Florestan Fernandes, professor (1), por Walnice Nogueira Galvão
INTRAMUROS
Pedem-me que, como aluna de Florestan Fernandes, fale sobre o impacto de sua presença e de sua atuação na Universidade.
Dos vários cursos que assisti, o que mais me impressionou pela originalidade e pela atualidade teve por tema “A responsabilidade intelectual do cientista”. Tema caro ao professor e ao qual voltaria sempre, dando exemplo de vida, e com uma reflexão teórica em torno disso que seria constante até a morte.
Nesse curso, para surpresa dos alunos – e é aí que repousa a originalidade – Florestan resolveu estudar o que tinha acontecido com os cientistas que criaram a bomba atômica. Ou seja, como lidaram com a catástrofe humanitária que foi o lançamento da bomba pelos americanos em Hiroshima e Nagasaki, no Japão, ao fim da Segunda Guerra Mundial.
Era a primeira vez na História que se usava uma “arma de destruição massiva”. E, de fato, o número de mortos instantaneamente, 70 mil, nunca se imaginara. O número de mortos a curto prazo, dobrando o total, tampouco. O número de mutilados, incluindo os deformados pela radiação a longo prazo, transmitindo-se de geração em geração, também era inédito.
Houve reações à barbárie e muita discussão. Por exemplo, era óbvio que a guerra vivia seus últimos dias e o Japão já estava de joelhos. Portanto, o objetivo só podia ser – e era tentador para qualquer militar – testar sobre seres humanos vivos os efeitos da bomba, que não se conheciam. Sabiam-se seus efeitos sobre materiais ou seres inanimados, ou ainda sobre animais de laboratório, mas sobre seres humanos vivos, só assim.
O debate foi acirrado, acalorado, e persiste até hoje, quando a bomba não é mais apenas atômica mas sim de hidrogênio e tem uma potência muitas vezes superior àquelas que foram lançadas sobre o Japão.
Entraram na discussão alguns dos próprios cientistas que criaram a bomba. Entre eles um que se destacou dos demais, e que se disse arrependido, sentindo-se responsável por aquela hecatombe. Esse foi o físico Robert Oppenheimer, diretor do Projeto Manhattan que construiu a bomba, e especialista em tratamento de urânio. Ele proferiu uma frase famosa, que extraiu do livro sagrado do hinduísmo, o Bhagavad-Gita (por sua vez parte do Mahabárata), que era como ele se sentia ao ver o resultado empírico da bomba. Nas palavras do deus Shiva (ou Vishnu): “Eu sou a Morte, a destruidora de mundos…” E pelo resto da vida Oppenheimer se consagrou como um pacifista, um militante da paz entre os homens. Mais de meio século depois um filme lhe seria dedicado.
Tudo isso Florestan nos ensinou nesse curso tão original . Ninguém na Universidade estava a par de um tema tão importante para o futuro da humanidade, como esse. Tanto é que neste momento estamos discutindo tudo isso novamente, seja pelo alarme levantado pelos Estados Unidos, seja pelas fanfarronices do presidente da Coréia do Norte, seja pelas acusações que o presidente americano faz à China (até chamando a pandemia de “peste chinesa” e o coronavirus de “virus chinês”). Esses três países são, como se diz, ”potências nucleares”. Ou seja, todos os três – Estados Unidos, Coréia do Norte e China – possuem a bomba.
EXTRAMUROS
Isto, quanto ao professor em sala de aula.
Mas enquanto professor fora da sala de aula, não faltavam motivos para os alunos prestarem atenção em Florestan.
Duas foram as causas fora da Universidade a que deu seu apoio, dedicando-se pessoalmente a elas, como veremos a seguir. Sem esquecer que foi desde sempre um democrata e um socialista.
(continua)
[Palestra na celebração do Centenário de Florestan Fernandes, Florestan Fernandes: o intelectual cidadão e a resistência à ditadura, Fundação Perseu Abramo (2020)]
Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP
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