13 de junho de 2026

Florestan Fernandes, professor (4), por Walnice Nogueira Galvão

Florestan foi fundamental em tudo o que se referia a educação e ensino, que a seu ver continuava devendo ser “público, laico e gratuito”.
Florestan Fernandes - Portal Gov.br

Florestan Fernandes foi eleito deputado pelo PT em 1986 e participou da Constituinte de 1988, defendendo direitos humanos.
Destacou-se na Constituição por garantir direitos a indígenas e quilombolas e promover educação pública, laica e gratuita.
Escreveu coluna na Folha de São Paulo para explicar seu mandato e organizou a coleção Grandes Cientistas Sociais em 60 volumes.

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Florestan Fernandes, professor (4)

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por Walnice Nogueira Galvão

Deputado e Constituinte

Nos anos 80, Florestan foi procurado pelo Partido dos Trabalhadores, que o queria lançar como candidato a deputado. Seguiu-se um período em que ele saiu em campanha eleitoral e fez comícios em tudo quanto era campus do país. Foi ali que encontrou seu eleitorado – pois era óbvio que os estudantes do país todo liam seus livros e conheciam sua reputação de intelectual independente e desassombrado.

Florestan foi eleito em 1986 e reeleito em 1990, em dois pleitos sucessivos – e votei nele nas duas eleições.  Com o primeiro tornou-se constituinte da famosa Constituição de 1988 – também chamada de “Constituição Cidadã”, tais os cuidados com os direitos humanos que demonstrou. E, nessa parte, Florestan teve atuação destacada, sobretudo no que diz respeito aos direitos dos indígenas e dos descendentes de escravizados africanos.

Nunca é demais lembrar, entre outras coisas, que foi essa Constituição que instituiu os direitos dos quilombolas às terras onde viviam e determinou a demarcação de territórios indígenas – uma novidade na história do Brasil. 

Florestan também foi fundamental em tudo o que se referia a educação e ensino, que a seu ver continuava devendo ser “público, laico e gratuito”. É de sua autoria o importantíssimo artigo 218 da Constituição de 1988 que afirma caber ao Estado promover a ciência e a pesquisa científica, porque são essenciais para o progresso e o bem-estar da humanidade.  É bom lembrar esse artigo, porque os governadores do Estado volta-e-meia mandam projetos para a Assembleia tentando confiscar verbas das Universidades estaduais e da Fapesp.

Nessa fase de sua vida Florestan dedicou-se a explicar o que fazia como deputado, escrevendo uma coluna semanal na Folha de São Paulo. Assim democraticamente trazendo a público as grandes questões que eram discutidas no Parlamento, e ao mesmo tempo prestando contas a seus eleitores do que estava fazendo com o mandato que deles recebera.

Um pouco antes  Florestan empreendera a monumental edição em 60 volumes da coleção Grandes Cientistas Sociais, pela Editora Ática, coleção de antologias textuais. Foi demonstração ao mesmo tempo de erudição e de rigor no trabalho, porque ele leu pessoalmente todos os estudos que acompanharam as antologias. Foi assim que apanhou um defeito no volume dedicado a Euclides da Cunha, que me encomendara. Havia um ponto nodal no estudo em que eu me esquivara a aprofundar a reflexão, o que ele prontamente me cobrara. Devo-lhe a discussão comigo que esclareceu um ponto importante e que me valeria daí por diante em todos os trabalhos que se seguiriam. 

Entre livros, passou-se outro lance. Estava eu na Livraria Parthenon, no centro, lendo fascinada o livro de Oriana Fallaci, Um homem. Florestan entrou e, vendo meu interesse, comprou e me deu o livro de presente. Ainda fez uma dedicatória, ressalvando que estava errado, pois não se deve dedicar livro de outro autor. Ou seja, ainda ensinou alguma coisa a sua aluna. Esse era o homem tão temido…

Tive oportunidade de enfrentar suas iras em outra ocasião. Ele me dera uma entrevista para um número de revista universitária com depoimentos  de alunos das primeiras turmas. A sua era a mas longa de todas, e quando fui à sua casa buscar a prova gráfica por ele corrigida, deparei-me com o professor irritado. Ele reescrevera a entrevista inteirinha na entrelinha e estava aborrecido comigo por causa da trabalheira a que fora obrigado. Chegou a dizer que nunca mais daria uma entrevista, porque eram tempo e esforço desperdiçados… Claro que ainda daria um número imenso de entrevistas, mas na hora estava bem zangado.

Bom, paro por aqui, pois minha intenção não é esboçar uma biografia de Florestan, que fica a cargo de outros mais competentes, mas simplesmente mostrá-lo sob a perspectiva de quem teve o privilégio de ser sua aluna e de votar nele duas vezes.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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Professora Emérita da FFLCH-USP

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