidentes:
● Paralisia do investimento produtivo: Nenhum empresário investe em ampliar a produção, contratar funcionários ou inovar quando pode obter 15% ao ano sem risco algum em títulos públicos. O resultado é a esterilização sistemática da capacidade produtiva brasileira.
● Explosão de recuperações judiciais: O Brasil encerrou 2025 com um recorde histórico de 5.680 empresas em regime de recuperação judicial — alta de 24,3% em relação a 2024. Enquanto as entradas explodem, as saídas são lentas: apenas 561 empresas conseguiram concluir seus processos de reestruturação no ano. Micro e pequenas empresas, que representam 80% dos pedidos, estão sendo massacradas.
● Endividamento familiar insustentável: Aproximadamente 29,2% das famílias brasileiras têm dívidas em atraso. Mais grave: cerca de 12,1% das famílias admitem que não terão condições de pagar suas dívidas vencidas no próximo mês. É um ciclo vicioso — juros altos encarecem o crédito, famílias se endividam, consomem menos, empresas vendem menos, economia estagna.
Reformas Pró-Bancos, Ausência de Contrapartidas
Nos últimos anos, toda reforma do Banco Central teve um único beneficiário: o sistema financeiro. Em nome da “modernização do mercado de crédito”, facilitou-se drasticamente a vida dos bancos credores, mas nada foi feito para tornar o crédito acessível ao cidadão comum ou às empresas produtivas.
Permitiu-se a execução extrajudicial de imóveis, reduzindo o prazo de retomada de seis anos (via Justiça) para seis meses (via cartório). Criaram-se as garantias recarregáveis, permitindo usar o mesmo imóvel para múltiplos empréstimos sucessivos. As duplicatas foram digitalizadas e registradas, eliminando o risco da “duplicata fria” e reduzindo drasticamente fraudes.
O ápice do absurdo foi permitir o uso do FGTS como garantia para crédito. Em caso de desemprego — justamente o momento em que o trabalhador mais precisa de recursos —, o banco credor tem garantia total para receber seu crédito, em detrimento das necessidades pessoais e familiares do cidadão.
E qual foi a contrapartida? Nenhuma. O spread bancário brasileiro permanece entre os mais altos do mundo, oscilando entre 30 e 40 pontos percentuais. Mesmo com todas essas reduções de risco operacional, os bancos não repassaram benefícios aos clientes.

A Ausência de um Projeto Nacional
O que mais assusta não são os números isolados, mas a ausência completa de horizonte. Não há plano, não há meta, não há objetivo de transformar o mercado de crédito em um direito do cidadão. Não há estratégia para fazer do crédito barato uma ferramenta de crescimento econômico.
Países que superaram o subdesenvolvimento — Coreia do Sul, Taiwan, China — usaram o sistema financeiro como ferramenta de política industrial, não como fim em si mesmo. Direcionaram crédito para setores estratégicos, subsidiaram investimentos produtivos, construíram capacidade tecnológica.
No Brasil de hoje, o Banco Central opera com mandato único (controle da inflação), sem considerar emprego ou desenvolvimento. Não há direcionamento estratégico do crédito. O sistema financeiro extrai renda da sociedade em vez de financiar sua transformação produtiva.
A pergunta que fica é incômoda: essa configuração reflete incapacidade técnica ou captura política? Os beneficiários desse modelo concentrado têm poder suficiente para bloquear qualquer alternativa?
Caminhos Possíveis — Mas Não Trilhados
Uma reforma estrutural do sistema financeiro brasileiro exigiria coragem política e visão de longo prazo. Algumas medidas seriam essenciais:
● Revisão do mandato do BC: Incluir crescimento econômico e emprego entre os objetivos da autoridade monetária, como faz o Federal Reserve americano.
● Política de crédito direcionado: Estabelecer metas obrigatórias de financiamento produtivo para bancos públicos e privados.
● Regulação efetiva do spread: Criar teto legal para o spread bancário ou exigir justificativa pública para suas margens.
● Reforma tributária financeira: Taxar pesadamente operações especulativas e desonerar crédito produtivo de longo prazo.
● Política cambial ativa: Deixar de entregar a taxa de câmbio ao sabor do carry trade internacional.
Nada disso está no horizonte. O país parece ter normalizado crescer 2% ao ano, conviver com desemprego estrutural, aceitar concentração obscena de renda e assistir passivamente enquanto o sistema financeiro parasita a economia real.
