Florestan Fernandes, professor (3)
por Walnice Nogueira Galvão
COLISÃO COM A DITADURA
Deu-se então a primeira colisão com a ditadura instaurada pelo golpe militar de 1964. A ditadura perseguiu imediatamente todos aqueles identificados com a Campanha em Defesa de Escola Pública: Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, Paulo Freire, a própria UNE – cuja sede no Rio de Janeiro foi bombardeada, incendiada e ocupada pelos militares já no primeiro dia do golpe. E, naturalmente, Florestan.
Nossa Faculdade de Filosofia, a Maria Antonia, foi objeto de um Inquérito Policial-Militar. Dentre os primeiros chamados a depor estava Florestan. Depois do depoimento ele passou alguns dias preso, para desespero dos alunos e colegas. Sua prisão originou-se de uma carta aberta que redigiu e publicou, denunciando o arbítrio. Entre outras ignomínias obrigaram-no a cantar o hino nacional, sob pretexto de que não o sabia pois estava “a soldo de potências estrangeiras”.
Ao ser solto e dirigir-se à Faculdade para retomar suas atividades, foi surpreendido por uma manifestação. Alunos, professores e funcionários encheram a calçada, as escadas e o saguão da Maria Antonia, e quando ele surgiu, sem combinar nada, todos começaram a cantar o hino nacional. Florestan era um de nossos heróis…
Mas não aprendeu a lição, não curvou a cabeça nem se submeteu.
Continuou em suas atuações costumeiras, com a crescente radicalização que ocorreu entre 1964 e 1968, quando o descontentamento foi aumentando. Em 1968 a Faculdade de Filosofia da rua Maria Antonia foi ocupada pelos alunos. Como muitas outras Brasil afora e mundo afora: 68 foi um movimento mundial, radicalíssimo por exemplo no Japão, coisa que já nem é lembrada. Muitos professores eram simpatizantes e aderiram à causa dos alunos, participando dos debates e fazendo experimentos didáticos solicitados por eles. Lembro os nomes de Antonio Candido (membro eleito da Comissão Paritária de alunos, professores e funcionários que administrou a ocupação), de Sergio Buarque de Holanda e, é claro, de Florestan Fernandes.
Afora isso, Florestan em 68 viajou muito pelo Brasil e participou de atos públicos de desafio à ditadura, como esse gesto de ocupar as dependências da escola. As Faculdades ocupadas se tornaram foco desses atos e promoviam seminários, cursos, manifestações, passeatas etc.
Quando no fim do ano (13 de dezembro de 1968) a ditadura promulgou o famigerado AI-5, que suspendia direitos civis, logo veio uma lista de cassados pelo Brasil todo, e Florestan era um deles. Foi expulso da Universidade e teve seus direitos de cidadão cassados por 10 anos.
Castigo exemplar para Florestan, cuja vida era a Faculdade e a Universidade, que acreditava naquilo profundamente e ficou desarvorado.
Seguiu-se a fase de exílio, em que ele foi professor nos Estados Unidos e no Canadá. De volta ao Brasil, a PUC teve a brilhante ideia de contratá-lo, e ele pôde voltar a dar aulas no país, o que fez durante alguns anos.
Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP
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