A Normalização da Mediocridade
A mediocrização institucional brasileira não é acidente. É resultado de décadas de captura do Estado por interesses financeiros, da renúncia a qualquer projeto nacional de desenvolvimento, da naturalização de uma economia que serve a poucos em detrimento de muitos.
Enquanto o Banco Central mantiver como único objetivo atrair capital especulativo via juros estratosféricos, o Brasil permanecerá condenado à estagnação. Empresas continuarão quebrando aos milhares, famílias afundando em dívidas impagáveis, investimentos produtivos sendo sufocados.
A questão não é técnica. É política. E a resposta à pergunta “podemos fazer diferente?” é simples: sim, podemos — se houver vontade de romper com os interesses que se beneficiam desse modelo fracassado.
Por enquanto, o Brasil segue medíocre. E confortável com sua mediocridade.
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Paulo Dantas
10 de fevereiro de 2026 7:58 amA questão começa por pelo menos se discutir o assunto.
O “mercado” no Brasil é o mercado ficanceiro.
Os partidos, todos eles, patinam na próxima eleição.
Em janeiro de 27 qualquer um que ganhe estará pensando nas eleições de 28.
Jicxjo
10 de fevereiro de 2026 8:56 amE a mídia hegemônica é o principal vetor da ciranda financeira contra qualquer mudança. Centenas de jornalistas mulas a serviço do infotráfico da Faria Lima.
Milton
10 de fevereiro de 2026 9:05 amAo artigo brilhante e irretocável cometo a ousadia de ajuntar minha visão particular de que ainda vivemos sob a sombra do Brasil Colônia. Os barões assinalados e intocáveis, os capitães do mato e a massa informe e sempre disponível do trabalho braçal. Nesta massa impera a luta sem lei, ou quase isto, pelas sobras da casa-grande. O tempo passa e nós seguimos na estratificação fixada desde 1500. Nada mudará enquanto os campos netos comandarem a maior rubrica no orçamento federal. Lula não tem o perfil necessário para grandes mudanças, sua grande virtude política é ver o centro e por aí trafegar. Gaucho, diria que lhe falta um tanto de Brizola, igualmente inatacável na retidão pública mas destemido na ação em defesa do povo mais humilde, sempre esquecido, ou quase isto, nas ações governamentais. O orçamento federal é testemunha.
JosemarceloEponto
10 de fevereiro de 2026 10:28 amNassif este título e subtítulo deveria ser colados na porta do escritório de cada diretoria das empresas,nossos empresários e povão parecem uns zumbis indo contra seus próprios interesses,já veem na mente deles”Mas e o Lula “numa incrível GUERRA PSICOLÓGICA digital e analógica começada intensamente com a Lava jato,fico maravilhado q as pessoas nem percebem !!!Obs Detalhe do subtitulo BENEFICIA A POUCOS…BILIONÁRIOS nem ao menos se presta a beneficiar a maioria dos nossos empresários analfabetos marias vão com as outras !!!
WRamos
10 de fevereiro de 2026 1:08 pmEvidentemente a recusa de ampliar os mandatos do BC é política. A resistência do “mercado” à indicação de Guilherme Mello para a diretoria do BC, decorre justamente dos trabalhos que fez recomendando triplo mandato para o BC (inflação, emprego e estabilidade financeira) e também meta de inflação medida pelos núcleos. São coisas que os países desenvolvidos fazem sempre, mas por aqui ideias de restrição prevalecem sobre o racional.
Fábio de Oliveira Ribeiro
10 de fevereiro de 2026 7:15 pmA ética do trabalho já era, ela morreu foi enterrada num “pet cemitery” e retornou como um zumbi. E agora muita gente zomba ou tem medo dela.
A crença na mobilidade social foi torturada até confessar que as hierarquias sociais devem ser preservadas de qualquer maneira. Ninguem mais pode acreditar que pode melhorar de vida estudando e trabalhando.
O capitalismo industrial foi domesticado pela financeirização de tudo. E agora os especuladores descobriram que é possivel ganhar muito dinheiro roubando aposentados, explorando pobres viciados em Bets e reciclando dinheiro de bandidos no mercado financeiro.
A Democracia virou coisa de velhos tolerantes. A juventude esta sendo ensinada a gostar de ditaduras e a matar e morrer por qualquer motivo fútil que concentre poder e dinheiro nas mãos dos tiranos e seus tiranetes.
Juizes e promotores assaltam desavergonhadamente os cofres públicos e ficam ofendidos e rancorosos quando alguém critica os salários acima do teto e penduricalhos abaixo da moralidade que eles recebem. Que eles não poderão receber mais… por algum tempo, talvez.
Os professores são tratados como bandidos. E os policiais invadem as salas de aula para maltratar e deseducar as crianças ganhando salários maiores do que os profissionais da educação.
O nó da economia travada pelos juros estratosfericos não pode ser desfeito porque poucos querem ganhar muito sem esforço mesmo que muitos passem fome. E para piorar entre os próprios prejudicados não poucos apoiam esse sistema de poder econômico-político que impede o país de seguir em frente.
Cansaço e decadencia se espalham por todos os ramos da sociedade. Mas são paradoxalmente aplaudidos como sinais de modernidade pela grande imprensa feita por pequenos jornalistas.
Nada pode dar certo… e mesmo assim nem tudo dá errado.
Antonio Uchoa Neto
10 de fevereiro de 2026 7:28 pmSe recensearmos todos os países que, a partir das Grandes Descobertas da virada do século XV ao XVI, prosperaram economicamente (e, nunca é demais lembrar, para o benefício de uma parcela tremendamente escassa de sua população, naquela época, vale dizer, Coroa, Nobreza, e Clero), é difícil dimensionar, e mesmo perceber, qualquer tipo de ação como ‘pensar grande’. A motivação para aquela extraordinária movimentação se limitava a questões de ordem comercial – nomeadamente, a cancela turca ao comércio europeu. Uma nova rodada destacada e razoavelmente generalizada de prosperidade econômica só viria com a Revolução Industrial – saem Portugal e Espanha, a França e a Holanda, entra a Inglaterra. Mais uma vez, nenhum sinal de ‘pensar grande’; apenas a necessidade de pilhar matérias-primas para a nascente indústria de transformação, e arrancar a produção da terra de outros países para alimentar os súditos da Rainha, após o Cercamento, quando a população rural migrou para as cidades industriais para trabalhar e poder comer – O Capital, Seção III, Capítulo 8 expõe as consequências dessa desgraça.
Tudo isso para dizer somente uma coisa; não é questão de ‘pensar grande’, é uma questão de pensar pragmática e minimamente, e aceitar que, nesse planeta, para prosperar, é necessário deixar de lado quaisquer ilusões de ética, moralidade, coisas que geralmente acompanham quem pensa. O Capitalismo só se justifica mediante exploração, em todos os níveis; e o Brasil nasceu do lado errado dessa equação. Nasceu para fornecer matérias-primas, commodities. Somente uma elite parasitária pode florescer em semelhante situação, e nada mais. O mundo desenvolvido não quer sócios, somente serviçais. Extermina a concorrência, e fomenta a exploração. Somente com ruptura – o mais das vezes violenta – pode-se alterar esse estado de coisas. É o que estão fazendo, mesmo carregando em si todos as suas desigualdades e vícios de origem, a Rússia, a Índia, a China. Sem violência, mas com firmeza. O liberalismo americano tradicional condenava, por exemplo, o protecionismo, ao mesmo tempo em que o praticava descaradamente; hoje, não se preocupam com aparências, e utilizam tarifas abertamente como prática política e comercial, porque países como os três citados estão agindo. Não se pode esperar que uma classe dominante cevada no parasitismo, no privilégio, na escravidão, comece, de repente, a ‘pensar grande’, e como nação, sabendo que isso significa abrir mão de seus privilégios. E essa tomada de atitude, se quisermos emular os russos, os chineses, e os indianos, implica em assumir o risco de provocar uma reação arrasadora da maior potência militar do planeta. Lula terá culhões para isso? Putin, Modi, e Xi tem força militar para encarar o desafio, em maior ou menor grau. E nós? Temos que pensar nisso, ou nos submeter ao nosso suposto Destino Manifesto de Colônia.
Alexandre Martins
10 de fevereiro de 2026 8:26 pmLula não parece se incomodar e tão pouco disposto a mudar esta excrescência pois indicou cinco membros do conselho monetário e todos eles a serviço do rentismo.
Anônimo
11 de fevereiro de 2026 6:13 amÉ uma epidemia.
E o vetor tem nome: PIG. Partido da Imprensa Golpista.
O povo embasbacado repete os mantras do PIG nas redes sociais com fanatismo religioso.
Bora fazer algo util: orar para pneu, ou fazer uma dancinha “Phora LULA, fora PT.
maurício shimabukuro
24 de fevereiro de 2026 8:19 amTexto excelente!